terça-feira, 19 de junho de 2018

O Bispo e o Islã

Léon-Étienne "Muhammad" Duval, foi Arcebispo de Argel, na Argélia, de 1954 até 1988, sendo criado Cardeal pelo Papa Paulo VI. Conhecido pela sua ortodoxia doutrinal e litúrgica, se transformou no responsável por uma grande revolução nas relações islamo-cristãs no Magreb. Já como Bispo de Constantine, também na Argélia, Duval sempre foi um árduo crítico do preconceito institucional alimentado pelo governo francês nos tempos da colonização. Ademais, pontuava que a criação dessa atmosfera de ódio apenas geraria tensões que inevitavelmente se converteriam em violência. De fato, a guerra de independência da Argélia foi conhecida pela sua sanguinolência, deixando chagas que não curadas gerariam a guerra civil em 1991.

Cardeal Duval reconhecia que ele não era apenas o Bispo dos católicos, mas sim de toda a população de Argel. Por conta do seu trabalho de aproximação com os muçulmanos e sua crítica à crença na superioridade civilizacional francesa, passou a ser chamado pelos "Pieds-Noirs" de Muhammad Duval. A Argélia que surgiu após a independência, em 1962, parecia um sonho conquistado. O Islã era reconhecido como a religião oficial, mas o Cristianismo tinha a sua liberdade religiosa garantida. Além disso, o governo deu a nacionalidade argelina a diversos sacerdotes e religiosos e passou a tratar os padres como funcionários públicos, como fazia com os imames das mesquitas. O governo também transmitia nas rádios as Missas nas mais importantes solenidades litúgicas, como Natal, Páscoa, Pentecostes etc, com traduções em árabe, francês e berbere.

Entretanto, o aparente equilíbrio foi rompido por uma escalada de ódio. Dom Duval testemunhou a chegada do salafismo na Argélia independente, desestabilizando a paz que havia sido construída através de uma sólida aliança entre o clero cristão e as lideranças tradicionais islâmicas, especialmente sufis. A Frente Islâmica de Salvação (FIS) surgia na década de 80, muito influenciada por estudantes formados nas universidades da Arábia Saudita. Na década de 90, e como divisião da FIS, se estrutura o Grupo Islâmico Armado, responsável pelo sequestro e morte dos monges de Tibhirine. O radicalismo wahhabita possibiliou o aumento da violência anti-cristã, como no assassinato de Dom Gaston Marie Jacquier, Bispo Auxiliar de Argel, já em 1976. Além dos grupos radicais organizados, iniciativas fundamentalistas eclodiam sem uma partidarização muito clara. Pierre Claverie, Bispo de Orã, foi morto em um atentado a bomba feito por essas guerrillhas urbanas que surgiam no contexto amardo da Argélia.

Não obstante o terror, Cardeal Duval também pode testemunhar como, apesar de todas as adversidades, as comunidades consagradas católicas, juntamente com os muçulmanos tradicionais, puderam criar uma relação de paz e concórdia. Destaca-se, por exemplo, os Monges de Thibirine, que acolheram a milhares de argelinos refugiados ao redor do mosteiro, dando origem a um povoado abacial, até mesmo com a criação de um grupo de estudo e reflexão formado pelos trapistas e por místicos sufis. Outra grande iniciativa foi a fundação do Centre des Glycines, que era um instituto diocesano para os estudos do árabe clássico e do islamismo. A idéia original estava enfocada nos religiosos que planejavam servir na Argélia. Mas a independência fez com que uma grande quantidade de muçulmanos buscasse o Centro como meio para conhecer melhor sua cultura, empenhando-se em aprender o árabe, já que a língua colonial era o francês.

A vida de Cardeal Duval também é cheia de outras particularidades. Ele era muito amigo de Marcel Lefebvre, o Bispo tradicionalista, e foi chamado pelo Governo Interino do Irã, após a Revolução Islâmica, para visitar os americanos sequestrados na embaixada em Teerã. Em 21 de maio de 1996, os Monges de Tibhirine, sequestrados pelo GIA, foram decapitados. Dom Duval, ao receber a notícia, disse aos que estavam com ele: "a morte dos monges me crucifica". Décadas antes, em 1963, ele havia se oposto à decisão do Abade Geral trapista que pretendia fechar o mosteiro argelino. Para Duval, a presença monástica em solo islâmico era fundamental para a contemplação e a melhor ponte de diálogo. Um semana depois, aos 92 anos, "Muhammad" Duval falecia. Ele está sepultado na Basílica de Nossa Senhora da África, em Argel.

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