quarta-feira, 21 de março de 2018

O "xiismo britânico' é o novo wahhabismo?


Existe atualmente, dentro da comunidade xiita, uma claro movimento de levante e condenação ao que está sendo chamado de "Xiismo Britânico". Esta tendência radical e promotora de divisão, criticada duramente pelo Ayatollah Khamenei, é encabeçada por uma liderença formada em torno ao Ayatollah Mohammad al-Husayni al-Shirazi. A lista de seguidores diretos ou indiretos é extensa, abarcando a nomes como Mujtaba Shirazi, Yasir Habib, Tawhidi, Ammar Nakshawani etc. Todos utilizam de um mesmo padrão de narrativas, carregando uma intransigência anti-sunita e, concomitantemente, uma estranho e suspeito esforço pró-Ocidente (EUA e Inglaterra).

Por um lado, são árduos críticos do xiismo tradicional e da República Islâmica. Mujtaba Shirazi, irmão do Ayatollah Husayni al-Shirazi, já se referiu ao Ayatollah Khomeini como panteísta. Em suas palestras e discursos abundam ofensas aos mais importantes Ayatollahs sediados no Irã e no Iraque. Por outro lado, alimentam o ódio anti-sunita e anti-islâmico. Eles direcionam violentas e ultrajantes palavras à esposa do Profeta e aos três primeiros Califas, intencionalmente estimulando não apenas um ódio anti-sunita dentro da comunidade xiita, como também a dinâmica oposta, reafirmando a imagem preconceituosa do xiismo. Yasser Habib, genro de Mujtaba Shirazi, é conhecido por proferir injúrias morais a Aisha e a Omar num canal de TV enquanto, ao mesmo tempo, invoca a paz e a benção de Deus sobre a Rainha Elizabete II. 

Mujtaba Shirazi, na mesma linha, faz orações públicas rogando a Deus que amaldiçoe a Khamenei, além de ofender a memória do Ayatollah Bahjat, falecido em 2009 e conhecido pela sua profunda vida interior e mística, ao considerá-lo apóstata. De igual modo, referiu-se ao Ayatollah Fadlallah, falecido em 2010, como "Fadshaytan". Tawhidi, sediado na Austrália e seguidor de Husayni Shirazi, popular nos jornais do seu país, propaga os esterótipos islamofóbicos associados à comunidade muçulmana. Por se apresentar como clérigo, ao afirmar em cadeia de TV que o Islã é uma "religião da guerra", naturalmente se transforma em personagem crucial para o fortalecimento das narrativas anti-islâmicas.

Todos eles se converteram em estimadas figuras da grande mídia ocidental. Esta liderança é muito próxima aos meios de comunicação e aos políticos conservadores. Corroboram os preconceitos que a mass media alimenta sobre o Islã ao reafirmarem que grande parte da comunidade sunita é formada por apoiadores do ISIL e potenciais terroristas. De uma maneira não muito distinta, reiteram que os xiitas são todos defensores de um suposto fundamentalismo iraniano. 

Diferentemente dos shirazianos, as liderenças ortodoxas, como Sistani, Khamenei, Amuli etc, não apenas promovem a unidade como proíbem qualquer tipo de sectarismo. Khamenei já emitiu uma fatwa na qual afirma que é pecado ofender a Aisha e aos três primeiros Califas. Sistani, de forma similar, recordou que os xiitas não devem tratar aos sunitas meramente como irmãos, mas como uma extensão deles mesmos. Bahjat também ensinava que aqueles que não buscavam a unidade dos muçulmanos não eram verdadeiros crentes. Estes mesmos clérigos igualmente se opõem à prática de tatbir, que é a auto-flagelação feita durante a recordação da morte de Imam Hussein. Shirazi, por sua vez, não apenas ensina que é um ato recomendável como condena àqueles que o proíbe. 

As críticas de Khamenei aos seguidores e discípulos de Shirazi se intensificaram ainda mais com a prisão do seu filho no Irã, mês passado. Este acontecimento foi seguido da invasão da embaixada em Londres. O grande sensacionalismo feio pela mídia europeia, reafirma que a teoria e a práxis adotadas pelos shirazianos apenas trabalham em defesa das agendas ocidentais no Oriente Médio. Alimentar a divisão da comunidade islâmica, reproduzindo um pretenso "conservadorismo" xiita, ao mesmo tempo em que se desfruta do apoio financeiro de organizações inglesas e americanas é incidir numa incoerência sem igual. Não por acaso, Khamenei tem alertado a comunidade xiita, destacando que não se pode aceitar tanto o "xiismo apoiado por Londres" (shirazianos) quanto o sunismo apoiado pelos EUA (wahhbismo). Ambos são fontes de divisão e autodestruição do Islamismo.

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