terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Testamento de Dom Christian de Chergé


Em 27 de março de 1996, cerca de vinte membros do Grupo Islâmico Armado (GIA) chegaram ao mosteiro de Nossa Senhora dos Atlas e seqüestraram a sete monges. Dois outros, o padre Jean-Pierre e o padre Amédée, estavam em salas separadas e escaparam dos seqüestradores. Depois que os sequestradores partiram, os monges restantes tentaram entrar em contato com a polícia, mas descobriram que as linhas telefônicas tinham sido cortadas. Como havia um toque de recolher em vigor, eles tiveram que esperar até a manhã para dirigir até a delegacia de polícia em Médéa.

Em 18 de abril, o comunicado do Grupo Islâmico Armado anunciava que liberariam os monges em troca de Abdelhak Layada, um ex-líder da GIA que havia sido preso três anos antes. Em 30 de abril, uma fita com as vozes dos monges seqüestrados, registrada em 20 de abril, foi entregue à Embaixada da França em Argel. Em 23 de maio, outro comunicado do GIA relatava que executariam os monges no dia 21 de maio. O governo argelino anunciou que suas cabeças foram descobertas em 31 de maio. O paradeiro dos seus corpos ainda é desconhecido. A Missa para os monges foi celebrada na catedral de Notre-Dame d'Afrique, em Argel, construída pelo Cardeal Lavigerie. Os restos foram enterrados no cemitério do mosteiro em Tibhirine dois dias depois.

Alguns consideram a tenacidade dos monges, que escolheram ficar na Argélia apesar do aumentos dos conflitos, como uma ação imprudente. Contudo, os monges trapistas viviam inseridos na realidade comunitária, amavam e viviam do amor daquele povo. Não apenas sentiam essa profunda comunhão com os argelinos, mas estavam em constante diálogo com as mais importantes lideranças islâmicas da região. O Islamismo do Norte da África era tradicionalmente místico, marcado pela presença de grandes santos.

Dom Christian de Chergé, o Abade do Mosteiro, sempre incentivou o diálogo islâmico-cristão. Ele tinha um profundo conhecimento e um grande respeito pelo Islamismo e pela cultura árabe e islâmica. De Chérgé teve uma experiência mística, durante o Ramadã, em 21 de setembro de 1975, quando ocorreu na capela do mosteiro uma oração comum entre um cristão e um muçulmano. Ele nunca deixou de se aprofundar nessa fé na unidade das duas religiões. Estudou e meditou as suras do Alcorão sobre "Jesus, filho de Maria", o "povo do Livro" e os cristãos, comparando as palavras e conceitos de ambas as religiões, como "Misericórdia" e "o Misericordioso"

Ele fundou, com Claude Rault, um Padre Branco que se tornou bispo de Laghouat, no saara argelino, o grupo Ribât-al-Salam (O Lugar da Paz), que refletia sobre a tradição e a espiritualidade muçulmanas, na primavera de 1979. Em 1980, o grupo se juntou aos muçulmanos sufis da tariqa Alawya, fundada pelo Sheikh Ahmad al-Alawi. O grupo tinha reuniões regulares no mosteiro, representando um lugar para o diálogo e a oração entre cristãos e muçulmanos, em respeito mútuo.  

***

Quando se tem de enfrentar um A-DEUS... 
                 
Se acontecer um dia - e poderia ser hoje - 
em que eu me torne uma vítima do terrorismo que agora parece pronto a engolir 
todos os estrangeiros que vivem na Argélia, 
gostaria que minha comunidade, minha Igreja e minha família 
se lembrassem que minha vida foi DADA por Deus e a este país. 

Peço-lhes que aceitem que o Único Mestre de toda vida 
não desconheceu esta partida brutal. 
Peço-lhes que rezem por mim: 
pois como poderia ser eu digno de tal oferta? 
Peço-lhes que consigam ligar esta morte às muitas outras mortes 
que são da mesma forma violentas, mas esquecidas pela indiferença e o anonimato. 
Minha vida não tem mais valor do que qualquer outra. 
Nem também menos valor. 

Em qualquer caso, ela não tem a inocência da infância. 
Vivi o bastante para saber que sou também um cúmplice no Mal 
que parece, infelizmente, prevalecer no mundo, 
mesmo naquele mal que me mataria cegamente. 
Gostaria que, quando vier o tempo, ter o momento de lucidez 
que me permitira pedir o perdão de Deus 
e de todos os seres humanos meus amigos, 
e ao mesmo tempo perdoar com todo meu coração aquele que me matará. 

Não desejo tal morte. 
Parece-me importante declarar isto. 
Não vejo, de fato, como poderia me alegrar 
se este povo que amo for acusado indiscriminadamente de meu assassinato. 
Responsabilizar um argelino, quem quer que seja, 
seria um preço muito alto para pagar
para aquilo que talvez seja chamado "a graça do martírio",
especialmente se ele diz que agiu em fidelidade com o que acredita que seja o Islã. 

Estou consciente da pecha que será jogada a todos os argelinos indiscriminadamente. 
Também tenho consciência da caricatura do Islã que um certo islamismo encoraja. 
É fácil salvar a própria consciência identificando-se nesta via religiosa
com as ideologias fundamentalistas de seus extremistas. 

Para mim, a Argélia e o Islã são algo diferente: são um corpo e uma alma. 
Disse isto bastante freqüentemente, creio eu, 
sabendo que recebi aqui mesmo o verdadeiro caminho do Evangelho, 
aprendido no joelho de minha mãe, minha primeira Igreja de fato, 
na própria Argélia, e já inspirada com respeito por crentes muçulmanos. 

Minha morte, claramente, parecerá justificar 
aqueles que me julgam apressadamente ingênuo ou idealista: 
"Deixe-o dizer-nos agora o que ele pensa sobre isto!" 
Mas estas pessoas precisam compreender
que minha mais ávida curiosidade será então satisfeita.
Pois isto será o que serei capaz de fazer, se Deus assim o quiser - 
imerso meu olhar naquele do Pai, 
contemplarei com ele seus filhos do Islã da mesma forma como ele os vê, 
todos radiantes com a glória do Cristo, 
o fruto de sua Paixão, e cheio com o Dom do Espírito, 
cuja alegria secreta será sempre de estabelecer a comunhão 
e de remodelar a semelhança divina, brincando com nossas diferenças. 

Por esta vida perdida, totalmente minha e totalmente deles, 
agradeço a Deus que parece tê-la desejado inteiramente 
para esta ALEGRIA em tudo e a despeito de tudo. 
Neste AGRADECIMENTO, que resume minha vida inteira a partir de agora, 
certamente incluo vocês, amigos de ontem e de hoje, 
e vocês, meus amigos deste lugar, 
junto com minha mãe e meu pai, minhas irmãs e irmãos e suas famílias -- 
cem vezes me foi dado a mais como prometido! 

E também você, o amigo do meu momento final, 
que não terá consciência do que estiver fazendo. 
Sim, quero AGRADECER a você e este "A-DEUS" é para você 
em quem eu verei a face de Deus. 
E possamos nós dois encontrarmo-nos, os felizes bons ladrões no Paraíso, 
se isto agradar a Deus, o Pai de ambos... Amen! In sha'Allah! 

Algiers, 1 de dezembro de 1993                   Tibhirine, 1 de janeiro de 1994                     
+Christian  

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