quarta-feira, 11 de abril de 2018

O Reino da Arábia já não tão Saudita

Príncipe Muhammad bin Salman e Muqtada al-Sadr 
A Arábia Saudita tem feito um verdadeiro esforço em transformar a sua conflituosa relação com o Irã em uma questão geopolítica. Busca-se, com isso, o mitigamento das tensões religiosas, apesar da origem estar no anti-xiismo do wahhabismo. O Príncipe Muhammad bin Salman está encabeçando uma amenização do discurso saudita almejando a retomada da liderança no Oriente Médio. Para tanto, já desenha uma aproximação com o Iraque xiita, como um sinal de mudança de postura por parte do regime monárquico.

A relação de Ryad com Bagdá tem sido encorajada por potências ocidentais, particularmente os EUA. Esses intentos foram reforçados no ano passado pelas visitas de dois influentes líderes xiitas iraquianos, Muqtada al-Sadr, um clérigo popular e líder político, e Haider al-Abadi, primeiro-ministro. Agora, o príncipe Muhammad parece ter adotado essa estratégia como uma forma de desafiar a influência regional crescente do Irã, enquanto embarca em uma revisão radical da economia de seu próprio país.

Durante décadas, a Arábia Saudita e seu rival, o Irã, exploraram o cisma secular entre xiitas e sunitas como parte das lutas regionais. Entretanto, as autoridades sauditas estão enviando discretamente mensagens aos principais clérigos xiitas de Najaf, que, embora tenham receio de serem arrastados para uma disputa por procuração, parecem dispostos a pacificar a região. No ano passado, o ministro das Relações Exteriores, Adel al-Jubeir, fez a primeira visita oficial ao Iraque encabeçada por um alto funcionário do governo, desde 1990. Também existem indícios de que o príncipe Mohammed bin Salman poderia visitar o país em breve, inclusive à Najaf, cidade sagrada xiita.

Outro sinal da mudança de postura saudita foi a reabertura da sua embaixada em Bagdá, em 2015, depois de 25 anos de relações interrompidas. Com a liderança do Príncipe Muhammad, nota-se um esforço em tornar o processo de revolução geopolítica ainda mais rápido.  Caso isso ocorra, será a mais radical transformarção no regime, muito além de permitir que mulheres possam dirigir. Os exércitos sauditas já destruíram a cidade de Karbala em 1801 e exterminaram toda e qualquer influência xiita do seu próprio país, assassinando ao Ayatollah Nimr al-Nimr em 2016. Uma visita oficial de Muhammad bin Salman à cidade de Najaf representaria uma - estratégica - mudança de postura.

Relações políticas com o Iraque xiita, relaxamento das leis morais no contexto interno, redução das narrativas anti-Israel. Esse tripé tem sido a nova base na qual o Príncipe Muhammad pretende estruturar uma refundação de fato do reino da Arábia Saudita. Desde o seu surgimento, após a I Guerra Mundial, e ainda em seu processo de formação histórica, no séc. XVIII, a Casa Saud foi sinônimo da escola wahhabita. Hoje, entretanto, o esforço em dissociar-se do puritanismo reformado é a força motriz da nova monarquia. Talvez, em um futuro hipotético, vejamos ao regime saudita, em seu afã de modernização, reconhecer-se culpado pela difusão do anacronismo em todo o mundo islâmico. 

Entretato, cabe aqui uma prudência consciente e uma espera por um câmbio de narrativas também no contexto formativo e institucional. A Arábia Saudita, através da fundação de mesquitas e manutenção de organizações missionárias, ainda sustenta uma complexa estrutura na qual se difunde o wahhabismo. Suas universidades, especialmente a de Medina, são responsáveis pela formação de milhares de clérigos que, espalhados pelo mundo, reproduzem o discurso religioso oficial da monarquia. Qualquer mudança almejada pelo Príncipe Muhammad nesse setor, naturalmente se chocaria com as posições das mais importantes autoridades do país, como a do Grã-Mufti Abdul-Aziz ibn Abdullah Al ash-Sheikh, descendente direto de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, o fundador do wahhabismo

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