quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O atentado em Paris e o sequestro do Islã

O atentado em Paris, com a morte dos cartunistas do Charlie Hebdo, reacendeu a discussão sobre o fundamentalismo no Islã. Ainda sendo notório que grande parte da violência religiosa moderna se origina no discurso radical muçulmano, a realidade é mais complexa do que uma rápida tentativa de simplificação. O islamismo é hoje refém do terrorismo e a relação entre a secularização e o fundamentalismo é proporcional. 

O fanatismo islâmico como hoje é conhecido tem a sua origem no wahhabismo, isto é, a reforma concebida por Abd Al-Wahhab no séc. XVIII e que foi transformada em bandeira política pela família Saud. Com o surgimento da Arábia Saudita, a seita wahhabita inicia a sua expansão missionária em todo o mundo muçulmano e também no Ocidente. Mesquitas e centros islâmicos são construídos com a generosidade dos reis da família Saud e se tornam em faróis do anacronismo. Entretanto, este fundamentalismo reformado, que durante o seu surgimento foi condenado como heresia pelas grandes escolas de jurisprudência sunitas, se tornou na força ideológica dos mais variados movimentos terroristas, da Al-Qaeda ao Estado Islâmico. 

O mundo muçulmano, além disso, também se viu invadido pelo secularismo ocidental. Em países como Turquia, por exemplo, o aumento do pensamento liberal europeu fomentou o fortalecimento do discurso radical. Nesse sentido secularistas e fundamentalistas vivem numa relação de retroalimentação. A forte presença política dos wahhabitas – ou “salafistas”, como preferem ser chamados em referência aos “salafis”, as três primeiras gerações de muçulmanos – incrementa a bandeira liberal. Ademais, o crescente apogeu do liberalismo também revigora a paixão pela pureza religiosa “primitiva”.

Na Europa a comunidade islâmica inglesa e francesa tem uma história já secular. A imigração de muçulmanos para esses países tem o seu início durante a conquista das novas colônias. Paquistaneses na Inglaterra e argelinos na França. Contudo, o aumento de imigrantes nas últimas décadas e a expansão do discurso fundamentalista no Ocidente criou o meio mais eficiente para a radicalização dos muçulmanos europeus. Além disso, a secularização cada vez crescente do islamismo ocidental, um fenômeno vivido pelo cristianismo em décadas passadas, reforça a fanatização da identidade do fiel islâmico.

O atentado de Paris possibilita uma dupla reflexão. Por um lado é necessário reconhecer como o sunismo se tornou em refém do discurso wahhabita. A força retórica do fundamentalismo destruiu de modo avassalador as heranças milenares da Civilização Islâmica. Até mesmo o Islã africano, conhecido pelo seu caráter místico, pela simplicidade e pela tolerância, é hoje um epicentro do fanatismo, seja com o Boko Haram na Nigéria ou com a “circuncisão” feminina na Somália. A escola Maliki de jurisprudência, amplamente estabelecida na África, vem sendo sistematicamente substituída pela cosmovisão “salafista”, abrindo as portas para o terror.

Por outro lado, a relação entre a secularização e o Islã é complexa. Na perspectiva muçulmana não existe uma distinção entre o secular e o profano. Muhammad era o Profeta e o líder político. Os seus sucessores detinham a autoridade militar e religiosa. A tentativa de reproduzir no mundo islâmico o ideário político ocidental possibilita um rompimento radical de mentalidade, o que se torna, por sua vez, em combustível para o fundamentalismo. A secularização forçada da Turquia com Attaturk ou da Pérsia com Pahlevi criou mais ressentimento do que unidade social. Os muçulmanos europeus se tornam em alvos privilegiados da sedução terrorista sempre que se veem expostos à desconstrução identitária.

Uma cortina de fumaça é agora lançada. O Islã se torna em alvo principal de análises de conjuntura, mas os verdadeiros responsáveis pela disseminação ideológica do terror, os sauditas, continuam encarnando o papel de aliados no Oriente Médio. A Arábia Saudita acolheu a Irmandade Muçulmana, ajudou na fundação do Talebã. O Catar, que também é wahhabita, recentemente acenou uma aliança com o Hamas. O Rei Faisal foi o grande missionário, construindo mesquitas e enviando sheikhs wahhabitas para todos os cantos do globo. Contudo, a criatura saiu do controle e a própria Arábia Saudita se viu como alvo da Al-Qaeda e pouco querida pelo Estado Islâmico. O estrago já estava feito. O sunismo foi sequestrado e o Islã tradicional se tornou numa caricatura obscena que não foi feita por Charles Hebdo, mas por Wahhab e por Saud.

8 comentários:

João Emiliano Martins Neto disse...

Ravazzano trazendo esse modelo de cosmovisão islâmica para o Cristianismo você acha que a visão calvinista é a mais parecida com a islâmica por não separar o profano do sagrado, ou seja, o profano e sagrado sendo manifestações da graça sendo o primeiro a graça comum e o segundo a graça especial?

Anônimo disse...

Olá, Pedro. Gostaria de saber o que você pensa a respeito da tese que considera o Islamismo uma religião essencialmente violenta, tendo em vista que sua expansão, nos primeiros séculos, deu-se principalmente pela força, ou seja, pela invasão e conquista por meio de guerras.

Anônimo disse...

Parabéns pelo blog e pela visão lúcida. É sempre bom lembrar que as mesmas potências ocidentais que empreendem a "guerra ao terror", além de serem aliadas dos sauditas, financiaram o Talibã no Afeganistão, os rebeldes salafistas na Líbia e outros grupos radicais na Síria. Falta a compreensão de que o maior aliado do Ocidente no combate contra o radicalismo islâmico é o Islam tradicional, que segue as quatro escolas de jurisprudência e abraça o sufismo. - Ja'far Cipolla.

