quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Al-Quds X Yerushaláyim: a identidade religiosa de Jerusalém

Um conflito de dimensões desastrosas já se anuncia na Terra Santa. O aumento das tensões entre muçulmanos e judeus em relação ao status da Esplanada das Mesquitas (ou Monte do Templo) tem tornado cada vez mais real a Terceira Intifada. Ainda que o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tenha negado a existência de qualquer projeto buscando mudar a administração do local sagrado, o seu Ministro da Habitação, Uri Ariel, declarou que o governo israelense não pode manter o status intocável de Al-Aqsa simplesmente porque a mesquita “foi construída no lugar mais sagrado para Israel”

Israel é um estado confessional, em sua essência mesma está a identidade judaica, o que faz das minorias religiosas no país verdadeiras anomalias culturais. Ademais, é governado por um partido que tem em sua origem mais primitiva o expansionismo geográfico. Ainda que o sionismo revisionista, criado por Ze'ev Jabotinsky (1880 – 1940), seja tão ateu quanto o sionismo socialista, tem como bandeira basilar o incremento da identidade judaica e o reavivamento da glória da antiga Israel. Contudo, até recentemente as pretensões de Israel pelo controle da Esplanada das Mesquitas estiveram controladas. 

Em 1967 com a Guerra dos Seis Dias e a tomada da Cidade Antiga de Jerusalém pelo exército israelense, a Esplanada das Mesquitas, pela primeira vez desde os períodos das Cruzadas, caia em mãos de um regime não muçulmano. Não obstante um período de crescente tensão, no mesmo ano o seu controle foi repassado para um conselho islâmico encabeçado pelo Grão-Mufti de Jerusalém: o seu status de inviolabilidade foi mantido e ratificado pelo estado de Israel. 

A Esplanada das Mesquitas tem um valor religioso muito singular para o islamismo. Nela se encontram a Mesquita do Domo da Rocha, local da ascensão de Muhammad aos céus, sendo elevado da mesma pedra que para os judeus era o “Santo dos Santos” do Templo de Jerusalém, e a Mesquita de Al-Aqsa, a segunda mesquita construída por Abraão e a terceira em importância simbólica, depois de Meca e Medina. Ademais, a fé islâmica se reconhece como a verdadeira religião abraâmica. O judaísmo e o cristianismo, como revelações anteriores, apontavam para a plenitude: o último livro, o Corão, e o último profeta, Maomé. Assim, os verdadeiros herdeiros do Deus de Abraão, Isaac e Jacó seriam os próprios muçulmanos.
“E, quando lhes chegou um Livro da parte de Allah, confirmando o que estava com eles - e eles, antes buscavam a vitória sobre os que renegavam a Fé - quando, pois, lhes chegou o que já conheciam, renegaram-no. Então, que a maldição de Allah seja sobre os renegadores da Fé!” (2:89) 
“E Abraão recomendou-a a seus filhos - e, assim também Jacó - dizendo: ‘Ó filhos meus! Por certo, Allah escolheu para vós a religião; então, não morrais senão enquanto muçulmanos’” (2:132) 
“Por certo, Nós te fizemos revelações, Muhammad, como fizemos a Noé e aos profetas depois dele. E fizemos revelações a Abraão e a Ismael, e a Isaac e a Jacó, e às tribos e a Jesus, e a Jó e a Jonas, e a Aarão e a Salomão; e concedemos os Salmos a Davi” (4:163)
A cidade de Jerusalém sempre gozou de um status especial dentro do islamismo. Por mais de treze anos a direção (“qibla”) da oração islâmica apontava para Al-Quds. Com o estabelecimento da comunidade islâmica em Medina, Muhammad teria recebido a revelação para a mudança da posição geográfica - “orienta teu rosto para a Sagrada Mesquita” - quando conduzia a oração no templo que mais tarde se tornaria conhecido como Masjisd al-Qiblatain (Mesquia das duas Qiblas). Contudo, mais do que um rompimento com a tradição abraâmica, a centralidade de Mecca significava o fortalecimento desta identidade. A islamização da tradição pagã da Caaba, que muito antes do advento do islã já era um famoso destino de peregrinação entre os "idólatras", a transformou na “primeira casa de oração”, construída por Abraão e seu filho Ismael:
"E quando Abraão e Ismael levantaram os alicerces da Casa [Caaba], exclamaram: 'Ó Senhor nosso, aceita-a de nós pois Tu és Oniouvinte, Sapientíssimo" (2:127)
O islamismo, portanto, enxergando-se como desenvolvimento e plenitude da revelação monoteísta, entende que os seus direitos pelo controle da Esplanada das Mesquitas vão além dos eventos que envolvem Jerusalém e Muhammad. Abraão, Isaac, Jacó e as Tribos eram muçulmanos, verdadeiros crentes, filhos de Israel que adoravam ao Deus único. Os judeus poderiam contra-argumentar, dizendo que formam o Povo Escolhido. Até mesmo haveria espaço para os cristãos, afirmando que o islamismo não passa de uma heresia e que o judaísmo já foi ab-rogado com o advento de Cristo. Qual autoridade política poderia legislar sobre discussões teológicas?

