sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Entrevista com Sayed Mohammedhassan Alsheraa

Sayed Mohammedhassan Alsheraa, iraquiano, residente nos EUA, é um jovem pregador conhecido nas comunidades islâmicas xiitas em todos os EUA e Canadá. Em 2011, ingressou no seminário awzat Al-Najaf al-Ashraf, em Michigan e em 2015 no seminário Hawzat Al-Imam Al-Sadiq, em Karbala. Também é membro do Muslims Youth Connect. 

1 - Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a disponibilidade desta entrevista. Você poderia se apresentar aos nossos leitores e falar sobre o seu trabalho na divulgação da mensagem islâmica e no diálogo inter-religioso?

1: O prazer é todo meu. Meu nome é Sayed Mohammedhassan Alsheraa, sou originalmente de Basra, no Iraque, mas moro em Michigan, nos EUA. No que diz respeito aos meus esforços para disseminar o Islã, acredito que a forma mais eficiente de fazê-lo é através da educação. É um fato que a maioria das pessoas que têm medo do Islã simplesmente não o conheça e, provavelmente, sequer possa diferenciar entre "muçulmano" e "Islã". É por isso que eu dei forma a uma iniciativa para tratar e realizar discussões, cursos, programas, tanto quanto eu possa, que abordam os equívocos sobre o Islamismo, que discutem sobre importantes eventos islâmicos, nossos deveres como muçulmanos no Ocidente e assim por diante. Agradeço a Deus por me permitir a oportunidade de ensinar o Islã numa escola local todos os domingos. Eu também sou abençoado por ter vários convites nos meses de Muharram e Ramadã para discursar sobre os significados destes tempos sagrados.

2 - Nosso blog "Islamidades", em um artigo chamado "A paz islâmica é xiita?" destacou como o xiismo tem sido o aliado mais tradicional da paz no Oriente Médio. O xiismo também se destaca quando se trata de um contato amistoso com o cristianismo. Você concorda que a paz no Oriente Médio, em certo sentido, depende do protagonismo xiita?

2: Creio que a paz no Oriente Médio depende unicamente da unidade e que o processo para a paz na região deva começar com um diálogo intra-religioso e com um diálogo inter-religioso. Precisamos encontrar motivos comuns entre as escolas de pensamento xiitas e sunitas, caso contrário, estaremos com o sangue nos olhos. Existem muitos excelentes exemplos na história nos quais sunitas e xiitas coexistiram em harmonia e precisamos rever esses exemplos e implementar o que eles fizeram direito. Há também muitos incríveis exemplos de unidade sunita/xiita que estão sendo destacados por alguns dos nossos melhores estudiosos hoje em dia; dando crédito onde o crédito é devido, ninguém pode negar os esforços do Ayatollah Sistani para dissipar o sectarismo no Iraque ou o produtivo diálogo do Ayatollah Nasser Makarem Al Shirazis com os líderes da universidade de Al Azhar no Egito. Estes são os primeiros passos para um Oriente Médio se Deus quiser mais estável.

3 - Quais são os ensinamentos que a vida e a morte do Imam Hussein trazem aos problemas atuais do mundo moderno?

3: Imam Hussain é uma escola por si só e explicar todos os seus ensinamentos seria algo que somente Deus é capaz de fazê-lo. Entretanto, entre suas inúmeras lições, que são muito significativas nesta geração, a mais atual é falar contra a opressão. Falar sempre pelos oprimidos diante do opressor. Temos uma abundância de regimes opressivos acontecendo hoje - as maiores crises humanitárias do mundo no Iêmen, o genocídio rohingya em Myanmar, o tratamento injusto das mulheres etc. Se fazemos das lições do Imam Hussain o núcleo da nossa vida, então todas esses problemas serão erradicados. 

4 - Você acha que os muçulmanos ocidentais podem ser seduzidos pelo secularismo? Em uma pesquisa realizada em 2014 pelo Religious Landscape Study, foi destacado como 23% dos muçulmanos dos EUA deixaram o islamismo. Como manter a identidade islâmica no Ocidente, sem ser seduzido pelo secularismo e, ao mesmo tempo, sem cair em uma bolha radical?

4: Eu teria que dar a mesma resposta da primeira pergunta; a educação é fundamental. Ex-muçulmanos ou têm problemas com alguns versos no Alcorão Sagrado que eles não conseguem entender ou estão confusos sobre certos eventos da história islâmica sobre os quais eles foram mal ensinados. Em última análise, a satisfação começa com a educação.

