sexta-feira, 20 de julho de 2018

Espera e Mística: O sentido esotérico da crença mahdista no xiismo

Refletir sobre o retorno do Imam al-Mahdi é falar sobre o desfecho da dinâmica revelatória em seu sentido místico mais profundo. O Fim dos Tempos, com a manifestação do Esperado, também é formado por aquelas duas dimensões que se fazem presentes em toda a estrutura religiosa e espiritual xiita: o aparente-exotérico (zahir) e o oculto-esotérico (batin). De um lado, o plano coletivo, universal e externo, que se fará ver nos movimentos históricos e, do outro lado, a dimensão interna, interiramente individual, agindo nos corações dos fiéis. Isto posto, destaca-se que assim como o ciclo da profecia culmina no Selo dos Profetas, também a Walayah, que corre paralela à profecia de período em período, possui um duplo selo na revelação muhammadiana: o Selo da Walayah geral na pessoa do primeiro Imam Ali ibn Abu Talib e o Selo da Walayah Muhammadiana, o aspecto esotérico dos esoterismos anteriores, na pessoa do décimo segundo Imam, Muhammad ibn Hasan al-Mahdi.

O Imam al-Mahdi, filho do Imam Hassan al-Askari, desde seu nascimento e infância tem uma vida cercada de eventos miraculosos e fantásticos. Um dos aspectos simbólicos mais interessantes em sua história familiar, que muitas vezes passa desapercebido, é sobre a origem de sua mãe. De acordo com alguns relatos, ela seria uma escrava negra, provavelmente da Núbia. Outras referências, contudo, a apresentam como a neta do imperador bizantino, descendente do apóstolo Simão. Segundo esta versão, a princesa bizantina foi capturada e vendida como escrava em Bagdá, chegando ao séquito de Hakimah Khatun, filha do nono Imam, Muhammad al-Jawad.  Diz a Tradição que pouco antes de ser capturada, a princesa, cujo nome na época era Maliki Bash Yashika, encontrou-se em sonho com Maria, a mãe de Jesus, e com a Senhora Fátima. Ambas conclamaram que se convertesse ao Islã e que se deixasse capturar pelas tropas muçulmanas, já que ela estava destinada a uma vida gloriosa.

Os pontos mais interessantes na origem materna do Imam al-Mahdi são aqueles que parecem destacar um substratro simbólico de peso inigualável. Como parte da estrutura dual do xiismo, é possível enxergar essas notas características na Senhora Narjis como parte de um arcabouço referencial. Ela, enquanto grega (ou romana) e cristã, antes de sua conversão, concede um caráter de universalidade plena ao seu filho. Ele, como o Esperado de todos os povos, já superou as barreiras étnicas e religiosas em sua origem familiar, carregando o sangue do Mensageiro do Islã e dos Apóstolos de Jesus, dos árabes dos desertos e dos bizantinos das cidades. Essa dualidade geracional é de uma singular relevância simbólica e se conecta profundamente com o carisma mahdiano em sua missão restauradora.

Dentro da perspectiva xiita, o termo “Imam” refere-se à pessoa que contém dentro de si a "Luz Muhammadana" (al-nur al-mahammadi) que foi transmitida através de Fátima, a filha do Profeta, e Ali, o primeiro Imam, para a sua descendência, terminando com o Imam Escondido, desfecho e completude do Imam Côsmico em sua integral manifestação revelatória. Como resultado da presença desta luz, o Imam é considerado "sem pecado" (ma'sum) e possui perfeito conhecimento da ordem esotérica e exotérica. O Imam, enquanto veículo da revelação de Deus, é a perpetuação mística do Ser Divino na terra. Por isso, comentando o versículo 39:69 - "E a terra resplandecerá com a luz do seu Senhor" - Imam Ja'far la-Said disse, "o Senhor da Terra é o Imam da Terra". A existência do Imam al-Mahdi é a validação, por parte do xiismo, do coração espiritual do mundo. Allamah Tabataba'i, em “Shi'ite Islam”, lembrou que antes mesmo do seu aparecimento escatológico, o Imam Esperado já exerce esta força mística na vida dos crentes, atuando como o Polo transcendente ao qual convergem todos aqueles que buscam a Deus.
"O dever do Imam não é apenas a explicação formal das ciências religiosas e orientação exotérica dos crentes. Da mesma forma que ele tem o dever de guiar os homens externamente, o Imam também tem a função da Walayah e a orientação esotérica dos homens. É ele quem dirige a vida espiritual do fiel e orienta o aspecto interno da ação humana em direção a Deus. Claramente, sua presença ou ausência física não tem efeito nesse assunto. O Imam supervisiona os homens interiormente e está em comunhão com a alma e o espírito dos homens, mesmo que ele esteja oculto a seus olhos físicos. Sua existência é sempre necessária, mesmo que o tempo ainda não tenha chegado para sua manifestação externa e para a reconstrução universal que ele deve realizar."
O advento do Imam pressupõe a elevação do coração dos homens. Em certo aspecto, a fé de seus seguidores depende do cumprimento progressivo dessa Parusia pessoal, através de seu próprio ato de ser. O crente que descobre a Luz do Imam do Tempo e a iniciação que ele outorga também retorna à origem já que, em um sentido místico, refaz a iniciação primordial quando, no Mundo das Partículas, sua entidade pré-existente foi iniciada nos segredos divinos pela forma luminosa do Imam arquetípico. Nesse sentido, a dimensão coletiva do messianismo mahdiano, marcada enfaticamente pela violência e pela batalha contra o mal, atualiza a batalha primordial entre as forças da inteligência e da ignorância. Travada desde o alvorecer da criação, esta luta escreve a história da humanidade, uma vez que tem repercussões, de tempos em tempos, no conflito que coloca os Imams e seus iniciados contra as forças das trevas e da contra-iniciação.

