terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A dissolução do Império Otomano: o fim do Califado e o início das nações árabes

Hussein ibn Ali, Rei dos Países Arábes,
Sharif e Emir de Meca,
aspirante a Califa
Nunca a noção de "dividir para conquistar" foi tão real na história do mundo moderno como na fragmentação do Império Otomano. Os britânicos jamais viram com muita simpatia a existência de um imenso e secular governo, com amplas fronteiras numa região estratégica. O envolvimento turco na Primeira Guerra Mundial catalisou o projeto inglês de sabotar a hegemonia de Istambul em todo o Oriente Médio. Contudo, o mais crucial fator de ingerência política foi a descoberta e a exploração do petróleo na Pérsia, com a criação da Anglo-Iranian Oil Corporation, em 1908.

O Oriente Médio sempre foi visto pelos britânicos como uma região crítica, tanto por razões geográficas como por motivações comerciais. Estrategicamente, os territórios islâmicos eram barreiras importantes contra a expansão russa na rota da Índia britânica e para o Egito. Contudo, com a consequentente descoberta do petróleo no Irã, já sob a esfera de influência britânica, e em seguida no Iraque, ainda sob domínio otomano, a discussão energética tomava conotações militares durante a Primeira Guerra Mundial. Os britânicos inicialmente perceberam que o controle sobre o petróleo iraquiano e persa geraria maior capacidade logística no conflito armado, mas logo dimensionaram que estavam diante da maior revolução industrial e produtiva desde o séc. XVIII.

A política externa britânica, já no século XVI, apoiava o Império Otomano. A Grã-Bretanha estava empenhada em defender a integridade das fronteiras turcas contra os projetos imperiais russos e franceses. Após a conquista da Índia, o Império Otomano foi visto como uma conveniente barreira de proteção contra incursões comerciais e militares. A Coroa inglesa muitas vezes se lançou como a salvação do sultão turco, como na Guerra da Crimeia. A soberania turca na região, por mais decadente que fosse, servia como um poderosa aliada, seja pela estabilidade, como pelo atrito com a Rússia. O grande erro otomano foi a falida aliança com a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, vista pelos britânicos como um claro sinal de traição. Após sua derrota, as potências européias, lideradas por Londres, se degladiaram pelo domínio dos seus despojos.

No contexto armado, a Inglaterra encontrou na população árabe o seu maior aliado contra Istambul. Em troca das garantias britânicas de independência no pós-guerra, a Revolta Árabe se transformou no catalisador da derrotada otomana. Contudo, o mais impressionante aspecto da posição política foi a forma como instrumentalizou o Islã. Os britânicos costuraram uma profunda aliança com o Sharif de Meca, Hussein ibn Ali, descendente do Profeta Muhammad, prometendo que com a derrota do Império Otomano, seria ele o novo governante da comunidade muçulmana, sucedendo aos turcos no domínio do vasto território desde a atual Síria até o Iêmem. Recordemos que os Sultões otomanos sequestraram o título de "Califa" e se consideravam os governantes de iure e de facto da "Ummah". Os muçulmanos não enxergavam com simpatia uma possível dissolução deste tradicional título e muitos ainda defendiam que caberiam aos descendentes de Muhammad a reconstrução da unidade islâmica.

No entanto, alguns funcionários britânicos, durante e após a guerra, temiam que o Califado pudesse ser usado como ponto de partida para os movimentos anticoloniais, minando o domínio britânico na Índia (que até então englobava os atuais Paquistão e Bangladesh, de maioria muçulmana) e no Egito. Em particular, eles se preocupavam com a perspectiva de uma jihad contra a Grã-Bretanha. Também levavam em consideração que a existência de um mundo árabe unificado na figura do Califa poderia facilmente cair sob domínios que não o inglês. Neste contexto de empoderamento islâmico, Londres passou a olhar com interesse aos movimentos religiosos de dissociação, tais como a Fé Bahaí no Irã, o Movimento Ahmadi na Índia e a Reforma Wahhabita na Península Arábica. Os dois primeiros, se bem sucedidos, tirariam as maiores nações indepdentes da região do domínio islâmico. 

Gertrude Bell e Abdul Aziz Ibn Saud
Após a revolta árabe em 1916, Hussein ibn Ali, se proclamou soberano de todos os países árabes. O governo britânico, contudo, apenas reconheceu o seu controle sobre o Hijaz, região na qual estava Meca e Medina. Londres sabia que o futuro de todo o Oriente Média estava naquele imenso deserto. Inicialmente apoiavam ao Sharif da Cidade Sagrada e aos Ibn Rashids. Estes últimos, entretanto, entraram em decadência, tornando-se numa força inexpressiva. A aliança dos britânicos com os Ibn Sauds já despontava, principalmente pelo interesse no pensamento reformado que estes professavam. Temendo que a ascensão política de Hussein ibn Ali poderia refletir na imensa comunidade islâmica da Índia, os ingleses encontraram em Saud o seu mais adequado aliado, cujas pretensões se limitavam à Arábia.

A Grã-Bretanha já havia fornecido armas e dinheiro a Ibn Saud durante a Primeira Guerra Mundial, assinando um tratado em 1915 e o reconhecendo como o governante da província de Nejd sob proteção britânica. O mais importante agente na construção desta aliança foi a espiã Gertudre Bell. Ela estava profundamente envolvida na política tribal e, em 1914, fez uma perigosa jornada para Hail, uma cidade no norte da Arábia, onde então estava Abdul Aziz ibn Saud. Em 1919, o exército de Ibn Saud marchou em direção ao Reino do Hijaz. Com a anexação de toda a região surge oficilamente o Reino da Arábia Saudita. Ao final, a Inglaterra conseguiu alcançar seu objetivo de um Oriente Médio dividido. Os estados do Golfo, ao redor da Arábia Saudita - Bahrein, Omã, Iêmem, Emirados Árabes, Qatar - eram todos regimes feudais apoiados pela proteção militar britânica. Enquanto isso, Londres continuava a explorar os seus aliados. Faisal, filho de Hussein ibn Ali, que conquistou Damasco em 1918, foi feito rei do Iraque em 1921 e Abdullah, seu irmão, foi coroado Rei da Transjordânia, que se tornou "independente" e sob a proteção britânica em 1923.

Ao final, o imenso Império Otomano, capaz de manter a sua unidade por séculos, foi substituído por débeis nações sem nenhuma representatividade política. O Reino do Iraque logo foi derrubado por um golpe militar, liderado por Abdul Karim Kassem. O Egito se transformou num celeiro de instabilidade pelos choques do recém surgido nacionalismo e pelos confrontos com os movimentos modernistas, que darão forma à Irmandade Muçulmana. A península arábica, que vivia placidamente sob regimes absolutistas tribais, se transformava na importante zona de exploração petróleo, ganhando cada mais relevância internacional. Neste contexto de fragmentação das fronteiras e ascensão das modernas repúblicas, o mundo islâmico-árabe se converteu numa região de conflitos e tensões, consequentemente mais suscetíveis à ingerência internacional. Foi-se o Califado e restaram apenas disformes reflexos das liberais democracias ocidentais. 

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