sábado, 27 de janeiro de 2018

A República Islâmica de Platão

"Não podemos reformar nosso país a menos que reformemos a nós mesmos"
Ayatollah Khomeini
O que a República de Platão e uma Revolução Islâmica no séc. XX têm em comum? O pensamento do Ayatollah Khomeini. Grande parte da dinâmica revolucionária, como por ele concebida, bebia de duas grandes fontes. Por um lado a filosofia grega em Platão e Plotino e por outro lado a reflexão teológica em Ibn Arabi e Mulla Sadra. A junção desses dois mundos foi a base na qual Khomeini construiu a sua reflexão sobre o líder sábio e virtuoso, capaz de governar a comunidade rumo a uma vida mais próspera.

Se dentro da reflexão platônica o líder perfeito era o Filósofo, para os muçulmanos este era o Profeta Muhammad, o qual deveria ser emulado por todos os crentes. Para os gregos, o Filósofo é limitado apenas pela verdade, enquanto dentro do espectro islâmico este é limitado pela Lei. Contudo, a grande virada feita por Khomeini foi a junção do pensamento de Platão com a noção do homem perfeito em Ibn Arabi. Para este, o homem, ao se livrar do pecado e ao estar imbuído de uma sabedoria divina, se alça ao patamar de Vice-Regente de Deus (khalifa) na terra.

Ibn Arabi, juntamente com al-Farabi, foram duas grandes influências no pensamento de Mulla Sadra, talvez a maior base intelectual de Khomeini. O filósofo iluminacionista, aprofundando na noção do homem perfeito, entendia essa dinâmica através de um uma jornada de quatro estágios em união com Deus. Aqui vale destacar uma interessante similaridade com a mística cristã em São João da Cruz e Santa Teresa d’Ávila. O ponto mais pertinente no pensamento mullasadriano é como se compreende o desfecho dessa divinização do homem. Este, agora embebido da experiência com o divino, retorna ao mundo, à comunidade, com o conhecimento transcendente que o faz capaz de entender a essência das coisas e, consequentemente, com a capacidade de transformar a realidade concreta através de uma ação-ascética.

Este conhecimento (irfan – عرفان) é entendido, portanto como a união individual com Deus sem intermediários e através da supressão das barreiras sensíveis e da alma carnal (nafs) que leva a esse processo de divinização da alma (fana). Após este exercício, se alcança o status de santidade. Entender esta relação do homem com o conhecimento de Deus é fundamental para compreender a forma como Khomeini  entendia a Revolução e o seu papel como líder da comunidade. Não havia uma simples leitura política da ação social, mas sim um claro substrato ontológico que fundamentava o governo do Filósofo-Santo, aquele imerso no ma’rifat, isto é, no conhecimento essencial da realidade das coisas. Por mais excêntrico que pareça, Khomeini acreditava no treinamento místico como o único meio real de transformação comunitária. Num exercício cíclico, o homem parte da realidade para Deus e de Deus para a realidade, se transformando em líder. O homem perfeito é aquele que pode reconhecer as emanações dos nomes divinos em cada manifestação do universo. Para Khomeini, a união do Criador com as criaturas era parte da crença na unidade (tawhid).

Esta noção defendida pelo líder da Revolução Islâmica se assemelha ao pensamento de Ibn Arabi em sua distinção entre al-nubuvwa al-tashri e al-nubuvwa al-amma, ou seja, o profetismo de legislação e o profetismo universal. Enquanto o primeiro era restritio ao Profeta Muhammad, último mensageiro de Deus, o segundo se encarnava na vida de santidade (wilaya). Por isso que os sucessores de Muhammad no governo da comunidade islâmica eram considerados “Khalifat Rasul Allah”, representantes do Mensageiro de Deus, porque simbolizavam a autoridade legislativa que apenas o caráter profético de Maomé englobava. Os santos são “Khalifat”, mas num sentido espiritual, na medida em que recebem uma autoridade divina para compreender as realidades sagradas, ainda que sem um carisma profético no sentido pleno da novidade anunciada. Assim, pois, os santos são os “Khalifat Allah”, os Vice-regentes de Deus e estão acima dos Ulemás já que recebem o conhecimento divino por via direta.

O conceito do homem perfeito, em Khomeini, é apreendido do pensamento de Ibn Arabi, enquanto o panorama de purificação mística, muito similar à noção cristã, é reflexo dos ensinamentos de Mulla Sadra. Neste exercício de elevação espiritual, numa subida ao Monte Carmelo iraniana, parafraseando a maior obra de São João da Cruz, a alma se desvencilha do véu da obscuridade e se une a Deus num processo de anquilação do eu. Nesta etapa, as criaturas já são contempladas na beleza da sua realidade essencial. As jornadas seguem com a interiorização em Deus e com o afloramento da contemplação e transcendência. No último estágio, a alma retorna à vida ativa para transformá-la segundo o conhecimento divino. Assim, portanto, para Khomeini, somente aqueles que passaram pela purgação interior das jornadas da alma são capazes de ser o guia da comunidade para esta mesma experiência. Ou seja, apenas ao Filósofo Santo cabe o protagonismo revolucionário, a liderança, o papel do Imam, justamente por captar a leitura interna e externa da existência.

O paradigma revolucionário querido por Khomeini era uma mistura de mística, filosofia, ascese e movimentos modernistas. Em sua concepção, a República Islâmica deveria ser um governo espiritual, direcionado ao conhecimento de Deus e da luta contra o egóismo (grande jihad). Em certo sentido, ainda que com suas particularidades, Khomeini faz parte de um tendência de reforma do Islamismo, em busca de uma maior espiritualização como resposta ao rápido processo de ocidentalização das sociedades muçulmanas. Allama Mawdudi, no Paquistão, e Sayyid Qutb, no Egito, cada um ao seu modo, também estavam em busca da regeneração do Islã através da ascese e disciplina. Contudo, o pensamento de Khomeini atingiu uma amplitude singular.

O Líder Supremo batizou o governo do Filósofo na República de Platão, o transformando no Santo mediante o conhecimento (irfan) de Deus. Esta apreensão das verdades eternas eleva a este homem ordinário à santidade, fazendo dele o exemplo a ser imitado e o grande referencial de virtude e justiça. Este líder, embebido da autoridade divina, é ainda mais alto do que a lei, já que se transforma no seu melhor leitor. Destarte, é possível entender a razão pela qual o pensamento de Khomeini estava muito distante de um simples pragmatismo político. A sua Revolução, como por ele concebida, não se alinhava a movimentos deológicos, mas nascia da experiência filosófica e mística, a única capaz de transformar a realidade através do conhecimento profundo do homem e das coisas. Surgia, pois, a República Islâmica de Platão.

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