quarta-feira, 20 de junho de 2018

A ocupação da Argélia e o uso político do Catolicismo

"Nossa Senhora da África, rogai por nós e pelos muçulmanos"
Quando o primeiro soldado francês desembarcou em Sidi-Ferruch, próximo a Argel, encontrou uma população muçulmana devota, que visitava a lugares sagrados, seguia aos marabouts, realizava longos jejuns e piedosas peregrinações. Não imaginavam estes que aqueles militares europeus que ali aportavam lutaram por uma revolução liberal ao lado de Napoleão, contra a influência clerical e a "superstição religiosa". A França nascida da Revolução gerou um marco sociológico na mudança da mentalidade europeia através do ódio à religião. A criação do estado inimigo da Igreja e da fé popular talvez seja o grande "legado" francês no mundo moderno. 

A ocupação da Argélia em 1830 foi acompanhada na França pela derrubada da dinastia Bourbon, que havia chegado ao trono novamente após a crise do regime napoleônico em 1814. Os Bourbons restauraram o regime confessional, derrubaram as leis anti-clericais, devolveram os templos para as suas finalidades de culto e até aprovaram os atos anti-sacrilégio. A Restauração foi destituída pela Revolução de Julho que encabeçada por banqueiros, sociedades republicanas e liberais, colocou a Luís Felipe, o "rei burguês" da Casa da Orleães, no trono. Este imediatamente retomou o espírito anti-clerical iluminista, abolindo leis e reocupando templos. O que se viu a partir de então foi uma sucessão de governos e regimes, todos alinhados com o liberalismo ideológico: a Segunda República Francesa, o Segundo Império Francês, a Terceira República Francesa etc.

Entretanto, apesar de todo este radicalismo na Europa, os franceses logo perceberam que a situação colonial necessitava de uma outra abordagem política, ainda que oposta ao aplicado do outro lado do Mediterrâneo. Enquanto na Europa a França se transformará na maior promotora do anti-clericalismo, com leis que dissolviam mosteiros, tomavam escolas católicas e aprisionavam padres e monges, na Argélia, por uma estratégia de domínio, o estado francês promoverá o Catolicismo e o florescimento das comunidades religiosas. Quando o Emir Abdelkader ibn Muhieddine, o líder da primeira resistência anti-ocupação na Argélia, assinou o Tratado de Tafna, em 1837, disse aos franceses: "Se vocês são cristãos, como dizem ser, vocês devem ter templos e sacerdotes. Nós seremos grandes amigos, já que nosso livro sagrado, o Alcorão, nos impele a viver em paz com os cristãos". A administração colonial levou isso a sério e entendeu que a promoção da cristianização da Argélia seria, curiosamente, a única forma de criar vínculos de afeto com os muçulmanos.

De fato, a defesa religiosa na colônia atingiu níveis somente comparados à piedade dos Bourbons, com um ardor devocional que sensibilizava até os adeptos do Islã. O estado estruturou as dioceses, apoiando a construção de templos e a formação de um clero local, enquanto ocupava igrejas e fechava conventos na França. A diocese de Argel, criada em 1838, em 1866 já havia sido elevada ao estado de Arquidiocese, com a criação das dioceses de Orã e Constantine. De igual maneira, o governo colonial custeou a edificação de mosteiros e casas religiosas, porque sabia da tradicional disposição islâmica aos monges: "Constatarás que aqueles que estão mais próximos do afeto dos crentes são os que dizem: Somos cristãos! porque possuem sacerdotes e monges que não se ensoberbecem em coisa alguma" (Alcorão 5, 82). 

Os políticos agnósticos e ateus se transformaram em paladinos da Igreja e, ao final, estavam certos. O primeiro mosteiro trapista fundado em Staouéli, se transformou rapidamente em um lugar sagrado para a comunidade islâmica. Os muçulmanos até curvavam as suas cabeças quando passavam por seus muros, em sinal de respeito. Quando Abdelkader se encontrou, anos depois, com Dom François Régis, seu primeiro Abade, comentou que já conhecia a fama dos monges pelos elogios que os seus soldados compartilhavam, destacando como sempre eram bem acolhidos. De fato, a vida monástica causava grande impressão por conta da sua semelhança com a espiritualidade islâmica: a constância na oração, os jejuns prolongados. Até mesmo os hábitos dos monges se pareciam às gandouras dos marabouts e a construção do mosteiro, com claustro, hospedaria e pátio, se assemelhava à arquitetura tradicional argelina.

Como havia pontuado Christian de Chergé, o superior assassinado do Mosteiro de Tibhirine em 1996 em um dos seus artigos sobre a religiosidade da Argélia, o homem argelino, ao longo de sucessivas eras - berbere pagã, cristã, muçulmana - teve como marca característica a associação da vida cotidiana à experiência religiosa, tendo a fé esse caráter de unificação dos valores e inclusive exercendo um papel fundamental nas lutas e revoltas. A posição colonial francesa, sem nenhum interesse real em evangelização ou defesa da identidade cristã, utilizou o Catolicismo como uma ponte de afeto entre a metrópole e a colônia. Para o homem argelino a dominação era por si atroz, ainda mais se exercida pelo homem europeu liberal e ilustrado, que sequer entendia a comosvisão sobrenatural do mundo. Talvez seja o único caso na história no qual a Igreja foi usada como instrumento político para conquistar os corações dos muçulmanos. 

0 comentários:

Postar um comentário