5 - Como você enxerga o poder do wahhabismo na propagação do Islã no Ocidente? No Brasil, muitas mesquitas são financiadas e mantidas pela Arábia Saudita.

5: A política é um jogo muito sujo, o wahhabismo/salafismo é um desafio a ser combatido porque esta  mórbida e radical ideologia está sendo financiada com petrodólares, por sua vez adquiridos por certos países ocidentais que preferem fechar os olhos para não enxergar as atrocidades cometidas com a riqueza que eles ganham. Que Deus conceda o descanso eterno à alma do xeque Baqir Alnimr que denunciou a esse jogo sujo.

6 - Você acredita que os muçulmanos estão se tornando conscientes dos perigos retóricos do wahhabismo? Esta consciência crescente é mais forte no islã ocidental?

6: Creio que, com o passar do tempo, o Wahhabismo se expõe dia a dia e, talvez, em geral, os muçulmanos possam estar mais conscientes do que há 100 anos. No entanto, não acho que essa consciência esteja em um nível suficientemente forte para unificar as massas contra este culto radical, ainda.

7 - É possível perceber um profundo e belo processo de intelectualização do Islã, talvez até mesmo em resposta ao fundamentalismo Wahhabita e à crítica ocidental. Você acredita que o Islã será, nos tempos vindouros, o restaurador da civilização como o cristianismo foi no passado?

7: Sim, é possível perceber um belo processo de intelectualização do islamismo em muitos dos nossos estudiosos. Se querem desfrutar da beleza deste Islã, não há nada melhor do que participar ou ouvir uma palestra de um erudito muçulmano que dedicou toda a sua vida ao estudo do Islamismo. Eu sei que o Islã será o restaurador da civilização, isto foi predito pelo profeta Muhammad (que a paz esteja com ele e sua progênie) quando disse: "Se a vida do mundo permanecer por mais de um dia, Deus irá prolongará este dia até que um homem da minha Umma, que tenha seu nome como meu nome e seu apelido como meu apelido, aparecerá trazendo uma revolução. Ele preencherá o mundo com justiça depois do mundo ter sido preenchido com injustiça e tirania ". Que Deus nos permita estar no dia em que o Salvador esperado retornará.

8 - Para aqueles que acusam os muçulmanos de promover uma islamização silenciosa do Ocidente, o que você poderia dizer? 

8: Só lhe digo uma coisa. Eu até acho engraçado. Nós, como muçulmanos, não conseguimos fazer com que a Umma se dê bem, mas existem aqueles que no Ocidente acham que somos capazes de islamizá-los. A ignorância é felicidade.

9 - Como você enxerga a estrutura política do Irã? Você se alinha com aqueles que defendem ou se opõem ao governo do jurista [Wilayat Al-Faqih]?

9: Eu acredito que o Irã é um excelente país com um grande legado e um grande povo. Nada é perfeito, o que inclui a estrutura política de todas as nações do mundo, e o Irã não é exceção. Mas, ao invés de procurar em cada canto e qualquer coisa para atacá-lo, por que não se concentrar nas contribuições abundantes que esta nação aportou para a sociedade e o mundo? No que diz respeito a Wilayat Al-Faqih, é nada mais que uma teoria política islâmica, e precisamos de teorias políticas islâmicas que deem uma resposta às questões feitas na ausência do Imam infalível. E agora, estabelecemos um país islâmico? O conceito de Wilayat Al-Faqih responde a essa pergunta. E, como muitas teorias políticas, há sempre espaço para melhorias e uma evolução para das idéias, essa é a minha exposição simplificada.

10 - Em nossas sociedades ocidentais onde o progressismo moral, o ateísmo, o fluxo migratório e os movimentos conservadores se misturam, o que podemos esperar do futuro?

10: Podemos continuar olhando a ascensão do ateísmo, dos movimentos conservadores, da intolerância e continuar pensando no que podemos esperar num futuro, quando devemos estar vivendo o momento com a melhor das nossas habilidades. Não importa o quão analítico alguém possa ser, o futuro é desconhecido, a não ser para Deus. Não importa o quão ruim seja o estado atual, não permitamos que nos tornemos fracos. Mesmo que chegue ao ponto em que estejamos alguns poucos no deserto, com sede, e você saiba que seu fim está próximo - permaneça firme. Isso não parou a Imam Hussain e a seus pupilos e tampouco nos impedirá. 

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