quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O Islamismo e os Movimentos Negros nos EUA

Os primeiros convertidos ao Islamismo ahmadyyia nos EUA
A relação do Islamismo com a história dos EUA é muito anterior aos conflitos no Oriente Médio ou à ascensão do terrorismo internacional. O encontro desses dois mundos se inicia a princípios do séc. XX e logo toma proporções inimagináveis. O discurso islâmico foi sendo sistematicamente transformado em instrumento de empoderamento dos negros e em substrato ideológico para os sonhos pan-africanistas nos Estados Unidos. Aquela pequena influência muçulmana, iniciada com missionários ahmadiyyas, se transformou, num rápido espaço de tempo, numa comunidade islâmica bem organizada e com um número crescente de membros.

O primeiro responsável pela associação do Islamismo aos movimentos negros nos EUA foi o pensador Edward Blyden. Nascido nas Ilhas Virgens Americanas, participou ativamente do processo de migração dos ex-escravos para a Libéria, onde faleceu em 1912. Ele pode ser considerado o pai do pan-africanismo nos EUA, sendo também responsável pela construção identitária da noção de raça africana, amplamente utilizada pelos futuros movimentos afro-americanos. Seu pensamento influenciou profundamente aos grandes nomes da luta racial negra nos EUA, como Marcus Garvey, George Padmore e Kwame Nkrumah.

Seu principal trabalho, “Christianity, Islam and the Negro Race” (1887), defendia que o Islamismo tinha um papel singular de unificação do povo africano. Para ele, ademais, o cristianismo era uma imposição colonial europeia que tinha uma um efeito desmoralizante. Na concepção de Blyden, o Islã era autenticamente africano, já que havia chegado às áreas sub-saarianas  pelos homens do norte da África. O Islamismo seria a única religião capaz de salvaguardar as tradições africanas em sua total integridade.

Já no início do séc. XX surge a primeira fundação afro-islâmica dos EUA, a Moorish Science Temple of America.  Criada por Timothy Drew, conhecido como Noble Drew Ali, em 1913, a MSTA era uma mistura de esoterismo com crenças racialistas. Ali acreditava que os afro-americanos eram todos mouros, descendentes dos antigos Moabitas. Ele afirmou que o islamismo e seus ensinamentos eram mais benéficos para a salvação terrena. De acordo com os seus relatos, Drew Ali teria sido reconhecido por um Sumo Sacerdote egipcio como a reencarnação de um avatar profético, sendo introduzido nos mistérios iniciados. A ele foi entregue uma versão oculta do Alcorão, conhecida como “Holy Koran of the Moorish Science Temple of America”, que não passava de uma junção de textos esotéricos, de sabor “aquariano”. Embora a Moorish Science Temple of America não tenha sido exitosa, o legado de Drew Ali é significativo por causa de sua influência na fundação e na ideologia da futura Nação do Islã.

O segundo grande movimento islâmico a despontar nos EUA já não apresentava tantos exotismos doutrinais, apesar de ser considerado uma seita herética. A Comunidade Ahmadi, fundada por Mirza Ghulam Ahmad (1835-1908) na Índia, rompeu com a ortodoxia islâmica. O seu fundador se proclamou como o Mahdi esperado por todos os muçulmanos e povos. Para os seus seguidores, os ensinamentos de Ahmad são a verdadeira fonte de sabedoria capaz de restaurar a justiça e a paz. O Islamismo ahmadiyya aportou nos EUA com o Mufti Muhammad Sadiq, em 1921. A primeira revista islâmica da Améria, a The Muslim Sunrise, foi um grande instrumento de divulgação. Já naquele ano, o esforço  missionário rendeu bons frutos com a adesão de inúmeros ativistas à causa, acreditando que vinculação com o Islã ajudaria na causa do nacionalismo negro e do pan-africanismo. O pensamento de Marcus Garvey estava no seu auge, conhecido por defender o retorno à África e a expulsão das forças imperialistas no continente.

