sábado, 14 de abril de 2018

Introdução teológica à doutrina alauíta (nusairita)

Por Rafael Daher
1. Introdução

Para que o sistema religioso Nusairita seja tratado de forma correta, é preciso que primeiro tenhamos em mente alguns pontos fundamentais. Em primeiro lugar, é preciso saber que o sistema religioso nusairita é sincrético. Desta forma, não é apenas um cisma xiita ocasionado quando Abu Shuayb Moḥammed ibn Nuṣayr al-Numayr se proclamou o Bab (Porta) de Al-Askari. Além disso, ao longo do tempo, vários grupos nusairitas passaram a formar suas próprias doutrinas, todas também sincréticas, que absorveram diversas formas religiosas da região e também da Grécia e da Índia. Portanto, não é possível tratá-los como um mero cisma do xiismo, mas como grupos separados do Islam.

Entretanto, apesar do caráter sincrético em doutrina, o modo de vida dos grupos nusairitas é o antigo modo de vida dos Patriarcas e antigos povos da região. Pelo isolacionismo de seus grupos, acabaram retendo antigas práticas e costumes, sendo mais puros em costumes que todos os outros habitantes da região. Nusairitas, que evitam o uso deste termo, afirmam que são “sur”, ou seja, da raça síria, que aparece na Torá em Deuteronômio 3,8: “Assim naquele tempo tomamos a terra das mãos daqueles dois reis dos amorreus, que estavam além do Jordão; desde o rio de Arnom, até ao monte de Hermom (A Hermom os sidônios chamam Siriom; porém os amorreus o chamam Senir)”. Deuteronômio 3:8,9

Desta forma, são povos que não foram conquistados pelos hebreus, durante as guerras judaicas contra os povos de Canaã, pois os heveus não foram removidos ou conquistados pelos judeus. Os heveus estenderam sua influência até o Monte Líbano, onde um subgrupo heveu, os cadmeus, fundaram o templo de Baal Hermon. Os cadmeus diziam-se descendentes do deus egípcio Taut, conhecido como Toth, e eram conhecidos pelo domínio da astronomia, música, arquitetura e magia. Tanto heveus como cadmeus possuíam uma doutrina iniciática que era passada de geração em geração, o que influencia até hoje os nusairitas, pois o sistema nusairita é baseado em uma transmissão iniciática de poucos livros sagrados, mas de muita transmissão dos mistérios iniciáticos de geração em geração de forma oral.

Mas como mencionado anteriormente, o sistema religioso dos nusairitas foi desenvolvido ao longo do tempo, sob influências externas que eram abarcadas no sistema original, mas a forma oral de transmissão permitiu que a essência da doutrina fosse preservada e não é nenhum absurdo afirmar que, apesar do sincretismo, os nusairitas são verdadeiras testemunhas das antigas religiões étnicas da região.

2. Maaanah Ism Bab – A Essência do Nusairismo

Sabemos que as antigas tradições do Oriente e da África traçam suas origens em uma figura psicopompa, isto é, uma figura divina-humana que conduz os homens à iluminação. Na Babilônia, Beroso relata a crença em Oannes, uma figura metade homem e metade peixe, que surgiu para conduzir os seres das trevas das águas até a sabedoria que formou a civilização. No renascimento mágico ocorrido na Renascença, magos e hermetistas traçavam suas origens nos antigos ensinamentos de Hermes Trismegisto, fonte da sabedoria divina e mestre das ciências. Na Sura Al-Baqara (A Vaca), o Quran menciona também menciona dois anjos, Harut e Marut:
E seguiram o que os demônios apregoavam, acerca do Reinado de Salomão. Porém, Salomão nunca foi incrédulo, outrossim foram os demônios que incorreram na incredulidade. Ensinaram aos homens a magia e o que foi revelado aos dois anjos, Harut e Marut(34), na Babilônia. Ambos, a ninguém instruíram, se quem dissessem: Somos tão somente uma prova; não vos torneis incrédulos! Porém, os homens aprendiam de ambos como desunir o marido da sua esposa. Mas, com isso não podiam prejudicar ninguém, a não ser com a anuência de Deus. Os homens aprendiam o que lhes era prejudicial e não o que lhes era benéfico, sabendo que aquele que assim agisse, jamais participaria da ventura da outra vida. A que vil preço se venderam! Se soubessem...”(2,102)
Harut e Marut são dois anjos caídos que ensinaram as artes arcanas aos homens. Não é estranho ao pensamento oriental a ideia das ciências naturais e sobrenaturais como uma transmissão iniciada numa figura psicopompa – uma ideia que também faz parte do nusairismo, na doutrina do Maanah Ism Bab. Nusairitas não contestam o fato de Allah ser o único eterno, pré-existente e uno, mas que esta figura é Ali. Também afirmam que Sua manifestação ocorre no mundo através de sete Maanah Ism Bab, de Abel a Ali Ibn Abu Talib. Estas sete manifestações são descritas em três conceitos: Maanah, que é o significado, a divindade enquanto a realidade, Ism, isto é, nome, em árabe, o véu que oculta o aspecto do Maanah, e Bab, porta, que é a plena revelação de Maanah e Ism. Temos, portanto, sete trindades Maanah Ism Bab:

  1. Abel Adão Gabriel
  2. Sete Noé Ibn Al-Fatin
  3. José Jacó Ibn Qush
  4. Josué Moisés Ibn Usbaut
  5. Asaf Salomão  Ibn Siman
  6. Pedro Jesus Ibn Al Merzaban
  7. Ali Mohamed Salman al Farisee

Da mesma forma que o conceito de trindade do Cristianismo afirma que há 3 pessoas em um só Deus, a doutrina nusairita também afirma que a manifestação em Maanah Ism Bab é de 3 pessoas em uma só manifestação da revelação divina. Desta forma, todos os homens mencionados como partes da trindade nusairita eram deuses psicopompos, figuras humanas-divinas que vieram para revelar a doutrina secreta. Um exemplo: Salman Al Farisee, o primeiro persa convertido ao Islam e um dos companheiros do Profeta Mohammed, é a porta da trindade Ali Mohamed Salman al Farisee. Pedro, chamado pelos nusairitas de Kephas, é o Ism de Jesus e Al Merzaban, o “companheiro da caverna”, amigo de Ali, zoroastra convertido ao Cristianismo e depois ao Islam e que, segundo a tradição nusairita, foi chamado pelo próprio Profeta Mohammed como “a reencarnação de Jesus, filho de Maria”, é seu Bab.

Aqui, é importante relacionar outro ponto importante: todas as trindades Maanah Ism Bab possuem uma morada ou templo no mundo celeste, formando sete hierarquias celestes, com o templo do ahl al-bayt como superior, relatado no Kitab Al Madjmou, escritura sagrada alauíta, da seguinte forma: Mohammed como a fundação, Ali como a abóboda, Fátima como o chão e como pilares: Mohammed, Fatih, Hassan e Hussein.

Deste templo misterioso, Abu Adh-Dahrr é mestre ao lado de Hassan e Hussein, e velam outros dois mestres secretos: Naufal Ibn Harithah e Abu Barzah: Adh-Dharr foi um grande asceta da primeira geração, Harithah e Barzah, que na verdade são "reencarnações de estrelas": eram estrelas que tomaram formas humanas para o bem da revelação. Aqui, a doutrina nusairita é bem semelhante à Kabbalah judaica: o nome (Ism) é um aspecto terreno do Ism nas moradas lunares. Apenas para citar en passant, esta cosmologia nusairita, com suas moradas estelares, lunares e planetárias influenciaram de forma significativa a doutrina do sábio G. Gurdjieff, conforme veremos adiante.

3. O Mundo da Luz: Morte, Renascimento, Iniciação e Realização Nusairita

Já tratamos da questão da revelação na doutrina nusairita e, agora é importante que lidemos com um outro ponto chave: se os profetas são revelações de uma só divindade, então qual é o destino do homem? Qual o significado da revelação? Na cosmologia nusairita, o mundo manifestado é visto como uma manifestação oculta da essência divina. Todas as coisas criadas são, de forma mais próxima ou mais distante, esta mesma essência divina em um estado de ocultação. O objetivo da revelação é fornecer ao adepto a revelação a revelação do véu, o acesso à própria Nur, isto é, a Luz primordial e divina.

Neste estágio, o adepto é chamado de Abd En-Nur, escravo da luz. Este estágio se dá no mundo sempre em um número pequeno e limitado (outro aspecto que influenciou a doutrina Gurdjieff). As almas do mundo passam por um processo de sucessivos renascimentos (taknys, para os nusairitas), para que atinjam este estágio. Como a doutrina cabalista do guilgoul (a reencarnação na Cabala), a reencarnação nusairita não é um “processo evolutivo das almas”, mas um processo da própria divindade para restaurar a sua unidade que está em ocultação na forma manifestada. Esta realidade é percebida até no título que Ali recebe: Amir An-Nahal, “O Príncipe das Abelhas”. No simbolismo oriental, os anjos são muitas vezes representados como abelhas, pois levam o mundo externo ao divino, para extrair o mel, e suas individualidades são totalmente relegadas quando dentro da colmeia, não passam de incansáveis operários do sistema divino – e os nahal, isto é, as abelhas de Ali, são como anjos, manifestações no mundo da ocultação divina que buscam extrair o mel através do néctar. Temos, portanto, o mundo externo que deve servir como uma fonte para extração do néctar, que será transformado em mel através da Nur, a luz divina. 