Através da restauração espiritual, por meio de uma iniciação universal, erguendo o véu que separa o exotérico do esotérico, o Qaʾim resgata ciclamente o mundo, retomando este "momento" original, quando apenas aqueles cheios de sabedoria habitavam o universo. Neste contexto, a batalha escatológica do Mahdi é a derradeira desta interminável guerra cósmica que selará a vitória definitiva das forças da Inteligência sobre as da Ignorância. Esta vitória constitui assim o retorno à origem, desde que vencendo a Ignorância e seus Exércitos, o Mahdi recupera o mundo ao seu estado original. Nesse sentido, a escatologia islâmica se afasta da noção cristã, por exemplo. Enquanto na cosmovisão muçulmana existe um processo ciclíco de retomada do sentido original da criação e da existência, o cristianismo entende o fim dos tempos dentro de um marco evolutivo e progressivo.

O sinal universal do retorno do Esperado consiste na invasão generalizada da terra pelo Mal e a vitória sobre o Bem, exigindo assim, de alguma forma, a manifestação do Salvador escatológico, fonte de esperança e redenção. Obviamente, o que caracteriza o mundo imediatamente antes da vinda do Mahdi é a perda do significado do sagrado, a obliteração de tudo o que conecta o homem a Deus e ao seu próximo, falha geral na observância de preceitos religiosos e deveres morais, invertando os valores humanos. Como razão histórica, pode-se destacar que, primeiramente, o Esperado retorna para vingars-se da morte de Imam Hussein.

Como atenta Henry Corbin em “En Islam iranien”, existe uma curiosa convergência entre a forma como o xiismo concebe o Imam al-Mahdi e como a ação do Paráclito cristão é especialmente entendida por alguns movimentos, como os joaquimitas do séc. XIII, seguidores do monge herético Joaquim de Fiore.  Dentro de ambas as noções, a história foi direcionada por uma ideia paraclética, inspirando modos de pensamento e dinâmicas dialéticas com vistas ao reino do “Espírito Santo”. O Islã, juntamente com outras religiões, especialmente o judaísmo e o cristianismo, distorcidos e abandonados por seus seguidores, serão agraciados com o reestabelecimento de suas integridades originais. Os homens recuperarão sua Inteligência Sagrada, o "imam interior" que habita dentro dos seres humanos. Como a luz do Imam é o coração dos crentes, a luz do al-Mahdi ressoará diretamente neste órgão luminoso de percepção sagrada reinante no coração. Assim, portanto, como conquência do despertar das consciências espirituais, as religiões serão restabelecidas e libertadas das suas imperfeições. Não serão mais meras estruturas exotéricas, mas, isto sim, ensinamentos espirituais esotéricos. Esta iniciação universal do Polo dos Polos é a libertação dos corações e a ponte pela qual de todos os seres humanos alcançarão a plenitude da Verdade.

O Mahdi proporcionará aos crentes de cada religião a hermenêutica do significado oculto de sua Sagrada Escritura. A ideia fundamental é que o Imam esperado não trará consigo um novo Livro revelado e nem uma nova Lei, mas revelará o significado oculto de todas as Revelações. Ele, como o Homem Integral, o aspecto esotérico da realidade eterna, é a revelação das Revelações. A Parusia do Imam Esperado significa uma revelação antropológica plena, que se desdobra dentro do homem que vive no Espírito. O Qa'im retorna para restabelecer o significado perdido do sagrado, resgatando primeiramente o Islã em sua pureza e integridade originais. Entende-se, portanto, que sem um Imam não há religião e sem esoterismo, o exoterismo perde sua direção, seu propósito, seu objetivo, assim como seu significado. Por isso que, ao final, a batalha marcará a vitória derradeira dos "crentes" contra seus "inimigos" e o estabelecimento definitivo e universal da plena religião.