Apesar da linha pacifista da Comunidade Ahmadi, durante o seu crescimento nos EUA fez um uso político da segregação racial como oposição ao Cristianismo. Os ahmaddyias foram adotando um discurso proselitista anti-cristão, principalmente nas regiões periféricas, como no Harlem, em Nova Iorque. A sua revista passou a respaldar o movimento negro e a criticar o racismo das igrejas protestantes por sua política segregacionista. O discurso racista das confissões cristãs fez com que inúmeros intelectuais e artistas afro-americanos buscassem no Islamismo uma resposta religiosa mais adequada à realidade social dos EUA. Aqui se destaca a conversão de inúmeros jazzistas, como Alfonso Nelson Rainey, Bell Evans, Kanny Clark, Art Blakey etc.

Ainda que o Islamismo ahmadyyia não tenha se transformado num fenômeno de massas, foi fundamental para a divulgação da literatura islâmica principalmente para o público afro-americano. Apesar do Islamismo ahmadyyia não ser estritamente ortodoxo, também foi um fator importante, anos depois, para o amadurecimento doutrinal da Nação do Islã. O caráter multiracial da Comunidade Ahmadi dificultou o seu uso ideológico por parte do movimento negro, contudo, o grande número de pregadores garveyistas em suas fileiras ajudou na propagação da leitura corânica pelos bairros e guetos afro-americanos. 

Foi nesse contexto de difusão suburbana do Islamismo que surge a figura de Wallace D. Fard, o fundador do mais importante movimento muçulmano e racial dos EUA: a Nação do Islã. Este ensinava que os negros eram membros da tribo perdida de Shabazz, raptados por traficantes em Meca. O Islã e o árabe eram as bases culturais de todos os afro-americanos. Criticava a Garvey e a Drew Ali, afirmando que ambos foram incapazes de intuir a verdade: todos os brancos eram demônios e deveriam ser combatidos. A supremacia negra era reflexo da sua origem asiática, dizia, enquanto os brancos eram subprodutos de mutações genêticas. O orgulho negro só seria restaurado através da retomada do seu glorioso passado islâmico, unido aos outros povos da Ásia.

Como acontece em quase todos os movimentos heréticos, ao final Fard se auto-divinizou. Essa dinâmica se forteleceu com o seu desaparecimento repentino, deixando a Nação do Islã num profundo processo de fragmentaçaõ e extinção. O carisma de Elijah Muhammad, “Ministro Supremo” nomeado pelo próprio Fard, conseguiu congregar as forças necessárias para o renascimento da seita. Através das suas pregações, a teologia heterodoxa da Nação do Islã foi resgatada: a crença no caráter messiânico-mahdiano de Fard e a fidelidade ao seu messangeiro, Elijah Muhammad.

A Nação do Islã cresceu principalmente pela sua teologia supremacista, atraindo negros descontentes e cansados do atroz regime de segregação. O seu mais importante porta-voz, Malcolm X, foi o grande divulgador das crenças islâmicas nos EUA. Diferentemente dos movimentos negros do sul do país, liderados por Martin Luther King, a Nação do Islã despontava num contexto urbano, onde a discriminação racial vinha atrelada à cultura dos guetos.

O processo de enfraquecimento da Nação do Islã se deu pelos escândalos envolvendo a Elijah Muhammad e pela conversão de muitos dos seus membros, como o próprio Malcolm X, ao Islamismo ortodoxo. O ativista negro se viu confrontado em sua peregrinação à Meca com a diversidade étnica da comunidade islâmica. A partir de então percebeu que a mensagem do Profeta Muhammad não poderia se reduzir a uma defesa racial da fé. Desde o seu distanciamento da Nação da Islã e com a sua consequente conversão, Malcolm X se transformou no maior desafeto da seita, sendo assassinado pelos seus membros em 1965, por considerá-lo um traidor.

O Islamismo, curiosamente, esteve profundamente associado à luta pelos direitos civis nos EUA. O desenvolvimento da comunidade muçulmana no país foi um processo de encontros e desencontros entre uma estranha e exótica religião com um povo sofrido e sistematicamente discrimiando pelo regime estabelecido. Nesse contexto, o Islã despontou como uma cosmovisão profunda e totalizante, capaz de dar sentido histórico e cultural aos negros que por quatrocentros anos foram desprovidos de uma identidade civilizacional.

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