quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Entrevista com Julien Cormier M.Afr.

Pe. Julien Cormier é o Provincial das Amérias da Sociedade dos Missionários da África. Os Padres Brancos, como também são conhecidos, sempre se destacaram pelo diálogo interreligioso. Fundados na Argélia em 1868, desde os seus primórdios foram marcados pelo contato com o mundo islâmico. Pe. Julien Cormier trabalhou em missões no Burundi e no Níger. 

Islamidades: Pe. Julien, o senhor, como Missionário da África, foi enviado para o Níger, país de majoritária presença muçulmana. Como se desenvolveu o seu contato com a população islâmica ? 

Pe. Julien: Estávamos em 1985, há 30 anos, num Níger bem diferente da situação atual, tanto em relação ao clima social como religioso.

Eu tinha acabado de sair do Burundi. Tinha sido expulso. Recebi, como centenas de missionários estrangeiros, párocos, enfermeiros e professores, a "permissão para deixar o Burundi". O Burundi era um país de maioria católica. O Presidente Bagaza era um católico que recebia diante dos fotógrafos oficiais a Madre Teresa de Calcutá. Ela ofereceu-lhe um rosário. Contudo, ele impediu os sacerdotes de celebrarem a Missa durante a semana, proibiu que religiosos nascidos no Burundi ensinassem na Universidade Nacional (fundada pelos jesuítas) e, sobretudo, a nós párocos e padres nas paróquias, ele nos proibiu de realizar reuniões com comunidades de base. Assim, em Gatara onde com outros três colegas eu era pároco, numa paróquia com 60.000 católicos, tínhamos uma centena de grupos organizados em comunidades eclesiais de base. Contato imediato com a opinião pública! Perigo para o regime presidencial que tinha acabado de se reeleger com 97% dos votos nas circunstâncias que imaginamos. Eis o país "cristão".

Três meses depois, em agosto de 1985, chego ao Níger, um país que pode ser chamado de "muçulmano" (90% da população é islâmica). No Níger, em 1985, a Igreja Católica era majoritariamente composta por estrangeiros, tanto em sacerdotes missionários, religiosos, leigos, como entre as famílias "fiéis" de países vizinhos, Benin, Burkina Faso, Nigéria, Togo. A senha para atravessar todas as barreiras da alfândega, de imigração, ou na estrada foi valer-se da "Missão Católica". Assim a Igreja é conhecida no Níger e tem uma boa reputação por causa das redes de escolas, clínicas, etc  ajudando às populações. Três dias depois da minha chegada eu já tinha a minha licença de residência e de condução.

Ao nível da população, meus primeiros contatos foram com pessoas da pequena cidade de Dogondoutchi, a missão onde fui enviado com dois colegas espanhóis, um catalão e um basco. Havia cinco freiras, canadenses, nesta missão. Exemplo: o diretor da Escola de Missão para meninas era uma freira, o diretor da para Escola de Missão para meninos era um tuaregue nigeriano  muçulmano e 95% dos alunos eram muçulmanos, 90% dos professores eram muçulmanos.

Através dos nossos antecessores Missionários Redentoristas, uma confiança foi desenvolvida entre muçulmanos e cristãos. Não, não havia catequese na escola primária e não havia nenhum crucifixo acima da lousa, mas em todas estas escolas os pais confiavam na educação dada por aqueles que seguiam o "caminho de Jesus", "Hanyai Yezu", em haúça. Isso significava que o Espírito de Jesus apoiava os professores e os alunos dessas escolas, que o testemunho do Evangelho foi vivida pelos missionários e recebido pelos muçulmanos que permaneceram fiéis à sua religião. Nos Evangelhos, não é muitas vezes que Jesus celebrou a Santa Missa como a conhecemos hoje. Mas com todos, Jesus sabe louvar a Deus na vida cotidiana. Jesus atende a todos, independentemente do sexo, religião, raça. Ele sempre fala a favor de uma vida em abundância, a favor de uma vida de qualidade, dum futuro onde todos crescem de acordo com o plano de Deus: "Eu vim para que tenham vida e vida em abundância" João 10:10