Outro aspecto singular da crença mahdiana xiita é que esta, diferentemente da “espera” escatológica tradicional das mais variadas religiões, não se faz sobre uma expectativa ausente. O Esperado, o al-Mahdi, já é conhecido e deixou de ser uma doutrina teológica, como o Messias judaico. Ele existe e é amado pelos seus seguidores. A espera xiita transforma-se, portanto, em algo cheio de vida. O Mahdi compartilha das esperanças das quais os crentes já participam.  Como testemunha, o Esperado se transforma em uma força real de vivacidade espiritual para os fiéis. Esta crença faz do xiismo uma noção religiosa única entre as mais variadas manifestações da experiência de fé. Ayatollah Muhammad Baqir al-Sadr, em seu texto “An Inquiry Concerning”, afirma:
“O al-Mahdi (que a paz esteja com ele) não é mais uma idéia esperando para ser materializada, nem uma profecia que precisa ser substanciada, mas uma realidade viva e uma pessoa em particular, habitando entre nós em carne e osso, que compartilha de nossas esperanças, sofrimentos, tristezas e alegrias, testemunhando todos as infelicidades, decepções e transgressões que existem na superfície da terra, que é afetado por tudo isso de perto ou de longe, que está esperando o momento apropriado quando poderá estender suas mãos a todo oprimido e necessitado e erradicar os tiranos”
A teologia xiita é a única que reconhece a preservação, manuteção e perpetuação da direção espiritual entre o homem e Deus, por meio da força carismática do Imamato. Para os Católicos, por exemplo, a autoridade magisterial é uma instituição querida por Deus, mas não é uma emanação do Seu Ser. Contudo, para os xiitas, a Walayah eterna encarnada na figura dos Doze Imames é a continuação da dinâmica esotérica do profetismo muhammadiano, em uma dimensão espiritual muito além da estabilidade institucional. Pode-se dizer, em conclusão, que o Islamismo Xiita é a única religião que reconhece que o coração da sua tenacidade mística ainda bate em um peito carnal nesta terra criada por Deus. Ayatollah Mohammad Sadeqi Tehrani, comentando a relação de Henry Corbin com Allamah Tabataba’i em “80 Stories From The Life Of Allama Tabatabai”, disse:
“Corbin era da opinião de que, justamente porque o xiismo acreditava na existência de um Imam vivo, era a única religião que ainda estava viva. Isso ocorre porque a crença e a confiança em Hazrat Mahdi (a) sempre permanecerão estabelecidas. A fé judaica morreu com a morte de Hazrat Musa (a), o cristianismo com a ascensão de Hazrat Issa (a). Todas as outras seitas do Islã também chegaram a um beco sem saída com a morte de Hazrat Muhammad (s). O xiismo, por sua vez, afirmou que a autoridade, o Imam e o possuidor da Walayah, aquele que está conectado com o mundo espiritual e que recebe orientação divina, está vivo, e, portanto, o próprio xiismo permaneceu vivo como religião”
Assim como o Profeta Muhammad, como o Selo da Profecia, era o “mazhar” (epifania) da profecia no sentido absoluto, o primeiro Imam, o “wasi” ou herdeiro de Muhammad, era o “mazhar” e o Selo da “walayah” também em seu sentido absoluto. As manifestações parciais da “walayah” começaram com Seth, filho de Adão, e culminarão com o Madhi - no presente, o Imam escondido - como Selo da walayah particular durante o período final de profecia. Vale destacar que os doze imames, como unidade pleromática, formam uma mesma luz e uma mesma essência. Entende-se, portanto, que o Imamato Muhammadiano é a manifestação do aspecto esotérico da eterna Realidade profética. Destarte, a crença neste retorno escatológico tem uma dimensão histórica, de restruturação da justiça e da ordem. Por outro lado, o reaparecimento do Mahdi carrega em sua essência o resgate do sentido místico da própria existência humana. O Esperado trará consigo a iniciação universal, capaz de reavivar as consciências espirituas. A crença mahdista é o que torna pulsante, no coração do xiismo, a sua esperança futura. Não apenas uma espera em uma redenção humana e terrena, mas, isto sim, a expectativa pela retomada da integridade criacional em sua profundidade original.