sábado, 24 de março de 2018

Osho e o Islã: uma "consciência" que não despertou

O famoso guru indiano Rajneesh Chandra Mohan Jain, conhecido como Bhagwan Shree Rajneesh e mais popularmente como Osho, falecido em 1990, tornou-se mundialmente notório pelos seus ensinamentos de "despertar da consciência. Sem dúvida, trata-se de uma figura muito singular no contexto do afloramento da Nova Era no Ocidente. A sua visão da sexualidade livre foi bem aceita pela juventude da época, assim como o seu discurso aparentemente anti-institucional, em oposição às religões. 

Osho foi acusado de utilizar a espiritualidade hindu de uma forma irresponsável, fazendo da auto-promoção e do seu culto pontos fundamentais da seita que havia fundado ao redor de si. O seu aparente discurso anti-establishment, se coaduanava com o movimento progressista que já se espalhava por todo o mundo, em especial depois das efervescências de 1968. Ele afirmava que as religiões institucionais eram "ópio", vício e alienação. O seu ensinamento era a verdadeira fonte de libertação interior e de desenvolvimento da consciência.

O que não se sabe é que, ainda que Osho tenha feito referências positivas ao Cristianismo e obviamente ao Hinduísmo, ele era um árduo crítico do Islamismo. Talvez essa repulsa seja fruto do seu contexto social, já que a Índia sempre foi palco de profundos e históricos conflitos entre as comunidades hindus e muçulmanas. Inegavelmente, Osho não se mostrou nada favaróvel a uma abordagem "espiritualista" do Alcorão, como havia feito com a Bíblia. Poderia ser uma reflexo da falta de necessidade prática, já que a maioria dos seus fiéis ou eram seguidores clássicos do hinduísmo ou eram ocidentais de contexto cristão. O Islamismo sempre foi uma realidade espiritual estranha e outra, sem nenhuma interação com a "mística" do guru.

Em certo sentido, Osho já reproduzia as mesma ideias sobre o Islã que décadas depois seriam popularizadas. Para ele, o Islamismo era uma religião que se resumia à espada e estagnada no tempo, já que o "o Islã parou onde Maomé parou, e ele (Muhammad) era ainda mais ignorante do que Jesus". As suas palavras, direcionadas ao Profeta do Islã, eram carregadas de tensão e até se distanciavam da noção geral associada à sua imagem. Osho se referia a Muhammad como um "anafalbeto" e ao Alcorão como "99% tolices". Para ele, o que de sabedoria válida estivesse ali contido, não seria outra que "sabedoria comum", sem nenhum substrato de revelação ou vontade divina. Quando questionado a razão pela qual não utilizava o Alcorão em suas pregações, respondia que era desnecessário, porque não perderia o seu tempo com um livro que era "completa besteira". 

Grande parte das referências ao Islamismo estão em "From Unconciousness to Consciousness", que é uma coletânea de perguntas dirigidas a ele em 1984. O que se nota no modus operandi de Osho é que, além do oportunismo espiritual, com o uso direcionado da espiritualidade hindu, ele aplicava ao Islã um julgamento que não conduzia com a pregação de paz e tolerância que difiundia em suas pregações. O mundo islâmico não foi um celeiro para suas ideias e, talvez, por isso, jamais necessitou abordá-lo de maneira cordial.

Enquanto Osho se dizia "completamente a favor do Cristo", se referia a Muhammad com palavras muito distantes de uma cordial civilidade. O esforço por ele feito em dissociar o Cristianismo institucional de um suposto Cristianismo espiritual, condicente com a sua noção espiritualidade e sua leitura do Jesus histórico, não foi feito em relação ao Islamismo, que em bloco foi taxado como um manancial de pobreza religiosa e de pouca profundidade "mística".

Não deixa de ser sintomático pensar que, ao mesmo tempo em que Osho esteve na vanguarda de um certo esoterismo burguês tão popular no Ocidente e fruto do vazio existencial moderno, também esteve adiantado no que se refere ao discurso anti-islâmico em clichês verdadeiramente odiosos e carregados de preconceito. Talvez seja um sinal muito claro de que ambas as realidades não estejam tão desconectadas e, outrossim, façam parte de um amplo processo de decadência civilizacional. 

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