terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O que esperar do novo Rei da Arábia Saudita?

O Rei está morto! Vida longa ao Rei! A Arábia Saudita vive a sua continuidade monárquica com a ascensão do Rei Salman ao trono depois da morte do seu irmão. Ryad tem uma importância geopolítica privilegiada, seja pela liderança ideológica que extrapola os limites do Oriente Médio, como pela sua aliança com os EUA. O falecido rei Abdullah foi incensado pela comunidade internacional. Obama destacou a “genuína e calorosa amizade” que nutria com o monarca saudita e ainda pontuou que “valorizava a [sua] perspectiva”. Dentro das contradições do saudismo, numa mescla de anacronismo religioso com progressismo material, a parceria com Washington desponta como a sua pedra fundamental. O Rei Salman já aparece como um renovador da ortodoxia moral e doutrinal do país e novo articulador político, a exemplo do seu irmão Rei Faisal, que reinou entre 1964 – 1975.

As primeiras decisões do Rei Salman foram voltadas para a renovação da elite política e administrativa da Arábia Saudita. Os dois filhos do Rei Abdullah, Príncipe Mishaal e Príncipe Turki, respectivamente governador de Meca e de Ryad, foram retirados de suas funções. Salman ainda escolheu como o seu conselheiro privado o clérigo conservador Sheikh Saad al-Shethri, conhecido pelas suas críticas a qualquer movimento reformista no país. Como já é usual, diversas outras posições foram ocupadas pelos filhos do monarca. 

Ainda sendo menos dogmático que o Rei Abdullah, Salman parece despontar como um grande articulador político. A sua amizade com o Emir do Qatar, Sheikh Tamin bin Hamad, já está influenciando na reaproximação da Arábia Saudita com o seu vizinho. Ambos os países têm o wahhabismo como seita oficial e a própria história do Qatar moderno se confunde com a expansão wahhabita na região. Outra estratégia geopolítica parece ser a reconstrução das relações com a Turquia, numa tentativa de minar a crescente influência do Irã no Oriente Médio. Os sauditas temem que a ascensão do xiismo no Bahrein e no Iêmen estimule a revolta da comunidade xiita no reino, historicamente oprimida e perseguida. 

Com o Rei Salman a Arábia Saudita buscará retomar a sua liderança ideológica na região. O seu papel mediador entre o Fatah e o Hamas, que décadas passadas foi de crucial importância, já está sendo retomado. Contudo, é com a Irmandade Muçulmana, no Egito, que a situação é mais complexa. Nas décadas de 50-60, com a perseguição promovida por Gamal Abdel Nasser, milhares de militantes da Irmandade buscaram proteção na Arábia Saudita, sendo bem recebidos pela família real. Todos tinham como ponto de convergência a cosmovisão wahhabita, ainda que a Irmandade Muçulmana adotasse uma perspectiva mais politizada do discurso religioso. No reino, os “Irmãos” se tornaram numa grande força ideológica. Fundaram em 1972 a Assembleia Mundial da Juventude Islâmica e tomaram diversos espaços ocupados pelo discurso wahhabita tradicional. Outros atritos levaram à sua expulsão da Arábia Saudita e após o apoio saudita à deposição de Morsi a Irmandade Muçulmana foi classificada como terrorista por Ryad. 

Contudo, o Rei Salman parece um crítico dessa posição tomada pelo seu antecessor. A demissão de um dos maiores críticos da Irmandade Muçulmana no governo saudita, Suleiman Ab Al-Khail, Ministro dos Assuntos Islâmicos, é um sinal de mudança. Ademais, a ausência do Presidente do Egito no funeral do Rei Abdullah, justamente quando Cairo mais necessita do apoio financeiro de Ryad, já aponta uma mudança no nível das relações. Salman ainda recebeu a visita do Sheikh Rached Ghannouch, o líder do Ennahda, o braço da Irmandade Muçulmana na Tunísia.

A Arábia Saudita do Rei Salman tentará reconstruir os dois radicais paradoxos do wahhabismo: liderança ideológica e progressismo material. Manter boas relações com o ocidente é vital para a conservação de uma economia aquecida. Ao mesmo tempo, reconstruir a sua hegemonia religiosa é resgatar a importância de Ryad como farol do wahhabismo. A aproximação com a Turquia, Qatar e Irmandade Muçulmana, assim como o afastamento dos Emirados Árabes, são sinais de que o novo monarca saudita não pretende ser uma figura secundária no jogo geopolítico e religioso do Oriente Médio e de todo o mundo. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O atentado em Paris e o sequestro do Islã

O atentado em Paris, com a morte dos cartunistas do Charlie Hebdo, reacendeu a discussão sobre o fundamentalismo no Islã. Ainda sendo notório que grande parte da violência religiosa moderna se origina no discurso radical muçulmano, a realidade é mais complexa do que uma rápida tentativa de simplificação. O islamismo é hoje refém do terrorismo e a relação entre a secularização e o fundamentalismo é proporcional. 

