terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Seria o fim da monarquia sunita no Bahrein?

O rei do Bahrein e o rei da Arábia Saudita
O Islamismo no Bahrein tem as suas origens marcadas ainda nos tempos do Profeta Muhammad. Al-Ala'a Al-Hadrami foi enviado para a região do Golfo Pérsico para islamizar a região e difundir a nova fé junto aos governantes pagãos. Neste processo, os soberanos do Bahrein se converteram ao Islamismo. Contudo, a região vai ser fortemente infuenciada, pouco tempo depois, pelo Xiismo Ismaelita. A seita dos carmatas, uma das tantas ramificações do ismaelismo, conseguiu fazer da ilha a sua mais importante fortificação. Ali eles mantiveram a Pedra Negra da Caaba por mais de 20 anos, depois que tomaram as cidades sagradas. A  sua hegemonia foi quebrada quando da tomada do Bahrein pelo Califado Abássida.

Ainda que os Abássidas fossem oficialmente sunitas, o xiismo era muito bem favorecido, principalmente pela tradicional relação da dinastia com a família de Muhammad, venerada pelos xiitas. Com a tomada do Bahrein, se possibilitou que o radicalismo dos carmatas fosse sistematicamente substituído pela espiritualidade mística dos xiitas ortodoxos. Deste processo surgirá a Escola do Bahrein, marcada pela forte reflexão filosófica e esotérica, enfatizando o racionalismo. Sheikh Maitham Al Bahran, um dos maiores teólogos xiitas, faz parte desta tradição bahreiniana. 

A hegemonia xiita começará  a ser sobrepujada quando da chegada da família Al-Khalifa à região no séc. XVIII. Oriundos do Nejed, o seu processo expansionista os levou até a costa do Golfo, onde conseguiram impor o controle sobre o Bahrein e o Qatar. Este último conquistou a sua separação durante os conflitos gerados pelo crescimento do sultanado da Casa Saud, através da ação da Casa Thani, que também aderiu ao wahhabismo. 

Apesar do xiismo sempre ser majoritário na região,  ainda hoje englobando a mais de 60-70% da população, a Casa Al Khalifa jamais concedeu espaço político ou representatividade social aos seus seguidores, temendo que uma articulação xiita poderia gerar o seu destronamento.  Ainda que a perseguição não tenha sido tão destrutiva como na Arábia Saudita,  o Bahrein impôs uma forte política de controle social. Por mais que a Casa Al Khalifa não seja oficialmente wahabita, a força política sunita do país ou abraça o salafismo ou constrói alianças estratégicas com o radicalismo sunita. Um dos maiores partidos do país, o Al Asalah, é salafista, enquanto a segunda maior força, o Al Menbar Sociedade Islâmica, apesar do seu discurso moderado, tem relações com a Irmandade Muçulmana e constrói coligações com o salafismo.

Ainda que o partido com maior número de cadeiras - em tese - no parlamento seja xiita, o Al Wefaq, este é alvo constante de perseguição, diretamente, por ação da Majlis al-shura, a Câmera Alta, com membros indicados pelo Rei, ou indiretamente, por ação da aliança sunita apoiada pela estrutura de poder mantida pela Casa Al Khalifa. Em 2016 o Al Wefaq foi dissolvido pelo governo do Bahrein e os seus fundos confiscados pelo Estado. A Monarquia sunita temia que o crescimento dos movimentos de libertação xiitas, que despontavam no Iêmen, no Iraque e na própria Arábia Saudita, fossem o estopim para uma revolução no país encabeçada pela esmagadora maioria da população. Como parte desse processo, o Ayatollah Isa Qassim teve a sua nacionalidade bahreiniana anulada pelo governo.

A perseguição no Bahrein nunca atingiu níveis explícitos de violência como na Arábia Saudita, onde mesquitas e centros eram destruídos. Não que houvesse algum respeito à liberdade religiosa, mas temia-se que ações mais contundentes levassem ao levantamento público. A política da monaquia sempre se centrou na criação de entraves para o exercício da cidadania, como na diminuição dos direitos civis, na proibição de articulação partidária e intelectual, na limitação dos clérigos etc.

O Bahrein já havia iniciado uma espiral de maior tolerância política em 2002, quando as primeiras eleições diretas ao parlamento foram convocadas. Apesar do boitcote do Al Wefaq, nas eleições seguintes de 2006 e 2010 o partido se tornou majoritário no Congresso. Esta rápida ascensão se incrementou ainda mais com os protestos que se seguiram aos levantes populares com a Primavera Árabe. A reação da Monarquia foi limitar a ação política xiita e retirar os direitos partidários. 

Desde então a justiça do país tem feito uso de acusações genéricas, como suposta ação terrorista, para justificar a prisão de clérigos e civis xiitas. Como parte do processo de limitação dos direitos, o Parlamento do país aprovou uma emenda na qual concedia à Corte Militar o poder de julgar a qualquer civil acusado de ações contra o Estado, que engloba suposto terrorismo. Isto se tornou na consolidação da perseguição, já que se fazia possível submeter a qualquer cidadão a um tipo de julgamento no qual a defesa se torna naturalmente difícil. Ainda nesta semana seis xiitas foram condenados à morte e tiveram as suas cidadanias retiradas em base a este tipo de acusação. Casos como estes se multiplicam na mesma proporção em que, como resultado da política oficial de perseguição, aumenta a ação política e popular.

O futuro do Bahrein é cada vez mais incerto. A pressão internacional em defesa dos Direitos Humanos se intesifica. Ao mesmo tempo, as ações políticas organizadas da comunidade xiita se tornam ainda mais apuradas. A população se movimenta nas ruas e protestos explodem pelo país. Esta dinâmica empurra a Casa Al Khalifa a um radicalismo sunita e a uma aliança estratégica com a Arábia Saudita. O aumento da influência wahhabita, por sua vez, intensifica ainda mais as lutas contrárias à perseguição. A Monarquia sabe que o seu poder está em risco e que uma vitória xiita representaria a instauração da democracia e o fim dramático do tribalismo coroado. 

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