quinta-feira, 19 de abril de 2018

O Islamismo indígena do México


O México tem sido um lugar de destaque no desenvolvimento de uma experiência comunitária islâmica em um contexto autóctone. Vinte anos atrás, um grupo de famílias de tzotziles chamulas, que moravam na cidade de San Cristóbal de Las Casas, em Chiapas, abraçou o Islamismo. A nação mexicana tem profundos vínculos históricos com o Cristianismo, de uma forma muito mais acentuada que o Brasil. A devoção mariana e a piedade popular são partes integrais da identidade do seu povo. Fazer-se muçulmano é deixar o seu lugar cultural e reconstruir a sua existência identitária. O que se vê em Chiapas é um islamismo quase exclusivamente "indígena", que nos últimos vinte anos foi integrado ao tecido sociocultural das comunidades tzotzil e tzeltal. A origem da presença islâmica, no entanto, é uma intervenção vinda do exterior, em 1994. Ao que parece, apesar de todas as adversidades, alguns padrões históricos se mantêm.

A chegada do Islã em Chiapas está associado ao início da revolta indígena zapatista. O EZLN ganhou fama internacional e logo se transformou em modelo para os movimentos de libertação e para o progressismo europeu. Nesse contexto, o Movimento Mundial Murabitun (MMM), um grupo de muçulmanos ocidentais fundado pelo sheik Abdalqadir as-Sufi, envia missionários para o sul do México, com o objetivo de fazer contato com os rebeldes zapatistas e em seguida direcioná-los ao Islã. Da Espanha veio Aureliano Pérez Yruela, acompanhado pelo mexicano Sidi Ahmed.

Inicialmente focados nos líderes zapatistas, os missionários muçulmanos tiveram encontros privados com alguns membros do movimento e enviaram mensagens ao Subcomandante Marcos, líder da guerrilha. O conteúdo era explícito: o Islã é a religião que permite a verdadeira e única libertação. Também chegaram a oferecer dinheiro e armas caso os zapatistas se levantassem contra o estado mexicano ao nome da fé muçulmana.
"Nós, o Movimento Mundial Murabitun, convidamos a se sentarem com representantes dos grandes povos da Chechênia, Caxemira, Euzkalherria, que hoje estão na vanguarda da luta contra a tirânica ordem bancária mundial (...) a luta pela libertação dos povos deve ser feita sob a bandeira do Islã transformador, seguindo a mensagem revelada que Muhammad nos trouxe, o último dos profetas, o libertador da humanidade (...) Vitória ou Morte "
Os missionários se confrotraram com o pouco interesse dos guerrilheiros. Neste cenário de desilusão, encontraram uma resposta espontânea junto aos indígenas, que se abriram ao Islamismo de uma maneira natural. As conversões surgiam entre aqueles povos mais simples e iletrados. Qual a surpresa dos espanhóis ao notar que não seriam os zapatistas os grandes promotores do Islamismo, mas os índios de Chiapas.

Os missionários logo organizaram um pequeno grupo e nomeou a um nativo como o Imam do recém criado núcleo islâmico, assentando as bases para a construção da comunidade Murabitun em San Cristóbal de Las Casas. Em 1998, havia muçulmanos em vários bairros, La Hormiga, Nueva Esperanza, Palestina, Revolução Mexicana, La Selva Natividad e El Molino de los Arcos. A partir desse grupo original, fundado pelo Movimento Mundial Murabitun (MMM), mais três comunidades foram criadas. A comunidade sunita Al Kautzar e a Comunidade Ahmadiyya. Na cidade de Teopisca, se estabelece uma comunidade vinculada à escola sufi Naqsbandi.

Nota-se, portanto, que o Islamismo desenvolvido em Chiapas, inicialmente sob a experiência do Movimento Murabitun, tomou proporções ainda maiores. Aquela comunidade inicial se fragmentou em outros grupos sunitas cada vez mais organizados. A identidade indígena é mantida e o Islã toma feições autóctones, sem abrir mão de sua identidade tradicional.  O crescimento do Islamismo nestes grupos indígenas também deve-se às condições de insegurança, pobreza e marginalização em que vivem muitos nativos, que vêem no Islã uma forma de resgate social e a possibilidade de um futuro melhor para si e para seus povos. Apesar da recusa dos Zapatistas, a fé muçulmana encontrou nos índios de Chiapas a melhor e mais bela resposta.

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