sábado, 23 de junho de 2018

A radicalização da Argélia e o início da Guerra Civil

Quando a Argélia se tornou independente em 1962 com a Frente de Libertação Nacional, saindo vitoriosa a sua ala socialista e nacionalista, iniciou-se um processo de retomada do orgulho árabe. Entretanto, havia um problema muito concreto: poucos dos líderes políticos e intelectuais da nova República Popular dominavam o idioma. Após mais de um século de controle francês, a Argélia era profundamente francófona em suas metrópoles. Em meio a esta necessidade real de re-arabização, a Igreja Católica se prontificou como auxílio educativo. Contudo, devido a uma demanda crescente, o governo adotou uma política que, talvez, marcará a história do país. A contratação de professores oriundos do Egito, da Arábia Saudita e da Líbia será o meio de difusão do radicalismo islâmico junto à juventude argelina.

Muitos sacerdotes, monges e freiras tinham um largo conhecimento do árabe, tanto por uma preparação para o trabalho apostólico na Argélia, como pela secular presença Católica em outros países árabes, como Síria, Líbano e Egito. A Igreja tomou a liderença desse movimento de reconstrução cultural, destacando-se, por exemplo, a Dom Henri Teissier, Arcebispo de Argel, que ensinou o idioma aos familiares de Houari Boumédiène, Presidente do país, e às esposas de inúmeros Ministros. A Igreja também começou a "importar" a freiras libanesas e o Centre des Glycines, fundado em Orã para ensinar árabe ao clero, passou a se dedicar ao ensino aos próprios argelinos. 

Entretanto, este contexto também será usado para a radicalização do país. O governo, sendo incapaz de suprir à petição da juventude sedenta por compor identitariamente a esta nova Argélia árabe-socialista, também fez sua parte e apoiou a contratação de milhares de professores especialmente egípcios. Grande parte desses homens estavam formados dentro de concepções radicalizadas, seja da Irmandade Muçulmana ou do wahhabismo saudita. Ao mesmo tempo, a Argélia despertava para o processo de ascensão política dos diversos grupos islâmicos confessionais, surgidos de movimento puristas em uma simbiose entre socialismo com integrismo doutrinal. A Frente Islâmica de Salvação, criada em 1989, era a união dessas variadas facções e ideologicamente se aproximava mais ao modernismo muçulmano do que ao wahhabismo salafista.

A crescente ascensão tradicionalista logo refletiu em uma adoção, por parte do Estado argelino, de uma séria de políticas públicas que buscavam aplacar a fúria de um segmento ideológico em constante fortalecimento. Na nova Constituição de 1976, além de se radicalizar pautas socialistas, como a nacionalização das terras de cultivo e apropriação dos bens da Igreja, o governo declarou o Islã como religião oficial e assentou as bases para uma islamização ainda mais profunda. O Ministério da Religião passou a construir mesquitas por todo o país e a formar imames. Em 1984 um Código Familiar foi aprovado no qual o papel da mulher estava legalmente reduzido ao lar e à família, dando respaldo para a primazia patriarcal. Esse processo fortaleceu a demanda por líderes religiosos treinados, que trouxeram com eles uma estrutura ideológica radical que perfeitamente se acoplava a uma sociedade em profunda crise.

O processo de transformação da FIS, que buscava islamizar a sociedade argelina por vias democráticas, iniciou-se com a pregação externa. Professores egípcios e sauditas, ardorosos críticos da forte influência sufi no Islamismo local, se transformaram em catalisadores de um cansaço populacional com o desgaste do modelo secular. Através deste processo de radicalização, com a implantação de uma concepção islâmica estranha à Argélia, formou-se as bases da Guerra Civil que se iniciará em 1991. Vale destacar que um ano antes, em 1990, a FIS havia sido a grande vitoriosa das eleições municipais, controlando a 28 das 30 maiores cidades do país.

A maior resistência ao radicalismo salafista na Argélia foi a ação organizada das lideranças dos anciãos sufis. Apesar disso, os professores enviados às Comunas Islâmicas, como a FIS passou a chamar às cidades sob o seu controle político, encontravam uma disposição natural à pregação confessional junto aos jovens. Em Tibhirine, onde estavam os Monges Trapistas, os professores de árabe escreveram ao Ministério da Religião solicitando a destruição da imagem da Virgem Maria no Monte Abdelkader. O Ministério, afrontado pela ascensão do confessionalismo, enviou ao prefeito de Medea um aviso para a demolição da estátua. Este, em resposta à ordem do governo, disse que o faria somente depois que este mesmo governo destruísse todas as outras imagens de heróis nacionais construídas em Argel. O silêncio do Ministério era uma resposta eloquente. A imagem da Virgem Maria não foi destruída, ao menos não nesse momento, e os impopulares e radicais professores egípcios foram expulsos de Medea. Os muçulmanos locais, buscando uma maior proteção da imagem mariana, construíram um parque e um jardim ao seu redor.

Entretanto, apesar de todo o esforço da Igreja e das Ordens Sufis argelinas, o radicalismo salafista se espalhou pelo país, tomando de assalto à Frente Islâmica de Salvação que já tinha uma natural inclinação anacrônica. O estopim para Guerra Civil foi a sua estrondosa vitória em 1991, com 82% dos mandatos sob o seu controle. Os liberais, socialistas e secularistas sabiam que tamanho poder logo seria utilizado para a destruição das próprias estruturas democráticas. Assim, curiosamente, em nome da democracia, um golpe militar foi dado e iniciou-se um sangrento conflito que duraria por mais de uma década.

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