sábado, 23 de dezembro de 2017

Os movimentos babistas e o surgimento da Fé Bahá'í

Siyyid Ali Muhammad Shirazi
Muitos foram os movimentos “babistas” que utilizaram da teologia heterodoxa xiita como fonte de inspiração para a estruturação de novas crenças. O bahaísmo é um deles. No seu lugar  histórico, o Oriente Médio vivia sob a égide do Império Otomano que, mal ou bem, mantinha a unidade política-religiosa da comunidade islâmica. A Pérsia estava sob a Dinastia Qajar, que já entrava num processo de decadência e enfraquecimento da sua força simbólica. É neste cenário que surge a emblemática figura de Ali Muhammad, que se auto-proclamou o Mahdi e o Portão ("Bab").

Primeiramente, é importante entender o contexto espiritual do Xiismo. Esta vertente do Islamismo se diferenciava pela crença na Ahl al-Bayt, isto é, a Casa do Profeta: uma sucessão de doze imames, descendentes diretos do Profeta Muhammad a partir da união do seu primo, Ali, com a sua filha, Fátima. Diferentemente do sunismo, que não tinha uma autoridade espiritual objetiva, esta realidade xiita deu margem a uma riqueza mística singular. Entretanto, ao mesmo tempo, a elevada relevância espiritual dos Imames muitas vezes se degenerou em concepçõe estranhas.

Vale destacar que, dentro do Xiismo, o 12º Imam, o Mahdi, o Esperado, carregava uma função escatológica única. Também é importante frisar que uma parte considerável da mística xiita nasce a partir da própria tradição oral, na qual Muhammad teria dito: "Eu sou a cidade do conhecimento e Ali é o seu portão; então, quem quiser conhecimento, deve entrar através do portão - Ana madinatu’l-ilm wa Ali babuha; Fa-man arada’l-ilm fal-ya til-bab". A partir deste dito se inicia a importância simbólica da idéia de "Bab". Contudo, ao logo do desenvolvimento histórico do Xiismo, muitos foram os luminares que se proclamaram "Portão do Conhecimento". 

Abu l-Khattab foi um deles. Próximo a Ja'far b. Muhammad al-Sadiq, o 6º Imam, ele, após a sua morte, passou a defender algumas novidades doutrinais e teológicas. A sua maior contribuição foi estruturar o processo de divinização do Imam, uma inovação que surtirá efeitos, a partir de então, numa série de desenvolvimentos heréticos xiitas, como o ismaelismo - que passou a considerá-lo "Portão" - e no alauísmo. A dinâmica era simples, com a morte do Imam, alguns dos seus seguidores radicais passavam a defender a sua divinização e um deles se proclamava o "Bab" para este novo status ontológico. Asssim ocorreu com a morte de Hassan al-Askari, o 11º Imam. Ibn Nusayr afirmou ser o seu "bab" e mais tarde seria reconhecido como o fundador do movimento Nusayri, os alauítas.  Acreditavam, através da permissividade doutrinal ismaelita, que o divino se manifestou em numerosas emanações ao longo da história, cada uma como uma espécie de trindade de Maana-Ism-Bab ou Significado-Nome-Portão. O Portão é o nível iniciático, o Nome a manifestação externa e o Significado a manifestação mais interior da divindade. Na era Muhammadiana, como é denominado na literatura alawita, o Portal é Salman al-Farsi, o Nome é Muhammad, que é de fato subordinado ao Significado, que é Ali ibn Abi Talib. Muitos foram os movimentos que direta e indiretamente beberam da mística babista do xiismo heterodoxo, entre eles os Musta'li, os Dawoodi Bohra, os Sulaymani, os Alavi Bohras, os Hebtiahs Bohra, os Atba-i-Malak, os Satpanth, os Drusos e os Ismaelitas Nazaris, que muito se assemelham à Fé Bahaí em sua concepção social.

