sexta-feira, 16 de março de 2018

Sobre os véus


Muito se tem dito sobre a utilização obrigatória do véu no Irã, principalmente depois que eclodiram alguns poucos protestos contrários ao seu uso. Os argumentos estão fudamentados na noção de liberdade individual e autonomia da mulher. Entretanto, é importante ter em vista que o desenvolvimento lógico de tal construção argumentativa, levará, inevitavelmente, à desconstrução de toda e qualquer noção de moralidade objetiva e natural.

Dizem que o uso do véu não deveria ser obrigatório porque a mulher goza da liberdade de escolha. Este argumento parte do pressuposto praxeológico de que a liberdade, enquanto imperativo existencial, se impõe a qualquer realidade moral e cultural. O homem é livre até mesmo para negar a sua (possível) natureza. Contudo, isto posto, somos confrontados com a consequência desta chave interpretativa. Se a liberdade, como concebida pelo Ocidente ilustrado, é um axioma antropológico, então todo o cabedal de moralidade se transforma em convencionalismo, em pura construção histórica e temporal. 

Assim, portanto, até mesmo o resquício de pudor legal, existente no ordenamento público ocidental, seria a remanescência de uma noção de moralidade pública. Nada impedria, consequentemente, que nas próximas décadas homens e mulheres deconstruídos lutassem pelo direito ao nudismo total e irrestrito. Se a liberdade é imperativa e se a moralidade é construída, o único obstáculo real seria a resistência de uma certa apatia tradicional.

Entretanto, se nós não entendemos a liberdade individual como valor absoluto da humanidade, somos confrontados com a noção da natureza primordial, que subentende a existência de uma moralidade objetiva. A liberdade deixa de ser o cume da antropologia e este passa a ser a concepção ontológica do homem, que abarca tanto a sua natureza como o seu espírito. Fincados nesse entendimento, o pudor já se transforma numa realidade social fundamentada em algo que corresponde ao interior do homem. A forma como este recato se desenvolve, seja no mundo cristão ou no mundo islâmico, vai depender das particularidades culturais.

Os críticos do uso obrigatório do véu, por um lado, não entendem que a noção de pudor, seja dos cabelos ou das partes íntimas, não resiste ao absolutismo da liberdade individual, como eles mesmos colocam. Por outro lado, se são minimamente coerentes com o seu pressuposto reflexivo, devem assumir que a moralidade serve à liberdade e não o inverso. Incide-se, portanto, num relativismo moral sem precedentes, já que apenas se admite a autonomia do indivíduo como imperativo, restando, no máximo, um ordenamento social para fins de coexistência pacífica.

No entanto, ao considerar a existência de uma moralidade objetiva, natural, intrínseca à condição humana, já se reconhece que, por mais que a liberdade seja reinante na ação, ela deve atuar em concordância com a natureza primordial. Os cabelos cobertos, neste cenário, estariam não apenas de acordo com uma noção de pudor moral, perdurando algumas referências nos países ocidentais, como também ao pudor cultural, reconhecidamente parte de um processo de formação das identidades históricas. Defender que a mulher seja "livre" para não utilizar o véu é tanto assumir que a liberdade se impõe ao moral, como atestar que o individual se estabelece frente ao ordenamento social, ao espírito comunitário. Esta é a lógica vitoriosa no Ocidente. 

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