sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Ayatollah Mutahhari e a Teologia Islâmica da Libertação de Ali Shariati

Ayatollah Morteza Mutahhari
Durante o processo de construção reflexiva dos pressupostos teóricos da Revolução Islâmica do Irã, dois posicionamenos políticos entraram em profundo conflito. Por um lado, a leitura mística e metafísica do Ayatollah Motahhari e, por outro, o materialismo existencialista de Ali Shariati. O primeiro representava o movimento nascido nas Universidades teológicas, associado ao irfan e ao renascimento intelectual dos religiosos. Já o segundo, formado sob a égide das ciências humanas europeias, partia do humanismo marxista como substrato para uma leitura libertadora da mensagem islâmica. Em quadros gerais, Mutahhari representava o conservadorismo espiritual e Shariati o progressismo materialista.

Shariati foi contemporâneo dos líderes sul-americanos da Teologia da Libertação, tais como Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff. Assim como eles, a sua reflexão cobria as mesmas preocupações e representava a mesma tentativa de atualização do discurso religioso a partir da experiência marxista, dentro de uma perspectiva asiática e islâmica. O Islamismo deveria ser reinterpretado à luz da hermenêutica materialista que enfatizava as urgentes necessidades de justiça social e do renascimento ético. Neste sentido, Shariati faz parte da longa sucessão de intelectuais associados ao movimento modernista Nahda (renascimento), surgido no Egito no séc. XIX. Estes eram desejosos de uma profunda reforma intelectual do Islamismo, sem com isto representar a sua ocidentalização.

Shariati, PhD em sociologia pela Sorbonne, entendia o marxismo ortodoxo como uma experiência fracassada e incapaz de libertar a sociedade iraniana. Para ele, se fazia fundamental uma profunda reforma da concepção antropológica da teoria marxista, para que compreendesse a realidade espiritual da existência humana. Assim, pois, surgiria um Islamismo também reformado, capaz de ser o sucessor ideológico do marxismo. A partir de então, toda a leitura corânica e todo o processo de desenvolvimento histórico do Islã, passaram a ser lidos através da chave da luta de classes e do materialismo dialético. A fé islâmica se transformaria numa filosofia revolucionária pós-marxista ainda mais autêntica, porque reconheceria o substratro espiritual da condição humana e, ao mesmo tempo, o eterno estágio de opressão do homem pelas elites.

As semelhanças entre a Teologia da Libertação islâmica e cristã são inúmeras. Talvez o ponto mais similar é a leitura dialética feita por Shariati do próprio xiismo. Assim como os teólogos cristãos, o sociológo iraniano opunha o Xiismo Vermelho ao Xiismo Negro. Enquanto o último representaria as forças de opressão da monarquia e do clero, assim como uma total incapacidade de respectivadade com as massas de crentes, o primeiro seria a mais autência experiência religiosa. O Xiismo Vermelho se vincularia às forças populares de libertação e salvação e estaria marcado pela oposição à estrutura clerical e ritualística. Os paralelos entre o pensamento de Shariati e a noção de igreja popular da teologia cristã da libertação são muitos. Ambas as reflexões bebem do movimento modernista, que buscou, tanto no Ocidente cristão quanto no Oriente islâmico, a junção da reflexão tipicamente moderna com as bases teológicas das respectivas crenças. Para Shariati, o xiismo era um grande partido (yek hezb-e tamam), com uma poderosa ideologia própria: a ideologia abraâmica (idiolozhi-e ebrahimi), isto é, a luta profética pela justiça.

O resultado final do pensamento shariatiano foi uma teologia modernista que, ainda que fosse profundamente ocidental em seus pressupostos reflexivos, era anti-ocidental em seu discurso, por entender o capitalismo e sua opressão como produtos da Civilização europeia. Shariati também se distanciou do socialismo árabe, como estruturado pelo Partido Baath e pelos movimentos palestinos, por considerá-lo demasiado secular. Para o sociológo iraniano, sem a mitigação do marxismo através da reflexão teológica, o projeto de libertação dos povos muçulmanos jamais seria logrado. Por isso que Shariati, em seu reconhecimento da importância do protagonismo do leigo frente ao clero, reinterpretava a própria experiência ritual xiita através da simbologia libertadora, destacando-se o culto ao martírio e à vida do Imam Hussein.

O Ayatollah Mutahhari, apesar da sua similaridade com Shariati na busca pela modernização do Islamismo a partir da reflexão filosófica ocidental, se distinguia deste em tudo aquilo associado com a influência marxista-materialista dentro do discurso teológico. Em 1965, Mutahhari foi um dos fundadores da Husainiyya-ye Irshad, uma instituição religiosa voltada para a juventude educada, com leituras que envolviam economia, política, filosofia, dentro de uma perspectiva islâmica. A novidade inaugurada foi capaz de atrair a inúmeros interessados na ascensão do movimento modernista, que já despontava em outras regiões do mundo muçulmano. O grupo tinha como objetivo a formação de uma elite islâmica intelectuamente preparada, capaz de compreender a modernidade em sua complexidade, mas sem flertar com o discurso secularista da Dinastia Pahlevi. Shariati chegou a participar desse grupo, porém a proposta se distinguia profundamente.

Para Mutahhari, diferentemente de Shariati, cabia ao clero um papel fundamental na mudança social do Irã. Ele defendia que a instituição clerical fosse mantidade pelo Estado, apesar de reconhecer que isto poderia diminuir a sua liberdade de atuação. Temia que um clero custeado diretamente pelo povo se transformasse em vendedores de conveniências. Para o Ayatollah, a modernidade necessitava de religiosos preparados e capazes de responder com verdades talvez desagradáveis para a maioria inculta.

