segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Ayatollah Shariatmadari e a oposição ao "governo do jurista"

Diferentemente do que se imagina, não havia um consenso clerical sobre o governo do jurista, na República Islâmica do Irã, como defendido pelo Ayatollah Khomeini. Muitos religiosos criticaram duramente o "Wilayat al-faqih" alegando que cabia aos leigos e não aos ulamás a administração do Estado. O mais ardoroso crítico foi o Ayatollah Mohammad Kazem Shariatmadari, importante liderança xiita no Azerbaijão iraniano e na República do Azerbaijão.

Shariatmadari afirmava que cabia ao clero, segundo a concepção tradicional xiita, servir à sociedade e permanecer afastado da política. Além disso, acreditava que nenhum sistema de governo poderia ser coagido contra um povo, por mais moralmente correto que estivesse. Ao contrário, as pessoas precisam ser capazes de eleger livremente um governo. Ele pontuava que um regime democrático, com a auto-determinação, era perfeitamente compatível com a correta interpretação do "Wilayat al-faqih"

Antes da revolução, Shariatmadari queria um retorno ao sistema da monarquia constitucional que foi promulgado na Constituição iraniana de 1906. Ele incentivou manifestações pacíficas para evitar o derramamento de sangue. De acordo com esse sistema, o poder do Shah era limitado e o país era governado por uma estutura parlamentar. Mohammad Reza Pahlavi e seus aliados, no entanto, tomaram o pacifismo dos clérigos como Shariatmadari como um sinal de fraqueza. O Shah continuou com suas políticas anti-islâmicas e de ocidentalização forçada, levando Shariatmadari a criticá-lo abertamento e declarar a monarquia Pahlevi como apóstata. O Ayatollah abriu mão do seu pacifismo e se uniu ao processo revolucionário, mas com a esperança democrática.

Shariatmadari, contudo, sempre foi uma força de oposição. Denunciou a ocupação da embaixada dos EUA em Teerã e também criticou o sistema de governo de Khomeini por não ser compatível com o Islã ou representar a vontade do povo iraniano. Ele criticou severamente a forma como o referendo foi conduzido para estabelecer o sistema de governo. Por suas críticas, foi colocado sob prisão domiciliar. Isso levou a protestos em massa em Tabriz. Shariatmadari, não querendo uma guerra civil ou conflitos, ordenou que os protestos em sua defesa cessassem.

Sadegh Ghotbzadeh, preso por conspiração de assassinato a Khomeini, acusou a Shariatmadari de participação no complô. O Ayatollah foi duramente humilhado e acusado de traição, a tal ponto que apareceu em rede nacional lendo uma confissão de culpa e pedindo perdão. O seu Centro de Estudos foi fechado e viveu em prisão domiciliar até sua morte, em 1986, sendo enterrado numa sepultura comum em Qom. Uma das poucas vozes que saíram em sua defesa foi a do Ayatollah Hussein Ali Montazeri, representante dos clérigos que buscavam maior reformismo e respeito às liberdade individuais. 

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