quarta-feira, 28 de março de 2018

Uma guerra iminente: EUA x Irã

A recente nomeação de John Bolton como conselheiro de Segurança Nacional, por Trump, já permite antever qual será a futura política desta administração  em relação ao Irã. Bolton, que fez seu nome como um beligerante membro do Departamento de Estado de George W. Bush, conhecido por suas radicais posições neoconservadoras, não apenas exigiu que o governo Trump se retirasse do acordo nuclear, como também defendeu anteriormente o bombardeio do Irã. Bolton passou mais de uma década pedindo que os Estados Unidos ajudassem a derrubar o regime iraniano e a entregar o poder à MEK - Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano – um grupo islamo-comunista formado no contexto pré-revolucionário.

Bolton, que já participou de eventos organizados pela MEK, num auto-intitulado “Conselho Nacional da Resistência do Irã”, afirmou que a política externa de Trump trabalharia pela derrubada dos “mulás” em prol deste governo paralelo sem nenhum apoio popular entre os iranianos residentes no país. É importante entender que a MEK foi um aliada da Revolução Islâmica e se enquadrava dentro do espectro socialista dos movimentos confessionais. Durante as discussões teóricas nesse contexto, dois grandes blocos ideológicos se formaram. De um lado, centralizado nos clérigos, os defensores de uma perspectiva política tradicionalista, distante de qualquer influência ocidental, seja marxista ou liberal. Do outro lado, influenciados pelo pensamento de Ali Shariati, os defensores de uma Teologia Libertação, partindo de uma leitura dialética do Alcorão e do protagonismo do fiel comum. A MEK nasce desse segundo movimento e foi uma ardorosa defensora do xiismo revolucionário.

Depois que membros da MEK ajudaram a fomentar a revolução de 1979, em parte matando a civis americanos que trabalhavam em Teerã, o grupo perdeu uma amarga luta pelo poder para os defensores da revolução tradicional, liderados pelo Ayatollah Ruhollah Khomeini. Assim que a República Islâmica foi estabelecida através de uma nova constituição, os partidos militantes de esquerda foram colocados na ilegalidade. A MEK, então, foi forçada a fugir do Irã em 1981, estabelecendo um governo no exílio na França, com uma base militar no Iraque, onde receberam armas e treinamento de Saddam Hussein, como parte de uma estratégia para desestabilizar o país.

Contudo, nos últimos anos, a MEK tem utilizado um fundo milionário para se reinventar como um grupo político moderado pronto para tomar o poder no Irã através de uma mudança de regime apoiada pelo Ocidente. Para esse fim, fez um exitoso lobby para ser removida da lista de organizações terroristas estrangeiras do Departamento de Estado em 2012, apesar da oposição de Hillary Clinton. Os “Mujahidins” têm feito um árduo esforço para aclopar as suas demandas dentro de um espectro progressista ocidental. Para tanto, tem se afastado dos seus fundamentos ideológicos: o socialismo e sua luta de classe, por um lado, e o xiismo revolucionáiro, por outro.

Maryam Rajavi, a atual “Presidente do Conselho Nacional de Resistência do Irã, que lidera a voz sobre o empoderamento e a tolerância das mulheres”, como ela se apresenta nas redes sociais, é a esposa e sucessora de Massoud Rajavi, maior liderença da MEK e radical defensor do iderário islamo-comunista. O casal Rajavi esteve envolvido em inúmeras ações terroristas organizadas pelo grupo. Maryam, além de ter sido presa em 2003, na França, por organizar e planejar atentados, também foi alvo de um mandado de prisão emitido em 2010 pelo governo iraquiano por “crimes contra a humanidade”, cometidos durante a Guerra do Golfo pela MEK.

Hoje, contudo, Maryam Rajavi se apresenta como uma senhora distinta, à frente de eventos milionários e jantares para arrecadar fundos, dialogando com conservadores e sendo apoiada por republicanos. Recebeu recentemente a Rudy Giuliani num evento do “Conselho Nacional”, no qual o ex-prefeito de Nova Iorque antecipou a nomeação de John Bolton e destacou o esforço do diplomata na mudança do regime iraniano. Não se pode acusar a direita americana de desconhecer o passado da MEK. Tampouco pode-se considerar legítima a estratégia de apoiar a grupos rebeldes, tendo em vista os péssimos resultados gerados na Síria e no Afeganistão.

Talvez, num cenário hipotético, a aparente euforia do governo Trump com o apoio aos “Mujahidins” seja fruto de uma visual civilidade e pragmatismo ocidental, transfigurados na liderança de Maryam Rajavi. A MEK hoje não mais se apresenta com uma narrativa shariatiana e também se afastou do vocabulário padrão utilizado pelos islamo-comunistas, numa mistura de marxismo e xiismo tradicional. Entretanto, apesar de uma estética ocidentalizada, os resultados seriam os mesmos causados pelo apoio a qualquer outro grupo radical. Rajavi hoje representa um ideário sem qualquer abrangência interna e de pouca respectividade com a população iraniana. Uma mudança de regime, com a sua ascensão ao poder no país, significaria a instauração de uma crise sem igual nas instituições persas e o uso de tamanha instabilidade, por parte do jihadismo wahhabita anti-xiita, como porta de entrada para a transformação do Irã numa nova Síria.

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