Em outras áreas, o encontro ocorreu com os refugiados da fome que se seguiu a seca de 1984. Havia em torno da missão centenas de tendas (famílias) de tuaregues que perderam seus rebanhos, o seu único meio de subsistência. Eles vieram em busca de água na missão católica. Às vezes milheto (o cereal de base). Estes serviços de emergência estavam a eles disponíveis através de doações da Secours Catholique, Caritas Internationalis, Catholic Relief Service. No local nós éramos intermediários. Visando esse trabalho, no mesmo sentido, fomos, por muitos anos, aqueles que ajudavam os moradores a cavar poços para encontrar água para a vida de homens, animais, colheitas. Esses aldeões muçulmanos, como os professores de nossas escolas, são grandes crentes. Deus é evidente para eles. Eles vivem na fé e na "religião" como um peixe vive na água. Deus ("Allah") está presente em cada momento da conversa. E estes são os muçulmanos, as pessoas "comuns" que falam sobre religião aos missionários do Evangelho de Jesus. O “Injila”, o Evangelho, assim como o "profeta" Isa (Jesus), são conhecidos pelos haúças, uma vez que é conteúdo do Alcorão.

Islamidades: O islamismo da África Ocidental é marcadamente influenciado pelo caráter místico, tolerante e em alguns aspectos até mesmo sincrético. No Níger, o islã também carrega essas notas de abertura? 

Pe. Julien: Esta questão já dá um juízo sobre o Islã na África Ocidental. Não cabe a nós, os estrangeiros e os cristãos, avaliar publicamente a religião das pessoas a quem somos enviados. Primeiro, vamos ao encontro dessas pessoas, dessas culturas impregnadas com sua religião, sabendo que, como diz o Papa Francisco, o "Espírito de Deus" precede os missionários. Extremistas muçulmanos (grupos terroristas fundamentalistas como Al Qaeda ou Boko Haram) fazem uma crítica aberta ao Islã tradicional (de acordo com a "tradição local") na África Ocidental, como, por exemplo, ao culto realizado entorno aos túmulos de seus líderes  ("imãs, marabus") em Timbuktu. Sabemos que esses lugares sagrados, parte do patrimônio da humanidade (UNESCO), foram arrasados por extremistas.

Sim, o Islã que encontrei no Níger, em 1985, era bem tolerante, sem sinais exteriores de extremismo. Era possível ver algumas meninas sem o véu, seja um pequeno lenço. Mais tarde, sob a influência dos wahhabitas, via Nigéria, uma certa radicalização foi se desenvolvendo. Jovens mulheres começaram a usar o lenço e em algumas cidadezinhas mulheres e até mesmo meninas passaram a se cobrir (livremente ou a força?) com grandes vestidos negros [niqab], que só deixava os olhos de fora. Em um país onde muitas vezes a temperatura na sombra é mais de 40C!

Outro exemplo das mudanças na prática da religião tradicional entre os tuaregues é em relação ao trato com a mulher, que sempre foi independente. O casamento é "matrilinear", portanto um homem não pode ser casado com duas mulheres ao mesmo tempo. Mas para alguns tuaregues que vivem fora de seu ambiente, no sul do Níger, em meio aos haúças e djermas, o regime matrimonial se tornou poligâmico. Essas mulheres terão perdido a sua independência, sua liberdade de costume. Uma vez estava conversando com um amigo tuaregue que escolheu tomar duas, três mulheres Ele as manteve trancadas em casa, no chamado harém. Justificou-se tomando como razão teórica a idéia de que o Islã assim ensina. Mil anos depois da sua conversão ao islamismo os tuaregues continuavam monogâmicos, com a "mulher que fala e canta em público, que sai quando quer". O homem tuaregue que se casa vai viver na casa ou na tenda (família) de sua esposa. Quando do divórcio é o homem que vai para "a rua" e a mulher conserva a casa, que no ambiente nômade não é nada mais que uma tenda de peles ou de esteiras.

