quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A “badaliya” como mistério islamo-cristão


O pensador Louis Massignon (1883 – 1962) é conhecido como o pai da islamologia católica, dando início a um processo de estudo e reflexão islâmica numa cadeia formada por grandes intelectuais. Louis Gardet, Jean Mohamed Ben Abdeljlil, George Anawati, Serge de Beaurecueil, Christian de Chergé, estão entre os seus discípulos diretos e indiretos. Massignon é a força teórica que fundamentou, por exemplo, as fundações do Instituto Dominicano de Estudos Orientais (IDEO) no Cairo, e do Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos (PISAI).  A sua monumental obra sempre esteve acompanhada de uma capacidade singular de discipulado intelectual, fazendo de Massignon o ponto de partida para a islamologia.

Massignon também abriu as portas da reflexão para o posicionamento da Igreja sobre o Islamismo. Anawati, Gardet e Abdeljilil participaram como consultores do Secretariado para os Não-Cristãos, criado com o Concílio Vaticano II. Ainda na época das discussões conciliares, o IDEO foi chamado a colaborar com aportações sobre o mundo islâmico. Anawati, que em sua tese doutoral teve a Massignon na banca avaliadora, impartiu uma conferência sobre o assunto, com uma prestigiada plateia formada por teólogos e Cardeais. As suas reflexões e questionamentos sobre o mistério do Islã e os problemas que ele suscita para a consciência cristã, influenciaram a redação da declaração "Nostra Aetate".

Entretanto, o legado mais esquecido de Louis Massignon talvez seja o de maior relevância. Por detrás de um homem preocupado com conjecturas teóricas, havia um católico, convertido em terras orientais, com um coração orante. Todos os seus pupilos intelectuais, também seguiram a sua trilha espiritual, centrada em duas experiências muito profundas. A hospitalidade e, principalmente, a “badaliya”, uma palavra árabe que significa o substituto de outro. É um termo espiritual que está, para Massignon, no coração da experiência da fé cristã, conectando-se ao mistério da imagem de Deus, no Verbo encarnado que se sacrifica, em substituição, por toda a humanidade. Assim, ser um seguidor de Cristo é oferecer-se por amor ao bem-estar dos outros.

Massignon, na igreja franciscana abandonada de Damietta, no Egito, onde São Francisco de Assis se encontrou com o sultão al-Malik al-Kamil, em 1219, promete um “voto de substituição”, oferecendo sua vida aos muçulmanos. Massignon havia recusado o convite do Beato Charles de Foucauld para unir-se a ele em Tamanrasset, no deserto do Saara, em 1914, escolhendo a vida matrimonial. Agora, 20 anos depois, em 1934, seguindo os passos do próprio eremita, Massignon se consagra numa vida silenciosa, para que a vontade de Deus seja realizada nos muçulmanos e através dos muçulmanos. Para ele, esse sacrifício do ego por um irmão no Islã foi o ideal de toda a sua vida. Depois de redescobrir sua fé cristã no Oriente Médio durante uma viagem de estudos a Bagdá, o renomado orientalista inspirou, em 1947, uma associação internacional de oração, que ele dirigiu incessantemente até sua morte.

A “badaliya” se conecta com a noção da hospitalidade, um dos deveres mais arraigados do Islã. Para Massignon, essa dinâmica funcionava com uma lente através da qual ele via a totalidade do relacionamento de Deus conosco e nosso relacionamento com o outro. Receber o outro como ele é, em sua estranheza e mistério, aceitá-lo e compartilhar com ele e, ao mesmo tempo, ser recebido - nisso consiste a Lei e os Profetas e o “Fiat”, a aceitação graciosa da Palavra Encarnada da Virgem Maria – era a comunhão dialógica que apontava para o puro mistério de Deus.

Os discípulos intelectuais de Massignon não apenas herdaram a sua relevância no mundo teórico, mas encarnaram em suas próprias vida a vocação espiritual da “badaliya”, cada um ao seu modo. Talvez, o mais destacado dentre eles, seja Christian de Chergé, Prior do Mosteiro de Nossa Senhora do Atlas, de recente beatificação. De Chergé e Massignon experimentaram, em suas vidas, duas “substituições” que seriam fundamentais para a conversão de ambos. Os dois foram salvos por muçulmanos. Massignon, capturado como suposto espião pelos turcos, apenas foi liberado graças à intercessão dos seus anfitriões. Chergé, quando servia na Argélia como militar, também foi salvo quando o seu amigo, Mohammed, intercedeu por ele quando foi ameaçado numa emboscada. Entretanto, diferentemente do caso de Massignon, quem o salvou pagou com o sangue, sendo assassinado um dia depois. Isso chocou a De Chergé e foi o vetor da sua conversão.

Já como Prior do Mosteiro, defendia que a sua comunidade monástica deveria encarnar uma “hospitalidade radical”, numa verdadeira comunhão com os vizinhos muçulmanos. O Beato Christian, assim como Foucauld, comemorava com maior ênfase a festa da Visitação da Virgem Maria, quando ela, grávida, foi à casa de sua prima, Santa Isabel. Chergé interpretava nesse evento as notas mais profundas da hospitalidade enquanto experiência de encontro e enxergava paralelos com a própria peregrinação à cidade sagrada de Meca. Das necessidades apostólicas do Mosteiro, surge o “Ribat al-Salam”, um grupo de oração e reflexão, inicialmente frequentado por religiosos católicos na Argélia, mas que também passa a receber místicos sufis da tariqa Alawiyya. De Chergé, entretanto, abraçará em sua vida e morte a coerência com aquilo que carregava em seu coração. A decisão comunitária em continuar na Argélia, apesar de todas as intempéries causadas pelo fundamentalismo, durante a guerra civil na década de 90, foi tomada em base a essa “badaliya”, em comunhão com os argelinos tão vítimas do terrorismo como eles, os monges de Tibhirine, seriam.

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