quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Mulheres sem véu, Mulheres nuas


O mundo ocidental moderno, nascido do encontro da liberdade revolucionária com o individualismo protestante, tem como base fundamental a noção da autonomia da consciência individual. A perspectiva medieval da experiência comunitária, na qual a identidade pessoal se aclopava, foi radicalmente combatida. Neste contexto, o Ocidente possibilitou o fortalecimento do relativismo cultural e moral, já que qualquer tentativa de princípios erguidos sobre uma visão ontológica da realidade foi substituída por um arcabouço positivista da moralidade.

Apenas a partir deste contexto podemos entender o que acontece no Irã, com os recentes protestos anti-hijab, e a reação ocidental em defesa destas ações. A tentativa de imposição de um código de vestimenta seria objeto de crítica de todo o ocidental médio. A autonomia individual é categórica e não cabe ao Estado, enquanto representante do sentimento comunitário, o controle sobre a liberdade do indivíduo. Neste cenário, o Ocidente reverencia a organização das mulheres iranianas que se opõem ao uso mandatório do hijab.

Entretanto, é fundamental colocar as ações em seu devido lugar histórico. O Irã não é um país ocidental e sequer entende a noção de liberdade individual. Dentro da perspectiva islâmica, o indivíduo existe enquanto átomo comunitário do corpo universal, algo muito similar à noção da Cristandade medieval. Este pressuposto é básico para compreender a razão pela qual a revolta anti-hijab pode ser vista como perniciosa, já que é uma afronta ao senso moral da experiência tradicional iraniana. Não por menos, um dos maiores catalizadores da revolta popular ao regime monárquico persa foi a sistemática política de ocidentalização forçada. O Xá Reza Pahlevi proibiu o uso do véu e dos turbantes, assim como destruiu seminários e restringiu a ação clerical. Este processo de liberalização da Pérsia incrementou as forças de oposição e levou à Revolução Islâmica.

O incômodo ocidental à obrigatoriedadedo do hijab é válido, porque nasce da nossa experiência individual pautada na soberania da consciência. Contudo, um dos perigos desta radical autonomia é a eterna tentação ao relativismo, já que o valor absoluto dado ao juízo do invidívuo o faz emancipado de qualquer moralidade universal e objetiva. Tudo, portanto, se transforma em puro arranjo convencional. Entretanto, numa sociedade islâmica tradicional, onde a moralidade tem um reconhecimento de realidade ontológica e na qual o indivíduo é parte do grande corpo universal, não existe espaço para independência pessoal.

Aos olhos do Islamismo os cabelos têm um caráter erótico e, portanto, devem ser cobertos. Do mesmo modo, o Ocidente ainda entende o erotismo das partes sexuais e por isso reconhecemos o atentado ao pudor como parte do código penal. Temos um resquício de ação coercitiva do Estado no tocante à moralidade. Aqui cabem duas reflexões. Primeiro, pontuar que não sabemos até quando o mundo ocidental reconhecerá um certo pudor universal, já que a soberania individual também poder se sobrepor à noção de resguardo físico. Em segundo lugar, as sociedades islâmicas tradicionais apenas agem de acordo com a sua própria noção de pudor, a partir da sua experiência de moralidade. Num exemplo grosso modo, uma mulher sem véu em Teerã teria a mesmo gravidade, em seus devidos lugares culturais, que uma senhora seminua numa praça em Paris.

O Ocidente ainda tem um certo resíduo de ação moral. Os nosso códigos penais criminalizam os "atos obscenos" de 3 meses a 1 um ano de prisão, no caso do Brasil, para aqueles que fazem exposição pública dos "órgãos sexuais, dos seios, das nádegas". Se as iranianas podem arrancar os seus hijabs e se a moralidade é puramente convencional, já que a autonomia individual é soberana, o que nos impede de que em nossa banda do mundo a prória criminalização dos atos obscenos seja colocada em discussão? No fundo, o perigo de louvar os protestos no Irã é não entender que a radicalização individualista só possibilitará a total desagregação do ordenamento comunitário, seja do Ocidente cristão ou do Oriente islâmico.

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