segunda-feira, 2 de abril de 2018

"O salafismo é o resultado do empobrecimento do pensamento sunita"

Entrevista com Hicham Abdelgawad, autor do livro "Les questions que se posent les jeunes sur l’islam, et de Musulmans et chrétiens – Pistes pour un dialogue sans angélisme ni pessimisme" e fundador do Centre de formation aux faits religieux en société (Ceforelis). 

Enrevista de La Croix

Tradução Islamidades

La Croix: O fenômeno salafista é melhor compreendido atualmente?

HA: Uma primeira abordagem, que é aquela feita pela maioria dos cientistas políticos, é tentar rotular as correntes dentro desse movimento. Por um lado, "daechistas" ou jihadistas, e, por outro, wahabitas ou partidários do islamismo saudita, para assim identificar as conexões ideológicas entre eles. Para mim, o erro dessas análises é que elas se concentram nos produtores de discursos e não naqueles que os recebem. Agora, a questão mais importante para nós hoje é saber por que algumas pessoas participam, por que estão convencidas de viver o "Islã autêntico"? Um jovem nunca se pergunta a qual corrente tal pregador pertence, mas sim quais são suas "provas", tiradas do Alcorão e da Sunnah . Um site ou autor salafista nunca se apresentará como "daeshista" ou "wahhabi", mas como detentor do "Islã puro", "crente da verdade".

La Croix: Podemos distinguir o salafismo do sunismo tradicional?

HA: Quando um discurso pode ser considerado salafista? Essa é a dificuldade daqueles que pretendem lutar contra o salafismo, até mesmo proibi-lo...Eu sou um daqueles que considera que este se espalhou dentro do sunismo tradicional: o salafismo, basicamente, é o resultado do empobrecimento do pensamento sunita clássico, de um trabalho de interpretação que não é mais feito. Quantos estudiosos muçulmanos sunitas utilizam expressões tais como "Deus diz no Alcorão" ou "o profeta diz isso"? Enquanto deveriam dizer: "Eu leio em tal verso" ou "há alguns ditos do Profeta". Dizer "Deus diz" ou "o Profeta diz" já torna qualquer jovem permeável ao discurso salafista.

La Croix: Como ajudar os jovens a situar-se diante destes diferentes discursos?

HA: A única maneira é estudar religiões. Meus alunos, mas também é verdade de engenheiros ou médicos, não sabem mais o que é uma religião, uma revelação, uma doutrina...Eles tampouco sabem mais como diferenciar o verdadeiro, o real e o factual. Alguém que queira fazer um regime e tenha uma noção de nutrição ou do corpo humano saberá que parar de comer é um absurdo. Se formos capazes de fazer o mesmo na relação entre religião e realidade, os discursos simplistas - e, portanto, os salafistas - não serão mais aceitos.

La Croix: E o que fazer em relação àqueles que detêm esses discursos salafistas?

HA: Devemos criminalizar suas palavras quando elas se enquadram na lei. Também é importante que eles percebam que as coisas podem ir até a expulsão. Temos que colocá-los diante das implicações do que dizem. Se eles tratam cristãos, judeus, como kufar, macacos ou porcos, se necessita que essas palavras sejam levadas a sério, colocá-las em praça pública e, com isso, estarão obrigados a argumentar. Colocado à prova da realidade, eles vão perceber que são indefensáveis, fora do quadro da sua ideologia.

O sociólogo Gérald Bronner mostrou, com relação às teorias da conspiração, que as pessoas inteligentes não perdem tempo respondendo às insanidades dos outros. Mas, em termos de mercado de crença, é extremamente prejudicial: os mais motivados, mesmo que difundam um discurso estúpido e perigoso, vencem.

Vários imames salafistas na França começaram a reformar-se, uma vez confrontados com as conseqüências de seus comentários. O próprio fato de mudarem o discurso evidencia suas contradições, o vazio de suas afirmações. Este é um sinal importante para os jovens que estão sob sua influência.

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