sábado, 7 de abril de 2018

O Ismaelismo e a crença na superioridade do Imamato

Aga Khan IV acompanhado de filho e neto
O Xiismo se divide em dois ramos, os quais, por sua vez, se diferenciam em questões teológicas profundas.  O ponto principal de distinção está no  equilíbrio (ou não) mantido entre shari'ah e haqiqah, profecia e imamato. Quando se concebe uma relação associada e consequente entre o zahir e o batin, entre o exoterismo e o esoterismo, o que temos é o Xiismo Duodecimano, que representa a quase totalidade. Entretanto, se o batin é elevado ao ponto em que oblitera o zahir, e como resultado, o imamato tem precedência sobre a profecia, surge o Ismaelismo, especialmente em suas ramificações reformadas, dando origem a uma multiplicidade de seitas.

O Ismaelismo cresceu a tal ponto que chegou a ser o maior ramo do xiismo, culminando como um poder político com o Califado Fatimída nos séculos X ao XII. Acreditavam na unidade de Deus, bem como no fim da revelação divina com Muhammad. Ismaelitas e Duodecimanos (o xiismo ortodoxo) aceitam os mesmos Imams iniciais dos descendentes de Muhammad através de sua filha Fatimah e, portanto, compartilham grande parte de sua história. Ambos os grupos vêem a família de Muhammad (Ahl al-Bayt) como divinamente escolhida, infalível (ismah) e guiada por Deus para liderar a comunidade islâmica (Ummah), uma crença que os distingue da maioria do ramo sunita do Islã.

Após a morte de Muhammad ibn Isma'il no século VIII d.C, os ensinamentos do ismaelismo se transformaram ainda mais no sistema de crenças como é conhecido hoje, com uma concentração explícita no significado mais profundo e esotérico da religião islâmica. Com o eventual desenvolvimento do Xiismo Duodecimano, o Ismaelismo se dedicou ao caminho místico e na natureza de Deus, com o "Imam do Tempo ", representando a manifestação da verdade esotérica e da realidade inteligível, numa mescla de neoplatonismo com a mística islâmica. Contudo, diferentemente do Xiismo Duodecimano, que entendia a dual relação entre o exotérico e o esotérico, os Ismaelitas, ao final, destacaram a superioridade do oculto sobre o aparente. Como consequência, Imam Ali foi elevado a um status superior ao do Profeta Muhammad.

Assim, portanto, uma vez que a walayah é proeminente à profecia da qual é a fonte, concluí-se que a pessoa do Wali - isto é, o Imam - tem precedência sobre o profeta, e o imamato sempre tem e sempre terá precedência sobre a missão profética. O que o Xiismo Duodecimano vê como sendo o desfecho de uma perspectiva escatológica, é realizado "no presente" pelo Ismaelismo, através de uma antecipação da escatologia, que é uma revolta do Espírito contra toda escravidão, já que o Imam do Tempo, enquanto entidade superior à profecia, está vivo. Para o Ismaelismo, a porta da profecia está sempre aberta, por isso entende-se o seu rápido processo de metamorfoseamento ao longo da história.

Ja'far al-Sadiq, Sexto Imam, era descendente direto do Mensageiro do Islã. O Ismaelismo surge através dos seguidores do seu filho, Isma'il ibn Jafar e dos seus sucessores, chegando até a Ḥussein ibn Aḥmad, pai de Abdullah al-Mahdi Billah, fundador do Califado Fatímida. Após a morte do oitavo Califa Fatímida, Al-Mustansir Billah, uma complicada crise sucessória se instala. O seu filho mais velho, Nizar, foi deposto pelo seu irmão Al-Musta'li. Desses conflitos surgirão duas divisões que ainda existentes no Ismaelismo: o ismaelismo nizariano e o ismaelismo mustaliano, este último se dividiu novamente com a sucessão de Al-Musta'li, entre os seguidores de Al-Hafiz e At-Tayyib. Os seguidores de Nizar se refugiaram no interior do império e deste êxodo surgiu a seita dos Assassinos (al-Ḥashāshīn), fundada por Hassan-i Sabbah, um missionário nizariano. 

O Ismaelismo Nizariano, nascido com o seguidores de Nizar, filho do Califa Fatímida, descendentes estes do Imam Isma'il, quinta geração de descendentes do Profeta Muhammad através da sua filha Fatima, tem em seu líder máximo a Aga Khan IV. A maior diferença do Ismaelismo Nizariano para outras ramificações xittas, como os Druzos, Alauítas e até a Fé Bahaí, por exemplo, é que não acreditam - ainda - na existência do Imam oculto. A sucessão se mantém viva, hoje encarnada em Aga Khan IV, atual Imam do Ismaelismo Nizariano. 

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