O fanatismo islâmico como hoje é conhecido tem a sua origem no wahhabismo, isto é, a reforma concebida por Abd Al-Wahhab no séc. XVIII e que foi transformada em bandeira política pela família Saud. Com o surgimento da Arábia Saudita, a seita wahhabita inicia a sua expansão missionária em todo o mundo muçulmano e também no Ocidente. Mesquitas e centros islâmicos são construídos com a generosidade dos reis da família Saud e se tornam em faróis do anacronismo. Entretanto, este fundamentalismo reformado, que durante o seu surgimento foi condenado como heresia pelas grandes escolas de jurisprudência sunitas, se tornou na força ideológica dos mais variados movimentos terroristas, da Al-Qaeda ao Estado Islâmico. 

O mundo muçulmano, além disso, também se viu invadido pelo secularismo ocidental. Em países como Turquia, por exemplo, o aumento do pensamento liberal europeu fomentou o fortalecimento do discurso radical. Nesse sentido secularistas e fundamentalistas vivem numa relação de retroalimentação. A forte presença política dos wahhabitas – ou “salafistas”, como preferem ser chamados em referência aos “salafis”, as três primeiras gerações de muçulmanos – incrementa a bandeira liberal. Ademais, o crescente apogeu do liberalismo também revigora a paixão pela pureza religiosa “primitiva”.

Na Europa a comunidade islâmica inglesa e francesa tem uma história já secular. A imigração de muçulmanos para esses países tem o seu início durante a conquista das novas colônias. Paquistaneses na Inglaterra e argelinos na França. Contudo, o aumento de imigrantes nas últimas décadas e a expansão do discurso fundamentalista no Ocidente criou o meio mais eficiente para a radicalização dos muçulmanos europeus. Além disso, a secularização cada vez crescente do islamismo ocidental, um fenômeno vivido pelo cristianismo em décadas passadas, reforça a fanatização da identidade do fiel islâmico.

O atentado de Paris possibilita uma dupla reflexão. Por um lado é necessário reconhecer como o sunismo se tornou em refém do discurso wahhabita. A força retórica do fundamentalismo destruiu de modo avassalador as heranças milenares da Civilização Islâmica. Até mesmo o Islã africano, conhecido pelo seu caráter místico, pela simplicidade e pela tolerância, é hoje um epicentro do fanatismo, seja com o Boko Haram na Nigéria ou com a “circuncisão” feminina na Somália. A escola Maliki de jurisprudência, amplamente estabelecida na África, vem sendo sistematicamente substituída pela cosmovisão “salafista”, abrindo as portas para o terror.

Por outro lado, a relação entre a secularização e o Islã é complexa. Na perspectiva muçulmana não existe uma distinção entre o secular e o profano. Muhammad era o Profeta e o líder político. Os seus sucessores detinham a autoridade militar e religiosa. A tentativa de reproduzir no mundo islâmico o ideário político ocidental possibilita um rompimento radical de mentalidade, o que se torna, por sua vez, em combustível para o fundamentalismo. A secularização forçada da Turquia com Attaturk ou da Pérsia com Pahlevi criou mais ressentimento do que unidade social. Os muçulmanos europeus se tornam em alvos privilegiados da sedução terrorista sempre que se veem expostos à desconstrução identitária.

Uma cortina de fumaça é agora lançada. O Islã se torna em alvo principal de análises de conjuntura, mas os verdadeiros responsáveis pela disseminação ideológica do terror, os sauditas, continuam encarnando o papel de aliados no Oriente Médio. A Arábia Saudita acolheu a Irmandade Muçulmana, ajudou na fundação do Talebã. O Catar, que também é wahhabita, recentemente acenou uma aliança com o Hamas. O Rei Faisal foi o grande missionário, construindo mesquitas e enviando sheikhs wahhabitas para todos os cantos do globo. Contudo, a criatura saiu do controle e a própria Arábia Saudita se viu como alvo da Al-Qaeda e pouco querida pelo Estado Islâmico. O estrago já estava feito. O sunismo foi sequestrado e o Islã tradicional se tornou numa caricatura obscena que não foi feita por Charles Hebdo, mas por Wahhab e por Saud.