Islamidades: O diálogo inter-religioso com o mundo islâmico é uma das marcas mais características da sua congregação. Hoje, diante do problema do fundamentalismo, como os católicos envolvidos nesse apostolado podem e devem se portar? 

Pe. Julien: Em nossa “Congregação”, como você diz, a nossa "Sociedade Missionária de Vida Apostólica" como dizemos, a Sociedade dos Missionários da África, Padres Brancos, uma experiência de 150 anos de vida nos leva a distinguir entre "diálogo" e "encontro".

"Diálogo com o mundo muçulmano", dizemos que os termos são demasiado vagos para existir esse diálogo. Há autoridades oficiais da Igreja Católica quem podem entrar em diálogo teológico com certas entidades qualificadas em tal mesquita ou em tal universidade muçulmana. Contudo, "dialogar com o MUNDO muçulmano", não, ele simplesmente não existe. Os muçulmanos não têm autoridade única no mundo. Sua única "autoridade” é o Alcorão e sabemos que várias escolas muçulmanas fazem interpretações distintas. É diferente no mundo cristão? Todo o mundo cristão se refere à Bíblia, mas os católicos fundam a unidade em torno do Papa (Roma), enquanto que os coptas têm unidade em torno do seu Papa (Egito). Alguns ortodoxos em torno do Patriarca de Constantinopla, outros com o Patriarca de Moscou. Entretanto, de fato, ainda hoje existem alguns poucos especialistas, incluindo nos Padres Brancos, que acreditam em "diálogo" com o "mundo muçulmano".

Mas nós, os Padres Brancos, de todo o modo, acreditamos firmemente na possibilidade e interesse no "encontro" com os muçulmanos, as pessoas, o homem (masculino e feminino) muçulmano. Isto é o que nós praticamos há quase 150 anos, começando na Argélia, onde fomos fundados e mesmo nos países da África subsaariana, onde também nos encontramos com os povos islâmicos. Não devemos acreditar que isto já estava claro em nossas mentes desde a nossa fundação, em Argel, em 1868. Temos cometido erros. Após algum constrangimento com o proselitismo, alguns muçulmanos não são se sentiram respeitados em seus valores, com a sua identidade. Mas na maioria dos casos, usando o bom senso, temos nos encontrado com os muçulmanos entre os quais vivemos . Nas sociedades tradicionais, apenas as Irmãs Brancas, nossas irmãs missionárias, poderiam atender às mulheres. Às vezes nas escolas, muitas vezes em torno dos teares, em sua vida diária.

Islamidades: O Níger é um estado secular onde o islamismo não é imposto. A sociedade civil goza de relativa liberdade e ainda com pontuais presenças do wahhabismo pouco se percebe do aumento da influência integrista. Contudo, com o fortalecimento do fundamentalismo na região, o que já é perceptível no Mali, existe um risco iminente de que esse cenário de tranquilidade política e social seja quebrado? 

Pe. Julien: A pergunta acima já não está de acordo com a realidade. Chegando ao Níger, em 1985, a Constituição do país, influenciada pela Constituição da França, afirmava que o Níger era um estado secular. Depois disso, os grandes imãs da nação têm pedido a mudança desse artigo da Constituição de modo a reconhecer a importância do Islã. Foi dito que o Níger é parte da Ummah e que a religião da maioria dos nigerianos é o Islã. Mas também é reconhecido na Constituição que os nigerianos são cristãos, adeptos da religião tradicional africana ou de outras crenças.

E, como eu disse acima, a paisagem social mudou. Milhares de pequenas mesquitas têm surgido desde 1985 e, sob a influência dos wahabitas, as práticas tornaram-se mais radicais. Por quê? Em parte, tal como percebido nos meus encontros com alguns nigerianos, porque o modelo ocidental de desenvolvimento falhou, como em outros países. Um homem ou uma mulher pode, de bom grado, abraçar os valores da "liberdade, fraternidade, igualdade" do Ocidente, e até mesmo os chamados valores cristãos. Mas quando a vida de um graduado, de um intelectual, torna-se num fracasso econômico, este homem, esta mulher, pode desistir e buscar outro modelo. Ataques à Europa. Milhões de migrantes. Outros, como a juventude francesa ou canadense, seguem para o fundamentalismo islâmico e até mesmo para a participação de movimentos terroristas. Do nosso ponto de vista, é um triste revés para o povo do Níger. Do ponto de vista do Boko Haram ou da Al Qaeda, o retorno ao fundamentalismo, seja no Níger como na Nigéria, está longe do suficiente.

