quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Quem é quem nas tensões curdas na Síria?

Existe uma tensão sobre a possibilidade iminente de invasão turca à cidade de Afrin, no norte da Síria, controlada pelas milícias curdas. Neste cenário, quem é quem?


Turquia - Interessada em enfraquecer as bases da "Unidades de Proteção Popular" (YPG), o braço armado do "Partido de União Democrática" (PYD), que defende os interesses curdos na síria. O governo turco os considera grupos terroristas e teme que uma organização política curda numa Síria desestabilizada, poderia levar ao fortalecimento dos curdos dentro da Turquia. Ambos estão vinculados ao "Partido dos Trabalhadores do Curdistão" (PKK) turco, responsável por inúmeros atentados. O YPG/PYD são apoiados pelos EUA e a Turquia considera esta aliança na Síria uma ofensa à soberania turca.


Siria - Bashar al Assad entende que a ação turca em Afrin seria o fim da unidade terroritorial do país. A Turquia ameaça invadir a região para combater as milícias curdas. Tanto o governo de Damasco, como Teerã, consideram o YPG como um ator político neutro. A causa curda na Siria nunca tomou linhas dramáticas e a região na qual estão, longe do coração do país, os torna ainda mais coadjuvantes. 


Irã - Teme que a ação turca poderá levar a um enfraquecimento ainda mais acentuado do seu maior aliado na região. Aqui também entra um segundo fator, que é a ascensão turca como importante ator político no mundo islãmico. O Irã já despontava como personagem principal em diversos conflitos nos quais atuava ao lado da comunidade xiita, como no Iêmem, no Bahrein, na Arábia Saudita e na própria Síria.


EUA - Apoiam ao PYD/YPG. Consideram a ambos como parte das Forças Democráticas Sírias. Neste cenário, curiosamente, Washington está, ao menos pragmaticamente, ao lado do regime de Bashar al Assad. Todos reconhecem que a deterioração do regime central de Damasco permitiria uma nova ascensão de grupos jihadistas.


Rússia - Aliada do Irã, da Síria e da Turquia, pode ser obrigada a tomar uma decisão a partir da construção de lados definidos no conflito. Ainda que tenha uma boa relação com o governo de Damasco, não interpreta positivamente a aliança dos curdos sírios com os EUA. Ancara poderia encontrar em Moscou o seu mais forte apoio, tanto logístico quanto diplomático, na luta contra o YPG.


Curdos - Os curdos se dividem politicamente em muitos partidos na Siria, na Turquia, no Iraque e no Irã:

Partido de União Democrática (PYD) - Partido político sírio, com vínculos com o PKK turco.

Unidades de Proteção Popular (YPG) - Braço armado do PYD. Ambos apoiados pelos EUA.

Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) - Maior e mais antigo partido curco da região e responsável pela difusão da luta nacionalista. É considerado terrorista pela comunidade internacional.

Partido Democrático do Curdistão (KDP) - Criado pelo Gen. Mustafa Barzani, no Iraque, também tem apoio dos EUA e não são aliados do PKK turco. Nutre boa relação com o governo da Turquia.

União Patriótica do Curdistão (PUK) - Com menos influência que o KDP, está mais concentrado em Bagdá. Tem maior vínculo com o governo do Irã.

Partido da Vida Livre do Curdistão (PJAK) - Partido curdo iraniano vinculado com o PKKK turco. Considerado terrorista pelo Irã e pelos EUA.

O PKK e os seus braços politicos (PYD, YPG e PJAK) são todos ideologicamente alinhados com o socialismo e as lutas de libertação. Historicamente, a causa curda esteve profundamene associada com o marxismo e surge como consequência do processo sistemático de perseguição turca. Todas as manifestações culturais curdas foram proibidas e perseguidas. Depois do golpe militar de 1980 a língua curda foi proibida e até mesmo palavras foram vetadas pelo governo: "curdos" e "Curdistão". O PKK nasce, em 1978, como resutado dessas ações do estado turco e desde o seu surgimento defendia a criação de uma nação curda, independente e socialista.

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