domingo, 24 de junho de 2018

O ódio anti-religioso na Albânia comunista

O regime do ditador Enver Hoxha na Albânia superou a perseguição religiosa. Muito além de um conflito ideológico, o regime comunista alimentou um ódio visceral às manifestações de fé. O seu governo procurou reformular radicalmente o ethos albanês reestruturando a sociedade  através de uma sistemática e organizada perseguição às religiões. Era necessário recriar uma identidade nacional centralizada na devoção ao país e à raça. Para tanto, Hoxha iniciou uma política de destruição cultural de toda expressão pública de fé. Clérigos muçulmanos e cristãos foram presos, milhares de mesquitas e igrejas foram fechadas. O governo da Albânia passou a destruir enfaticamente minaretes e torres, assim como santuários sufis que atraiam a muitos peregrinos. As práticas religiosas foram proibidas e uma estrutura de vigilância e terror aplicada com rigor. 

Hoxha buscava formar uma nova geração de albaneses totalmente desconhecedores da religião em sua doutrina e história. Em 1967, o regime comunista declarou a Albânia o único país não-religioso e ateu do mundo, proibindo todas as formas de prática religiosa em público. As orações comunais de sexta-feira em uma mesquita foram proibidas e quem possuia um volume do Alcorão poderia ser preso caso descoberto. Entre os adeptos da Ordem Bektashi, a transmissão do conhecimento limitou-se a poucos círculos familiares que residiam principalmente no campo. 

Desde o início da ascensão comunista, muçulmanos e cristãos estiveram lado-a-lado na luta contra a opressão. Em 1946, logo após a tomada de poder, dois franciscanos - Lek Luli e Anton Harapi - e dois padres seculares - Lazer Shantoja e Andrea Zadeja - foram sumariamente executados. Shantoja foi tão gravemente torturado antes de morrer, com seus antebraços e ossos da perna quebrados, que ele só podia andar com os cotovelos. Outros sacerdotes de importância no mundo intelectual também foram mortos. O governo também executou o advogado muçulmano Muzafer Pipa, que defendeu corajosamente a estes jesuítas e franciscanos.

As mesquitas tornaram-se em alvos recorrentes para os comunistas albaneses, que acreditavam que a simples existência de templos era uma afronta ideológica. Os edifícios foram apropriados pelo estado, que freqüentemente os transformava em locais de reunião, salões de esportes, armazéns, celeiros, restaurantes, centros culturais e cinemas, na tentativa de apagar essas ligações entre os templos e o povo. Em 1967, no espaço de sete meses, o regime comunista destruiu a 2169 edifícios religiosos e outros monumentos. Em Tirana, em 1991, apenas duas mesquitas estavam em posição de serem usadas para o culto e apenas nove mesquitas da era otomana sobreviveram à ditadura de Hoxha.  O mesmo também se aplicou ao Cristianismo albanês, ortodoxo e católico. Todas as igrejas foram tomadas pelo estado e, em 1990, cerca de 95% dos edifícios religiosos foram destruídos ou convertidos para outros usos. Quase 2000 igrejas foram destruídas. Mais de 100 padres católicos e bispos foram executados ou morreram sob tortura ou em campos de trabalho. Hoxha até mesmo construiu um museu do ateísmo. O seu ardor anti-clerical e sua fúria no controle social eram tão radicais que a URSS se opôs ao seu regime. 

O governo comunista, através de sua política ateia, destruiu o modo de vida muçulmano e a cultura islâmica na Albânia, assimo como reduziu o Cristianismo a destroços. Entretanto, quando os serviços religiosos foram autorizados novamente em 1990, imediatamente atraíram a milhares de pessoas. O governo devolveu as propriedades religiosas em 1991, mesmo ano em que Madre Teresa, albanesa étnica, fez uma breve visita ao país e abriu um convento. A igreja albanesa triunfou a um alto preço. Dos 156 sacerdotes antes do início da perseguição, 65 foram martirizados e 64 morreram durante ou após a prisão. O Islamismo também ressurgiu das cinzas, com a redescoberta da religião por uma juventude educada sob a comosvisão ateia do comunismo. Igualmente, a Ordem Bektashi, de grande importância na Albânia, se reorganizou e renasceu com grande fervor. No séc. XX não houve uma fé mais verdadeira do que a dos crentes muçulmanos e cristãos da Albânia. 

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