Islamidades:  Em muitas regiões da África Ocidental o islamismo não é majoritário, dividindo espaço com as religiões tradicionais. Como é esse intercâmbio cultural entre crenças tão distintas? O sincretismo é uma realidade viva?

Pe. Julien: A proeminente personalidade africana, que agora vive em Roma, o Cardeal Arinze, 82, um igbo da Nigéria, já fez o seguinte gracejo: "Na Nigéria, há 50% de cristãos, 50% muçulmanos e 100% da religião tradicional”. Será que vamos falar então do sincretismo e da discriminação entre as religiões? E o que significa a palavra "sincretismo"? Eu ouvi um brasileiro, sobre o mesmo assunto, falar de “comunhão espiritual profunda" entre o cristianismo e a religião tradicional africana.

Quando o cristianismo se tornou a religião oficial de Roma, no século 4 d.C, os cristãos, influente minoria, praticavam o seu cristianismo incorporando gradualmente muitos costumes romanos e celebrações (pagãs?) como o Natal (festa da luz) e Todos os Santos (festa de todos os deuses honrados no Panteão construído pelo Imperador Adriano). A Missa era celebrada tomando costumes romanos, como fazer uma refeição em memória de uma pessoa falecida em seu túmulo (a Eucaristia celebrada sobre o túmulo da Basílica de São Pedro), a transformação dos antigos templos do Hermes grego,  ou seu correspondente latino, Mercúrio, em santuários dos Santos Anjos, e especialmente São Miguel. como no Mont Saint Michel, na França.  As estátuas de Hermes e Mercúrio como as estátuas dos anjos, portando asas, como aqueles que estão no Arco de Tito (85 d.C).

Assim, pois, sincretismo (uso aprovado) na religião católica de Roma no século 4 d.C? E sincretismo (teoricamente proibido) na religião católica na Nigéria? O que acha? Será que tudo isso vale a pena? São Paulo, em sua carta aos Coríntios, faz uma afirmação bem atual. Mesmo que seja muito grande, devo citá-lo. Inteligente, concreto e prático, Paulo nos desafia na Primeira Carta aos Coríntios 8: 1-13:

“Quanto às carnes oferecidas aos ídolos, somos esclarecidos, possuímos todos a ciência... Porém, a ciência incha, a caridade constrói. Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não conhece nada como convém conhecer. Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele. Assim, pois, quanto ao comer das carnes imoladas aos ídolos, sabemos que não existem realmente ídolos no mundo e que não há outro Deus, senão um só. Pretende-se, é verdade, que existam outros deuses, quer no céu quer na terra (e há um bom número desses deuses e senhores). Mas, para nós, há um só Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas e para o qual existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também. Todavia, nem todos têm esse conhecimento. Alguns, habituados ao modo antigo de considerar o ídolo, comem a carne como sacrificada ao ídolo; e sua consciência, por ser débil, se mancha. Não é, entretanto, a comida que nos torna agradáveis a Deus: comendo, não ganhamos nada; e não comendo, nada perdemos. Atenção, porém: que essa vossa liberdade não venha a ser ocasião de queda aos fracos. Se alguém te vir, a ti que és instruído, sentado à mesa no templo dos ídolos, não se sentirá, por fraqueza de consciência, também autorizado a comer do sacrifício aos ídolos? E assim por tua ciência vai se perder quem é fraco, um irmão, pelo qual Cristo morreu! Assim, pecando vós contra os irmãos e ferindo sua débil consciência, pecais contra Cristo. Pelo que, se a comida serve de ocasião de queda a meu irmão, jamais comerei carne, a fim de que eu não me torne ocasião de queda para o meu irmão.”

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