Mas nem tudo é luz: ímpios e principalmente inimigos de Ali reencarnam em bestas e elementos impuros. Os sheikhs sunitas reencarnam como asnos, os padres cristãos em porcos, os rabinos como macacos e maus nusairitas em animais de quatro patas que servirão de alimento nas refeições dos próprios nusairitas. Para evitar ser contado entre os ímpios e seguir o ciclo de reencarnação até ser um Abd En-Nur e voltar à forma primordial humana, isto é, de estrela nos céus, é necessário escalar os graus da religião até conseguir participar do Qurban (sacramento), um consumo sacramental de pão e vinho, além de doar 1/5 de seus lucros para a caridade, deve também fazer as cinco orações diárias, praticar dhikr (lembrança do nome de Allah). Para ser apto a participar do Qurban, o adepto passa por vários estágios que, para alguns, inspiraram os condenados rituais Templários, mais tarde notórias influências nos ritos maçônicos: há testes iniciáticos, um deles muito parecido com o ritual de iniciação maçônico:
Imam: - O que desejas?
Candidato a adepto: - Busco o mistério da nossa fé, para participar da multidão de crentes!
Imam: - Como deseja tais mistérios, suportáveis apenas por anjos e profetas? [...] saibas que há muitos crentes, mas poucos capazes a este mistério! Saibas que terás as mãos e a cabeça cortadas caso nossos mistérios sejam profanados ou revelados.”
O postulante a adepto deve ser apresentado por dois padrinhos, um deles levará o adepto para sua própria casa, onde fará sua iniciação aos Capítulos, compostos por orações e práticas secretas, até que o já então adepto possa estar preparado para o Qurban.

O Qurban é uma entrada para outros aspectos do culto, como o de adoração à Lua. Novamente, podemos notar outra influência nusairita no sistema Gurdjieff: a nossa Lua é uma “falsa lua”, um aspecto oculto comparado ao corpo físico de Ali. Como o aspecto físico de Ali era apenas uma ocultação da sua trindade Maanah Ism Bab, a Lua da terra é um lado obscuro que representa a ignorância da visão física. Há, portanto, uma iniciação para a verdadeira adoração à Lua. 

Através dos processos iniciáticos e da prática dos pilares da religião, o adepto é protegido dos sete graus de degradação. O Alcorão menciona sete moradas ou pisos infernais, para os nusairitas, estes pisos são sete formas de reencarnar como bestas, vegetais ou minerais. É o caso de Abu Bakr, Uthman, Omar e outros impiedosos que combateram a casa de Ali, além dos que condenam o vinho e visitam Meca no Haji, a peregrinação ritual. A peregrinação à Meca é vista como uma blasfêmia e é vedada aos nusairitas.

4. Ali e Ibn Nusayr na Doutrina Nusairita

Conforme mencionado anteriormente, a figura de Ali faz parte da trindade Ali Mohammed Salman. Mas como a trindade derradeira e última. Entretanto, Ali está presente em todas as outras manifestações Maanah Ism Bab, algo inspirado na antiga lenda zoroastra. É dito que Zoroastro viu uma árvore de sete ramos: um de ferro, outro de aço, um de estanho, um de cobre, um de bronze, um de prata e um de ouro. A árvore representa o mundo disposto nos elementos que representam as suas eras, e Zoroastro passa pelos sete ramos como um profeta para cada elemento. Na doutrina nusairita, isto pode ser visto em como os profetas são interpretados enquanto senhores de eras: Moisés, profeta da era dos magos, Jesus Cristo, profeta da cura, e Mohammed, profeta da poesia e da espada. Como nas lendas babilônicas, zoroastras e cabalistas, a doutrina nusairita também reconhece um mundo pré-adâmico, onde Ali ocupa o papel do Ein Soph cabalístico: no princípio, havia ali em forma de uma safira, contemplado pelas estrelas. Até que, certo dia, pela manifestação de seu próprio poder, Ali lançou um véu sobre sua verdadeira natureza cósmica e as estrelas, através do véu, passaram a enxergar a si mesmas e ao mundo como criaturas e natureza.