Ricardo Santos de Carvalho disse...

Saudações, Ravazzano. Um amigo presenteou-me com o Sociologia do Islã, do Enzo Pace. É um autor que tu recomendarias?

Pedro Ravazzano disse...

João Emiliano,

A cosmovisão protestante se assemelha mais à mentalidade sunita, enquanto o xiismo seria o "catolicismo" islâmico, reflexo da sua centralização e da existência de uma estrutura magisterial.

Anônimo,

O expansionismo islâmico não pode ser considerado fundamentalista, ao menos como hoje assim concebemos. Esse tipo comparativo é anacrônico, algo como falar da Inquisição com a mentalidade do séc. XXI. O expansionismo era, em certa medida, bem tolerante. Com exceção da igreja no norte africano, que sucumbiu rapidamente devido às divisões internas, grande parte do império árabe se manteve cristão durante séculos. No Egito foi necessário cem anos para que os coptas deixassem de ser maioria religiosa. Os otomanos, do mesmo modo, aplicaram um sistema descentralizado de administração das comunidades religiosas, dando liberdade e auto-governo para os cristãos. Enfim, o wahhabismo é um movimento "moderno" que nega todo o desenvolvimento teológico e filosófico do Islã. Condenado como heresia, se tornou em bandeira ideológica capaz de congregar as tribos da península ao redor da família Saud. A maior vítima da seita wahhabita é o próprio Islã, que regrediu em séculos desde a ascensão dos "salafistas"

Ricardo,

Enzo Pace não é uma islamólogo, mas um sociólogo das religiões. Eu, particularmente, prefiro autores que tenham um conhecimento mais especializado, já que a abordagem sobre o Islã é sempre muito delicada.

Vanderlei Alves disse...

A perspectiva do autor do texto, parece não levar em consideração o fato de que, se não há separação entre o político e o religioso, qualquer estado nacional no qual o Islamismo tenha maioria política, se torna adverso para aqueles que não professam a mesma ideologia, vide a prova da realidade da experiência de vida dos não muçulmanos nos estados islâmicos. Em contra partida, nos Estados nos quais eles não são maioria, eles se articulam para se transformar em maioria, e implementar sua ideologia. É fogo ou frigideira como alternativa. Ademais, consideremos que todos os islâmicos, absolutamente todos fossem pacifistas, mesmo que assim fosse, eu, como cidadão brasileiro, por mais que o regime não seja lá o melhor possível, não gostaria de viver sob o jugo de uma doutrina religiosa travestida numa plataforma ou doutrina política, a ditar regras que tem como berço uma mundividência que me é totalmente estranha. Muitas questões poderiam ser levantadas, usando como base o texto, no entanto, apenas levantarei mais uma...
Porque há uma tal assimetria no tratamento destas questões religiosas, pois segundo algumas fontes, há muito mais mortes de cristãos no mundo por grupos alheios ao cristianismo, e por motivo religioso, não político, do que qualquer outro grupo específico. Então porque tamanha preocupação e debate em proteger o Islamismo tradicional(sic), quando os pacíficos não fazem de mal, e são os muitos terroristas que devem ser combatidos e/ou mortos?

Ps: O Islamismo é tão refém do terrorismo, quanto a esquerda é refém do marxismo, (que nos) salve (o) melhor juízo ou Juízo.

Anônimo disse...

O sunismo clássico não possui nenhuma relação com a matriz mental protestante. Se fosse possível fazer alguma relação entre cristianismo e Islam, o que eu não acho que seja de fato possível, poderia ser mais ou menos assim: sunismo clássico é o equivalente a igreja ortodoxa, o xiismo ao catolicismo e o salafismo ao protestantismo. O salafismo abandonou a jamaah. Sunismo é Ahul Sunnah WA Jamaah (Povo da Tradição E Comunidade). Jamaah é para os muçulmanos o que a Igreja é para os ortodoxos.

Me parece que você é simpático as heresias xiitas. Poderia, então, fazer uma análise sobre a influência mutazalita na teologia (aqeedah) jafariyyah e como - por isso - em quase todos os tradados de "sábios" xiitas contemporâneos, encontramos todas as
superstições modernas possíveis: desde o Wilayat al Faqih com a incorporação da ideia moderna de Estado - em detrimento do federalismo dos emirados e sultanatos - até a redução do intelecto ('aql) à razão, entre outros.

Faça um favor a si mesmo: Pare de tentar falar sobre o Islam! Use esse tempo para rezar seu terço: pode ter certeza que será mais proveitoso para você.

Lucas Félix disse...

Sr. Ravazzano,

Parabenizo-lhe pela qualidade de suas publicações. O barbarismo é mais violento que o bom comportamento e por isso atrai mais atenção; no caso do Islam, é raro encontrar autores que não representem um extremo, seja o de achar que todo muçulmano é um terrorista (ao menos em potencial), seja o de pretender que notícias como a que deu ensejo a esta publicação são fruto de desinformação, e que tudo vai bem no mundo islâmico; seu texto furta-se a esses erros.

Tenho traduzido para o inglês de publicado em meu blog algumas produções brasileiras que são notáveis, e que por isso considero uma pena que se restrinjam ao nosso país em função da limitação idiomática. O senhor se importaria se eu traduzisse e reproduzisse este texto e os outros publicados aqui? Garanto-lhe que farei o máximo para manter-me fiel ao original; naturalmente, o autor e este blog receberão as devidas referências. Caso o senhor encontre algum problem num dos textos, basta informar-me e o removerei. Como o senhor se pronuncia?

No mais, que Deus o guie e abençoe.

Postar um comentário