Em Jerusalém há o encontro de três grandes tradições. Na Cidade Santa estão os mais importantes templos destas crenças. A convivência pacífica, muito além da mais ordinária civilidade, deveria ser entendida como um expressão da própria fé que professam. Além disso, qualquer tentativa de aplicar argumentos religiosos para a resolução de problemas políticos, principalmente na Terra Santa, sempre transformará questões pragmáticas em apaixonados debates ideologizados onde a religião se converte em pretexto para o uso da violência. 

2 comentários:

Anônimo disse...

A importância da cidade de Jerusalém para o islã é extremamente controversa. O estado de abandono da cidade sempre que esteve sob controle de muçulmanos mostra isso. Durante a ocupação muçulmana os árabes preteriram a cidade e fizeram de Ramla a capital da província palestina.

Muqaddasi já informava no século X que cristãos e judeus eram maioria e que a mesquita estava sempre vazia:
https://archive.org/stream/TheBestDivisionsForKnowledgeOfTheRegionsahsanAl-taqasumFiMarifat/TheBestDivisionsForKnowledgeOfTheRegionsahsanAl-taqasumFiMarifatAl-aqalimByAl-muqaddasi#page/n277/mode/2up/search/jews

O mesmo pode ser visto durante as ocupações britânica e jordaniana, quando a cidade esteve completamente abandonada e o Domo da Rocha praticamente destruido.
http://3.bp.blogspot.com/-oONRQte9uiA/UpejDiJ5RbI/AAAAAAAAAE4/-SR_1w1KgKA/s400/Dome_Of_The_Rock-10152.jpg

A importância de Jerusalém para os muçulmanos tem sido diretamente proporcional a presença de cristãos e judeus na cidade. Quando outros grupos religiosos são pouco representativos e quando a cidade está sob controle islâmico, a importância de Jerusalém fica em segundo plano.

Um fato que explica isso pode ser encontrado na própria tradição islâmica.

"A Esplanada das Mesquitas tem um valor religioso muito singular para o islamismo. Nela se encontram a Mesquita do Domo da Rocha, local da ascensão de Muhammad aos céus..."

Essa interpretação da surata al-2isra2 só foi criada no ano de 682, durante o califado omíada, quando Ibn al-Zubair se rebelou contra os governantes omíadas em Damasco e conquistou a cidade de Meca. Por causa disso, o califa, que precisava de um local alternativo para a peregrinação islâmica, resolveu que seus súditos deveriam ir para Jerusalém, que estava sob seu controle. Para justificar esta mudança, a passagem 17:1 do Corão foi reinterpretada para se referir a Jerusalém -- passagem esta que originalmente se referia a uma mesquita na cidade de Medina, na Arábia Saudita. Não há na tradição muçulmana nenhuma fonte anterior a 682 que indique que a cidade dessa surata é Jerusalém. Ou seja: a real importância da cidade (não é mencionada uma única vez no Corão) no islamismo sempre foi política, com apenas um verniz religioso para legitimá-la.
A história que relata a visita do califa 3umar ao local comprova isso.

Anônimo disse...

المشهور أنه ذهب إلى المسجد الأقصى في فلسطين
هل قام الرسول برحلة الإسراء إلى فلسطين أم إلى المدينة المنورة ؟

ال الله تعالى "سبحان الذي أسرى بعبده ليلا من المسجد الحرام إلى المسجد الأقصى الذي باركنا حوله لنريه من آياتنا إنه هو السميع البصير" (الإسراء 1) و النص يخبر أن الله أسرى برسوله من المسجد الحرام إلى المسجد الأقصى ... فهناك مسجدان إذن الأول هو المسجد الحرام , و الثاني هو المسجد الأقصى , و الأقصى صيغة تفضيل بمعنى الأبعد , فالمكان الذي إنتهى إليه الإسراء برسول الله يجب أن يكون مسجدا , و ليس مكانا يتخذ فيما بعد مسجدا , و لا مكانا كان فيما قبل مسجدا , و أن يكون بعيدا جدا عن المسجد الحرام , و لا يلزم أن يكون مبنيا , فقد كان المسجد الحرام - يومئذ - مجرد فضاء حول الكعبة .
و لكن فلسطين لم يكن بها يومئذ مسجد ليكون بالنسبة للمسجد الحرام مسجدا أقصى , فلم يكن فيها يومئذ مؤمنون بمحمد , يجتمعون للصلاة في موضع معين يتخذونه مسجدا , فقد كان أكثر أهلها مسيحيين و كانت بينهم أقلية يهودية , و مع إحترام القرآن لمعابد اليهود و النصارى فإنه لم يطلق على أي منها إسم مسجد , و إنما سماها بيعا و صلوات (الحج 40) و المسجد الموجود اليوم في مدينة القدس و المعروف بإسم المسجد الأقصى , لم يشرع في بنائه إلا سنة 66 بعد هجرة النبي , أي في عصر الدولة الأموية , و ليس في عصر الرسول و لا أحد من خلفائه الراشدين . هذا عن المسجد .

http://www.ahl-alquran.com/arabic/show_article.php?main_id=465

Postar um comentário