No seu processo de oposição ao marxismo-materialista, Mutahhari desenvolveu a sua própria perspectiva revolucionária, partindo da noção irfânica do homem perfeito. Para ele, o  verdadeiro Islamismo reformado é aquele que se distancia do Ocidente e do Oriente, sustentado num reconhecimento da realidade espiritual e oposto à aridez socialista. O marxismo seria, portanto, mais um instrumento ocidental de alienação da intelectualidade iraniana. Mutahhari reconhecia a necessidade moderna de desenvolvimento ideológico, até como reflexo da capacidade desta de propor uma cosmovisão totalizante da existência.  O Islamismo, pensa, é esta teoria geral do real capaz de dar ao homem um sentido existencial global. Numa leitura teológica, a Sharia é esta ideologia integral.

Ali Shariati
Todo o pensamento de Mutahhari, como também do próprio Khomeini, parte da noção de unidade (tawhid), refletindo a experiência mística do irfan. A sua distinção mais radical ao pensamento de Shariati é justamente o antecedente antropólogico. Para ambos os clérigos, o universo, enquanto criação da vontade divina, leva em si uma harmonia sistêmica. Todas as criaturas fazem parte da estrutura da ordem criada e são sombras de Deus. Cabe ao homem, contudo, a leitura da realidade essencial das coisas e a busca pela união com Deus através do processo de conhecimento de si e do outro. Mutahhari não entende o universo fenomênico materialista reduzido ao concreto, mas sim a união do manifesto e do invisível. O homem, carregando esta vocação divina, tem uma visão científica, filosófica e religiosa da realidade, que o faz capaz de enxergar com profundidade o mundo e aquilo que dele faz parte.

Enquanto para Mutahhari a “unidade” tem um sentido ontológico de união com a realidade e com Deus, para Shariati o “tawhid” é a missão social, a filosofia da história, o movimento de libertação que perpassa o tempo e se atualiza constantemente na luta de classes. O monoteísmo é esta força revolucionária que destrói os ídolos da opressão e o politeísmo é a degeneração causada pela idolatria fruto da injustiça e do sistema socioeconômico. Dentro desta leitura shariatiana, o monoteísmo perde toda a sua gravidade teológica e se transforma na sociedade sem classes, num total esvaziamento do sentido espiritual dado por Mutahhari, que inclusive concebia o Estado orientado como direcionado não à luta de classes, mas a Deus. O pessismismo marxista, aos olhos do Ayatollah, não deveria se sobrepor ao otimismo corânico e ao reconhecimento do nobre destino do homem em sua vocação divina.

A concepção social pensada pelo Ayatollah também se distinguia do modelo de Shariati. Enquanto o último idealizava o protagonismo do leigo uma estrutura estatal centralizada e socialista, Mutahhari defendia a liderença clerical num Estado que defendia a propriedade privada e respeita a individualidade. Vale pontuar, neste aspecto, que a mentalidade islâmica tradicional não concebe a noção individualista nascida com a modernidade ocidental. Para o pensamento de Mutahhari, o indivíduo é um átomo do corpo social organizado, algo similar à noção da Cristandade medieval. Para ele, a verdadeira reforma parte dessa massa popular e não das elites governantes, através do processo de elevação espiritual e pessoal. O indivíduo é, portanto, antes de mais nada, um crente que faz parte do sistema comunitário, uma ideia que muito se afasta do pensamento liberal do Ocidente. Já Shariati tem uma concepção do indivíduo mais similar à noção ocidental. Isto também se nota no seu radical anti-clericalismo e na ênfase dado ao protagonismo do leigo. O sociólogo iraniano chega a reproduzir algumas ideias protestantes, como a livre interpretação do Corão.

Muitas vezes Mutahhari foi acusado pelos seguidores de Shariati de promover uma alienação espiritual e clerical. Entretanto, o Ayatollah jamais se fechou para uma leitura libertadora do Xiismo. Mutahhari era capaz de ler o martírio e o paradigma da Karbala com a chave da justiça e da luta contra a opressão. Para ele, a noção de sacrifício faz parte do Islamismo entendido como religião de ação, mas do que uma religão piedosa. Esta noção da rebelião herórica também estava por detrás do êxito do marxismo com a juventude, algo que ele buscava compreender e reproduzir. Mutahhari entendia a piedade como uma dinâmica muito além da devoção ou da abstinência, da oração ou da observância, mas sim como parte do ativismo necessário para a transformação e construção de uma realidade adequada às necessidade do homem espiritual. Aqui, pois, Mutahhari fica entre o radicalismo libertador dos shariatianos e o tradicionalismo pietista dos ulamás. Não aceitava a passividade dos últimos e tampouco o materialismo dos primeiros, se diferenciava da esquerda muçulmana ao não reduzir o Islã a um simples substrato antropológico para o materialismo marxista.

Mutahhari e Shariati tinham concepções distintas e até opostas. Enquanto o Ayatollah partia da ortodoxia islâmica e da influência irfânica, o sociológico defendia o materialismo e o Islamismo anti-clerical. A história, contudo, já nos mostrou que ao final do processo Revolucionário o lado vitorioso esteve junto a Mutahhari. Foi um outro clérigo, o Ayatollah Khomeini, que instaurou a República Islâmica governada pelo jurisprudente. Curiosamente, se ambos se diferenciavam no campo teórico, as suas mortes os uniram. Shariati morreu em 1977, na Inglaterra, sob circunstâncias misterioras, enquanto Mutahhari foi assassinado em 1979 por membros do Furqan, um grupo shariatiano anti-clerical.

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