Ali é o Pai, Mohammed o Filho e Salman o Espírito Santo. Ali e Mohammed, enquanto em forma humana, eram separados apenas durante o dia – ao cair do sol, eram unidos em uma só forma física, segundo a crença nusairita. A Trindade Ali Mohammed Salman não é apenas final, mas também a primeira, pois sua mensagem é a última e a necessária para o retorno às estrelas. Desta forma, crê-se entre os nusairitas que Ali Mohammed Salman criaram os “Cinco Incomparáveis”: Al Miqdad, companheiro do Profeta em forma humana e na forma celeste controlador dos raios e trovões, Abu Dharr, em forma humana opositor do califa Uthman e um dos quatro sahaba venerados pelos xiitas, e na forma celeste responsável pela rotação dos planetas e estrelas, Abdallah Ibn Rawahah, na forma humana um dos sahaba do Profeta e, na forma celeste, controlador dos ventos, Uthman, que por sua usurpação na forma humana foi no mundo celeste relegado a controlador do das pragas e pestes, e Khanbar, outro inimigo do ahl al-bayt, relegado a introduzir os espíritos nos corpos. Aqui, encontramos algo em comum com a Qabbalah judaica: Uthman e Khanbar, impiedosos na terra, são formas celestiais do lado negativo, e são controlados por Ali, a Divindade Suprema. 

É a questão do Maanah Ism Bab que forneceu a Nusayr a fundação de sua doutrina: como o Imam Al-Askari morreu sem deixar sucessor, e Nusayr acabou com suas pretensões a Imam rejeitadas pela comunidade xiita, sua solução foi se proclamar como Bab de Al-Hadi, quando Al-Hadi era vivo, e o Ism de Al-Askari. Al-Hadi foi o décimo Imam e pai de Al-Askari. Al-Hadi foi um grande teólogo e morreu envenenado a mando do califado abássida. Nusayr, então, continuou sua reivindicação da divindade do Imam. Com isso, os nusairitas formularam a consagração do Qurban amaldiçoando todas as quatro escolas do Islam sunita (hanafitas, shafitas, malikitas e hanbalitas), além do Patriarca João Maroun, da Igreja Maronita, como negadores da trindade Ain Mim Sin, as iniciais árabes de Ali Mohammed e Salman. 

Agora, entraremos no aspecto metafísico da divindade de Ali. A doutrina nusairita bebeu do emanacionismo neoplatonista, elevando cada profeta ao estado de Al-Insan Al-Kamil, isto é, homem perfeito. Mas este não é um estado de perfeição moral ou de perfeição gerada pela prática. O profeta é a própria emanação terrena do Homem Perfeito Universal, dentro de cada ciclo cósmico que necessita de um mensageiro. E isto fica ainda mais claro em outro ponto da doutrina: todo mensageiro é acompanhado pelo seu Samyt, isto é, um reflexo da alma universal no mundo manifestado. Maanah Ism Bab é manifestado de forma oculta no basmallah “bismillah al rahman al rahim”, “em nome de Allah, o Clemente, o misericordioso”. É uma consequência da teologia ortodoxa xiita, que coloca vários mundos internos para diferentes níveis de realidade, formando mundos de matéria, alma e intelecto. Na teologia de Suhrawardi, o mundo do verdadeiro conhecimento está acima do mundo do intelecto e para conquista-lo é necessário ultrapassar todas as barreiras físicas através do conhecimento puro. É neste mundo que o Al-Insan Al-Kamil habita. Ao mesmo tempo, também é inspirado na doutrina de Sadra sobre a ressurreição, pois Sadra dizia que a ressurreição, embora física, se dará num estado físico completamente depurado, em um corpo diferente do corpo terreno, que não poderia sobreviver no Paraíso. Então, é neste estado que Ali está em sua divindade, enquanto o Imam Ali manifestado na terra, em um mundo transmaterial, chamado hurqaliah. Ali seria, o mesmo tempo, o ordenador demiúrgico e o próprio princípio. 

5. Conclusão

Obviamente, não é possível alocar os grupos nusairitas no xiismo. E isso não se dá pelo refinamento neoplatônico, já que o neoplatonismo foi muito bem aproveitado e utilizado pelos filósofos xiitas clássicos, mas sim pelo próprio abandono da doutrina infalível dos imãs. Há uma certa deturpação das doutrinas xiitas, como é o caso do rajah. O rajah, que significa “retorno”, é uma doutrina presente no Quran e na interpretação dos sábios, sobre o retorno à terra de antes da reunião global no Dia do Juízo. Os nusairitas, por outro lado, afirmam com ênfase o tanasukh (reencarnação), que é a volta das almas ao mundo de forma cíclica. 

Além do mais, a divinização de Ali através de um sistema neoplatônico afasta por completo o nusairismo do Islam. A questão não é de influência externa, mas sim de doutrinas que foram geradas e requentadas para fundamentar a autoproclamação de Ibn Nusayr como o Grande Imam. 

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