quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Todos contra o Irã ou Como a mass media constrói (falsas) revoluções

Para entender a importância do que acontece no Irã atualmente é fundamental analisar o cenário mais amplo. No Oriente Médio duas grandes forças tradicionalmente se opõem. De um lado a Arábia Saudita, responsável pela difusão e proteção do salafismo mundo a fora. Do outro lado o Irã, celeiro ideológico e espiritual do xiismo mundial. Se a hegemonia do saudismo foi consequência da estratégica aliança costurada com britânicos e americanos, a ascensão iraniana cresceu na mesma proporção em que as populações xiitas marginalizadas se organizaram politicamente em países como Síria, Líbano, Bahrein e Iêmem. O cenário ainda se problematiza com a entrada dos EUA e da Rússia como atores importantes na construção das alianças regionais.

Os protestos no Irã só podem ser entendidos em três etapas:
  • Ressentimento das classes trabalhadoras mais pobres ao governo de Hassan Rohani, que apesar do acordo nuclear não conseguiu reverter a onda de desemprego e os efeitos do embargo internacional. Esses movimentos têm um outro discurso daquele de 2009, que foi encabeçado por uma classe média e por uma elite intelectual alinhada com o progressismo ocidental. É no contexto dessas marchas que deve ser entendida a crítica ao apoio financeiro dado ao Hezbollah e ao regime sírio.
  • Com o incremento do movimento, passam a eclodir protestos violentos, com destruição do patrimônio público e privado, principalmente na capital. Nessa segunda etapa, a marcha, que tinha um pleno caráter econômico, se volta à crítica ao regime. Já existem indícios de que, a partir daqui, agentes externos se envolveram como forma de capitalização da revolta nacional
  • Agora o Irã está na terceira etapa. A população recuperou as marchas e passaram a sair nas ruas em defesa da República e da estabilidade institucional. A bandeira iraniana foi içada e a violência foi combatida. Minorias religiosas, como sunitas e cristãos participaram dessa ação conjunta. Alguns meios de comunicação no Ocidente, incluindo o Brasil, já noticiaram vídeos desse movimento como se fossem protestos contra o "regime dos Ayatollahs", o que não é verdadeiro.

Os protestos estavam centrados nas discusões sobre as falsas promessas, as decisões ruins do governo e a má distribuição de riqueza, somado à crítica aos gastos com os aliados no exterior. Nunca foi uma marcha em defesa da rejeição do governo islâmico e da atual ordem política. No fundo, o Ocidente tem uma profunda dificuldade em entender que protestos podem ser feitos sem que tenham como linha de fundo a defesa dos "valores modernos". Trabalhadores marcham em busca de melhores salários, em crítica às falsas campanhas eleitorais e ao processo de crise econômica. Entretanto, os meios de comunicação imediatamente transformam a mais banal e corriqueira dinâmica republicana num movimento revolucionário em busca do estabelecimento de uma nova ordem.

Lidamos com o preconceito puro e simples, com a arrogância do Ocidente que é incapaz de entender que o Oriente geográfico e espiritual não enxerga a modernidade como um bem a ser alcançado ou sequer almejado. A forma como a mass media politizou os protestos é um sinal dessa presunção moral ocidental, que não entende como iranianos normais podem marchar nas ruas pedindo a redução do preço da gasolina sem criticar a República Islâmica ou sem uma clara articulação em prol da derrocada do Ayatollah Khamenei.

O Ocidente tem uma forte tendência a acreditar em movimentos de protesto por todo o Oriente Médio. Na Síria, ao início dos conflitos com Bashar Al-Assad, os "rebeldes", exaltados na mídia como as grandes vozes de crítica ao regime, foram explicitamente apoiados pelas grandes potências e se transformaram, algum tempo depois, nos promotores do Estado Islâmico no país. A tentativa atual de capitalizar protestos de cidadãos descontentes numa revolução anti-regime é mais um esforço em tirar do jogo internacional a esta força regional desalinhada. Assim foi feito desde o Afeganistão, na luta contra os soviéticos, e o mesno padrão foi repetido na Síria. O Irã, contudo, tem instituições muito mais fortes e uma população menos disposto a trabalhar em prol da “modernidade” ocidental.