sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

A paz islâmica é xiita?


Seria o Xiismo o grande aliado para o desenvolvimento de uma relação pacífica entre o mundo islâmico e o Ocidente? Ao que tudo indica, sim. O Islamismo Xiita é um aliado histórico dos Cristãos no Oriente Médio. O contexto de opressão e perseguição aproximou ambas as tradições religiosas e fomentou uma relação pacífica entre os respectivos cleros. Inclusive, as semelhanças tradicionais entre o Crisitianismo e o Xiismo foram usadas como acusações de sincrentismo por parte das seitas wahabitas. Também vale destacar que os tradicionais redutos xiitas, como o Irã, o Líbano e o Iraque, sempre foram lugares de liberdade de culto, com representatividade institucional cristã.

Desde o surgimento do wahabismo, no séc. XVIII, o xiismo tem sido alvo sistemático de perseguição. Já em 1802, os exércitos da aliança Saud-Wahhabi, tomaram a cidade de Karbala, sagrada para o xiismo, e destruíram a Mesquita do Imam Hussein. Na Arábia Saudita, a comunidade xiita, que representa 20% da população, foi lançada na ilegalidade, suas mesquitas foram confiscadas e os seus centros destruídos. Em 1988, o principal clérigo do país, Abdul-Aziz ibn Baz, emitiu uma fatwa na qual denunciava os xiitas como apóstatas. Em 1994, Abdul-Rahman al-Jibrin, membro do Conselho Supremo dos Ulemas, sancionou o assassinato dos xiitas. 

De acordo com um relatório de 2009 da Human Rights Watch, os cidadãos xiitas na Arábia Saudita "enfrentam discriminação sistemática na religião, educação, justiça e emprego". Livros oficiais do governo saudita, utilizados em todas as escolas, são hostis ao xiismo, muitas vezes caracterizando a fé como uma forma de heresia pior do que o cristianismo e o judaísmo. Ano passado, o Aytollah Nimr al-Nimr foi executado pelo governo saudita, por fazer uma forte oposição à perseguição perpetrada pelo Estado wahhabita.

No Bahrein, os xiitas, que representam mais de 50% da população, ainda lutam pela total condição de cidadãos, já que têm os seus direitos civis diminuídos por parte da monarquia sunita. No Iêmen, os xiitas, que compõem 40% da população, se opuseram a um governo alinhado com a Arábia Saudita. No Iraque e na Síria, os xiitas foram os primeiros alvos do Estado Islâmico, assim como no Paquistão a forte infuência da seita Deobandi, criada pelos missionários wahhabitas que foram para a região, alimentou o espírito bélico direcionado à comunidade xiita local. Até mesmo na Nigéria, o Movimento Islâmico, criado e liderado pelo Sheikh Ibrahim Zakzaky, que propaga o Xiismo pelo país, tem sido alvo de perseguição.

Já nos países onde o xiismo tem liberdade religiosa, como o Iraque, o Irã, o Líbano e o Azerbaijão, existe uma relação de cordialidade entre as mais variadas denominações religiosas. No Líbano, os xiitas são aliados tradicionais dos cristãos. No Iraque, o Patriarcado Caldeu tem sido uma voz de apoio à estabilidade institucional de maioria xiita. No Irã, as comunidades cristãs e judaicas têm liberdade de culto e presença parlamentar, apesar das particularidades do Estado. Inclusive, vale destacar como a aliança Cristã-xiita foi fundamental na luta contra o avanço do Estado Islâmico. O apoio iraniano às tropas iraquianas e a ajuda libanesa aos sírios foi de vital importância no enfraquecimento do ISIS. Até mesmo as liderenças xiitas no Ocidente, como o Imam Tawhid, na Austrália, e o Islamic Center of America, nos EUA, são duros críticos do terrorismo islâmico e também alvos do fundamentalismo, como na tentativa de ataque em 2011 feita por um radical wahabita, em Michigan.

O que se nota é que o histórico de perseguição passada e presente possibilitou uma abertura estratégica do Xiismo às ações ocidentais na luta contra o fundamentalismo. Xiitas, judeus e cristãos são os alvos preferenciais do terrorismo perpetrado no Oriente Médio e a já tradicional associação do xiismo à apostasia o coloca dentro da concepção wahabita do "assassinato legal". É justamente neste cenário de perseguição ampla e irrestrita no qual se faz atual uma percepção mais concreta por parte do Ocidente. Algumas décadas atrás os EUA apoiaram os movimentos de guerrilha ideologicamente alinhados com o saudismo, como forma de enfraquecer o nacionalismo árabe, dando forma ao terrorismo atual. Entretanto, chegou o momento de construir uma associação mais realista com o desenvolvimento religioso da mentalidade islâmcia, optando por aqueles que, historicamente, sempre se mostraram abertos à tolerância: os xiitas. 


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