segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Qual o problema do multiculturalismo?

O Ocidente moderno, construído sobre as bases do individualismo, sempre se enxergou como moralmente superior às experiências tradicionais dos povos orientais. Este comportamento até refletia o modo como a história ocidental buscou romper todos os seus vínculos com o passado medieval, já que, neste período, a noção comunitarista se sobrepujava à ideia de soberania pessoal. O surgimento da identidade individual auto-suficiente, fez com que o Ocidente entendesse o império da sua liberdade como o mais alto cume do desenvolvimento humano.

Apenas neste cenário é possível entender o projeto multiculturalista ocidental, especialmente europeu. O multiculturalismo nada mais é do que o indiviualismo progressista aplicado às culturas. Permite-se o surgimento de uma certa diversidade na qual as variadas manifestações culturais são admitidas, contudo, não se gera a ponte de diálogo para a compreensão mútua. No fundo, se confronta uma certa prepotência indivivualista na qual o "exotismo" cultural é admitido como parte do reino da liberdade nas modernas sociedades ocidentais.

A incapacidade do Ocidente de se abrir às culturas e tradições que não as suas, encarna-se na construção desta ideologia multicultural. Estes bantustões de turbantes e véus se transformam em enclaves e bandeiras do progressismo europeu, como um exemplo da superioridade moral do discurso liberal. A prepotência moralista progressista utiliza da excentricidade cultural como sinal da sua abertura ao "respeito" à diversidade. Entretanto, esta deferência não se transforma em diálogo, mas apenas na construção de um lugar no qual culturas e tradições possam co-existir com a modernidade.

O multiculturalismo, como concebido pelo progressismo, inevitavelmente transforma-se em relativismo cultural. O individualismo ocidental é visto como o único valor absoluto e é justamente por se reconhecer como o mais alto logro do espírito humano, que o homem europeu se sente "aberto" o suficiente para aceitar o diferente em suas cidades. Este processo se degenera de tal forma que surgem grandes anomalias, como coletivos LGTB defendendo mesquitas salafistas ou, num outro contexto, jovens feministas mexicanas marchando ao lado de indígenas católicas de Chiapas, que dentro de um espectro político clássiso estariam muito mais próximas ao conservadorismo moral.

Se no passado as nações europeias pretenderam levar o Cristianismo e a Civilização aos quatro cantos do mundo por reconhecer neste seu estilo o mais proeminente espírito humano, hoje, da mesmíssima forma, o progressimo reproduz esta dinâmica, mas agora num sentido invertido. A nossa hegemonia liberal nos faz aptos, porque superiores, à aceitação da diversidade, ainda que não exista uma minímima disposição empática de se conectar com o mundo de princípios e valores do outro.

O multiculturalismo é incapaz de se transformar em interculturalidade. Este último posicionamento não nasce da arrogância liberal, já que propõe um diálogo sincero e real de cosmovisões. A grande problemática multiculturalista é que se arvora uma superioridade progressista na qual as contradições e os choques de perspectivas são relativizados em nome da soberania individualista. No fundo, apesar de todo o relativismo que o sustenta, este discurso reconhece um valor supremo: o reino total e absoluto do indivíduo ocidental. 

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