segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O Profeta e o Imam: a união mística

Mesquita de Imam Ali em Najaf, no Iraque
A teologia xiita, conectada com a sua filosofia profética, nasce a partir da noção do caráter sucessório e continuador da missão sagrada dos Imames. O Profeta e o Imam compartilham de uma profunda e íntima relação já na pré-existência: Muhammad e Ali são um. Neste sentido, a “walayah” é a dimensão esotérica da profecia eterna (nubuwah), isto é, a sua eterna perpetuação através do aprofundamento do aspecto místico (batin) do conteúdo revelado. Assim como a revelação, em sua dimensão “exotérica”, chega à sua plenificação com o advento do Profeta do Islã, a dimensão “esotérica”, de maneira igual, tem em Ali ibn Abu Taleb a sua epifania final. Conclui-se, portanto, que o Imamato na luz muhammadiana, é, eo ipso, o ápice de todos os imamatos esotéricos precedentes.

Contudo, é importante destacar que a concepção xiita do imamato não se sobrepõe a da profecia, mas nasce da fonte da Luz Muhammadiana preexistente na eternidade. A profecia absoluta (nubuwah mutlaqah) se encarna concretamnte em profecias particulares (muqayyadah). A primeira é esta pré-eterna realidade muhammadiana, já querida junto a Deus. A segunda é a manifestação pontual e particular do conteúdo revelado, em epifanias (mazhar) limitadas na figura dos “nabis” e profetas. Muhamamd, como Selo da ampla e total profecia, é ele próprio a essência do revelado, a personificação da “nubuwah”, a “haqiqah muhammadiyah”.  O imamato, sendo o aspecto esotérico da profecia, tem uma lógica similar. Existia uma “walayah” absoluta e geral e uma “walayah” individualizada na figura dos “amigos de Deus”.  Os Imames são, portanto, o selo (khatim) desta “walayah”.

A relação entre o “wali”, o “nabi” e o “rasul” é crescente. Como aspecto esotérico da profecia, o “wali” só pode ser um “wali”. O “nabi”, por sua vez, traz consigo um conteúdo profético que subentende o seu substrato místico, portanto todo “nabi” também é “wali”. Por fim, o “rasul”, como Mensagerio, é revelador da Lei Divina, por isso carrega três carimas, “rasul”, “nabi” e “wali. Dentre estes existiram seis grandes, responsáveis pela instituição de uma nova “shariah”: Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Muhammad, os “ulu al-azm”. Entretanto, destas três realidades, é a “walayah” a mais proeminente, por ser o aspecto profundo, íntimo e essencial do conteúdo revelado. Isto não configura uma exaltação do “wali” frente ao “rasul”, porque este último é detentor de todos as dimensões da realidade profética. Com o último Mensageiro também veio um último e definitivo livro, e é o seu coração, seu segredo (batin), que o ilumina. Este aspecto esotérico é, precisamente, a “walayah”, o que constitui a essência da imamologia.

Os doze imames, como unidade pleromática, formam uma mesma luz e uma mesma essência. Como epifanias, houve, dentro da imamologia, alguns problemáticas teológicas muito similares às discussões cristológicas da Igreja nascente. Curiosamente, todas as respostas foram opostas às soluções encontradas pelo Cristianismo ao tratar da natureza de Cristo. A relação entre a divindade (lahut) e a humanidade (nasut) na vida do imamato foi objeto de profunda reflexão.  Entretanto, não são eles divinos, mas reflexos da divindade em sua manifestação. Assim, portanto, como espelhos, não são encarnações ou emançaões, mas sim imagens refletidas dos Nomes Divinos.

A imamologia se fundamenta numa percepção do próprio desenrolar da revelação. Ou, por um lado, o tempo profético é consumado num Livro e numa Lei, através da conscientização religiosa moral transmitida pelas gerações, num significado puramente literal e completamente exotérico, ou, por outro lado, este passado profético tem uma constante atualização, um constante vir-a-ser, já que o Livro esconde um significado espiritual oculto cada vez mais aberto e cada vez mais profundo. Justamente por entender esta segunda realidade que o ciclo de profecia (da'irat al-nubuwah) é sucedido pelo ciclo da walayah, e este é um conceito que permanece fundamentalmente xiita

Como até mesmo Mulla Sadra refletiu, o que está terminado é a a profecia legislativa (nubuwah al-tashri '), e o que foi abolido é o uso do termo “nabi” e “rasul”. Nada mais será revelado depois do advento de Muhammad. Ele é a essência da Luz Muhammadiana pré-existente e, portanto, já não há mais palavra a ser dita por Deus. Entretanto, a “walayah” inicia o seu ciclo em sintonia com este conteúdo profético e o que continua a existir no Islã sob o nome de “walayah” é de fato uma profecia esotérica (nubuwah batiniyah) alicerçada na mensagem definitiva de Deus.

Pode-se concluir, que, assim como o Profeta Muhammad, como o Selo da Profecia, era o “mazhar” (epifania) da profecia no sentido absoluto, o primeiro Imam, o “wasi” ou herdeiro de Muhammad, era o “mazhar” e o Selo da “walayah” em seu sentido absoluto. As manifestações parciais da “walayah” começaram com Seth, filho do Imam Adão, e culminará com o décimo segundo Imam ou Madhi - no presente, o Imam escondido - como Selo da walayah particular durante o período final de profecia. Entende-se, portanto, que o Imamato Muhammadiano é a manifestação do aspecto esotérico da eterna Realidade profética.

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