quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O "coração" em São João da Cruz e na Mística Islâmica

A mística religiosa, apesar de sua “desconexão” com a mundo, é feita através de uma linguagem humana. Neste sentido, todos os místicos das mais variadas tradições utilizaram da realidade dada como meio de entendimento do Sagrado. Assim, o símbolo tem um claro substrato cultural que é ressignificado para dar vazão à experiência de união com o divino. Isto posto, é possível refletir como a mística de São João da Cruz representa um marco epistemológico singular. Ele rompe com a concepção católica clássica da simbologia “cardíaca” e entende o “coração” de um modo curiosamente idêntico ao como entendido pelos mais variados ramos do misticismo islâmico.

Ainda que na experiência monástica cristã oriental, especialmente com os Padres do Deserto, São Gregório Palamas e com o Hesicasmo, o “coração” seja um órgão de percepção mística, no mundo latino o foco foi invertido. O coração não mais era um instrumento de disciplina espiritual, mas sim uma representação do próprio Coração de Cristo. Esta mudança, que foi amplamente difundida por grandes santos, como São Bernardo, Santa Angela e Santa Catarina de Sena, representa uma inversão da dinâmica: não mais a elevação do crente em direção a Deus, mas o próprio Deus que entrega o Seu Coração. Obviamente que não cabe um juízo de valor, já que ambas as espiritualidades são fontes inesgotáveis de santidade.

Contudo, o que se viu em São João da Cruz foi uma novidade sem precedentes dentro dos ensinamentos místicos latinos. O seu coração não é uma expressão “passiva” do coração tradicional, mas um lugar ontológico, um coração metafórico que reflete a imagem dos atributos divinos na alma. Este coração, que não se assemelha ao Sagrado Coração sofredor, está muito mais próxima do órgão da percepção mística, como pensado pelos orientais, e mais precisamente ao “qalb”, coração interior, dos místicos muçulmanos.

O “qalb” e o coração de São João da Cruz são receptáculos de Deus: o coração se torna infinito ao receber os atributos infinitos de Deus. Do mesmo modo, o coração exerce uma função de atração e repulsão que faz parte da dinâmica de reconhecimento da vocação divina do homem em si mesmo e no outro. Este processo, que pode ser encontrado nas inúmeras obras de São João da Cruz, é construído simbolicamente através da imagem do espelho ou do reflexo na água, dois simbolismos recorrentes tanto na mística do Carmelita Descalço como nos escritos de inúmeros místicos muçulmanos, como Ibn Arabi. O movimento, como característica do coração, talvez seja o ponto mais consonante entre ambas as tradições.

Ao mesmo tempo, o coração-qalb é ponto de convergência de Deus com a sua criação. Novamente São João da Cruz e os místicos islâmicos reproduzem a mesma ideia, na qual a comunhão de amor com Deus conduz invevitalmente a uma ressignificação do modo com o qual o homem contempla o criado. É uma jornada do coração (safar al-qalb) para o Coração, do coração do místico para a realidade do Coração. É um movimento, portanto, longe das considerações do "eu", longe do usurpador para o verdadeiro Proprietário, da ignorância ao Conhecimento. Também pode ser descrito como uma jornada na qual o coração se volta para Deus em memória. Qalb é, portanto, o centro de toda a experiência de divinização do homem, ou, como colocado por Ibn Arabi, “quando Deus criou seu corpo, Ele colocou dentro dele uma Ka'ba, que é seu coração.”

Também é importante destacar outro ponto de profunda semelhança. Tanto no pensamento de São João da Cruz e principalmente em Santa Teresa de Jesus, a alma é protegida por fortalezas. No caso da mística espanhola, esses castelos representam o processo de elevação espiritual interior que culmina na união com Deus. Místicos islâmicos, como Al-Hakim al-Tirmidhi, também refletiram de modo absolutamente idêntico, chegando este último a definir em sete a quantidade de “medinas” -  fu'ad (coração interior), damīr (consciência), gilāf (revestimento exterior), qalb (coração interior), shagāf (cobertura interior), habba (parte inferior do coração) e lubāb (quitessencia do coração) - tal como descrito pela reformadora do Carmelo.

Ainda que não exista uma comprovação objetiva da influência da percepção mística islâmica junto aos místicos espanhóis, não seria absurdo pensar que após séculos de domínio político mouro e de imersão espiritual numa cosmovisão muçulmana, depois da Reconquista os cristãos ibéricos continuaram reproduzindo uma perspectiva espiritual de profunda consonância com o Islamismo de outrora.

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