Ali Muhamad, na Pérsia do séc. XIX, uniu em si duas das crenças mais potencializadas do xiismo herético: o Bab e o Mahdi. Ele se proclamou o Portão, e já entendemos o que significa dentro do desenvolvimento mísitico xiita, e o Mahdi, o Imam esperado, o grande guia espiritual. Os movimentos mahdistas, diferentemente dos movimentos babistas, tinham maior conotação política, já que a figura do 12º Imam trazia consigo a autoridade escatalógica do fim dos tempos. Com a sua morte pelo estado persa, o então "babismo" se transmutou oficialmente em bahaísmo, com o seguimento de Husayn Ali Núri, seguidor de Ali Muhammad que se proclamou Bahá'u'lláh, a grande figura messiânica profetizada por todas as religiões. Ele foi expulso da Pérsia e tampouco foi querido no Império Otomano, onde viveu sob contstante perseguição, aprisionamento e observação por parte das autoridades turcas. Após a sua morte, a comunidade passou a ser liderada por seu filho, Abdu'l-Bahá, que era muito próximo aos ingleses, inclusive transformado em Cavaleiro do Império Britânico. Ele foi o responsável pelo processo de internacionalização do bahaísmo e de abertura às pautas Ilustradas do Ocidente.

Uma série de movimentos inovadores surgiram nesta mesma época. Além da Fé Bahai na Pérsia, os movimentos Ahmadiyya e Deobandi na Índia e o Salafismo no mundo árabe. Os Bahai e os Ahmadiyya defendiam o fim das Guerras Santas, acreditavam na origem divina de todas as religiões e nutriam esta crença no Mahdi como fim e destino de todas as crenças. Ao fim, as duas novas confissões foram perseguidas, em parte porque nutriam uma relação pacífica com os britânicos. Já os Deobandis e os Salafis conseguiram se impor pela sua capacidade de capilarizar o ódio anti-otomano numa doutrina teológica na qual a unidade política da comunidade islâmica era colocada em discussão. Se os movimentos liberais-pacifistas, como o bahaísmo, não conseguiram transformar a mentalidade islâmica, a dissensão seria o discurso mais eloquente e apropriado. Surge, então, a aliança Saud-Wahhab que dará forma ao Emirado/Sultanado do Nejed, que se transformará, depois do fim do Império Otomano e com a anexação do Reino do Hijaz, em Reino da Arábia Saudita. Um processo político que contou com o apoio às vezes ativo e às vezes discreto da Inglaterra.

O cenário do Oriente Médio, assediado pelo imperialismo ocidental e resguarado pela sua unidade religiosa, era naturalmente propício ao surgimento de movimentos queridos pelas nações européias. As tentativas de domínio regional por parte das potências ocidentais, sempre se chocavam com a coesão espiritual dos muçulmanos. Do mesmo modo, a existência de uma perspectiva política fundamentada na Sharia, inibia qualquer possibilidade de estruturação de movimentos liberais. No mundo islâmico sequer existia uma distinção conceitual entre o secular e o profano. Tal estruturação de governo, fazia de qualquer mandato britânico um sacrilégio religioso. O Islamismo era o maior inimigo, já que a sua cosmovisão naturalmente se opunha a uma abertura aos novos valores ocidentais. O processo de aliciamento do mundo islâmico pelas nações imperialistas trará consequências nefastas algumas décadas depois, com o surgimento do nacionalismo e do socialismo árabes. 

O bahaísmo serviu aos interesses imperialistas na medida em que, ao reproduzir axiomas liberais tão caros para a Europa pós-revolucionária, colocava em cheque a estabilidade institucional e religiosa de um Oriente Médio construído sobre a identidade islâmica. Concepções como direito individual, liberdade religiosa, Nova Ordem Mundial etc, sequer eram conceitos imagináveis para o muçulmano do séc. XIX que jamais passou pela Ilustração. O bahaísmo deu um salto epistemológico de dimensões seculares, defendendo um modelo social fiel às mais caras bandeiras ocidentais numa Pérsia ainda teocrática e feudal. Contudo, a sua incapacidade de atingir a consciência das massas foi o sinal de alerta para os britânicos, que perceberam que a mentalidade reformista liberal não teria a mesma capacidade expansionista do reformismo purista do recente movimento wahhabita que crescia na península arábica.

Se Bab e Bahá'u'lláh eram ou não inspirados por Deus e possuidores de uma verdade revelada, não cabe reflexão, já que entra-se no espectro da crença. Contudo, o que foi aqui posto é a contextualição do surgimento do bahaísmo dentro do cenário mais amplo do desenvolvimento das heresias xiitas e como, esta nova crença, respondeu às necessidades estratégicas da Inglaterra imperialista. Apesar disso, a fé tem a capacidade de ressignificar a realidade, dando um valor transcendente a atos ordinários e banais. Assim sendo, nada na história do bahaísmo nascente poderia desabonar a crença do seu fiel quando interpretada como ação providencial de Deus.

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