terça-feira, 11 de novembro de 2014

Teerã e Washington: o futuro do Oriente Médio

Quando o Estado Islâmico iniciou o seu projeto expansionista no Oriente Médio o “Islamidades” anunciou: a aliança dos EUA com o Irã se tornaria fundamental. Meses se passaram e o que parecia um delírio vem se tornando em realidade. A “profecia” não era desprovida de sentido racional. O Irã é um dos mais ricos países da região, com uma sociedade materialmente moderna. Ademais, a sua importância geopolítica ultrapassava os seus limites geográficos. Como a maior nação xiita do mundo islâmico, o Irã desponta como referência para todas as lutas travadas pelo xiismo no mundo árabe: Líbano, Bahrein, Iêmen, Arábia Saudita, Iraque. 

O xiismo é o grande propulsor da força política iraniana, ainda que não seja a única. Em diversos países árabes a comunidade xiita sofre com processos sistemáticos de discriminação, reflexo da difusão do fundamentalismo wahhabita que tem em sua origem um forte espírito anti-shia.  No Líbano a situação é um tanto mais pacífica, graças aos fortes vínculos entre o xiismo e as comunidades cristãs, ajudando na manutenção de uma política estatal não discriminatória. No Iraque, os xiitas sempre foram alvos tradicionais de violência, desde o governo de Saddam Hussein. Com a queda do ditador e representando mais da metade da população, os fiéis shias foram capazes ascender politicamente. 

Em ambos os casos a ingerência iraniana era indireta. No Líbano o apoio de Teerã se concretizava via Hezbollah, o partido xiita libanês. No Iraque a influência do Irã era mais espiritual que política. Sem se interessar em anexar territórios iraquianos, temendo o caos consequente da entrada de milhões de árabes na nação persa, o “país dos Ayatollahs” se restringiu a manter uma relação cordial com os seus vizinhos. Em outros contextos, como no Iêmen, no Bahrein e na Arábia Saudita as comunidades xiitas são alvos de dura opressão. 

No Bahrein, onde 70% da população é xiita, o governo é encabeçado por uma monarquia sunita. Até recentemente os cidadãos shias não tinham plenos direitos. Com a “Primavera Árabe” um levante popular contrário à família Al-Khalifa foi organizado, mas poucas mudanças concretas foram alcançadas. O Bahrein tem uma importância estratégica por ser a sede da quinta frota da marinha dos EUA. Já no Iêmen, país onde 50% da população é adepta do xiismo, os Estados Unidos curiosamente ajudaram no fortalecimento do grupo insurgente xiita “Houthis”. Com o assassinato do líder da Al-Qaeda no país pela inteligência americana, a facção shia se fortaleceu principalmente no controle da capital iememita. 

Na Arábia Saudita, onde o xiismo é ilegal, a situação tende a se complicar com o incremento das lutas de libertação. A comunidade xiita está concentrada na Província Oriental, que é também a grande responsável pela produção de petróleo no país. Isso faz do problema shia um ponto fundamental para a manutenção da indústria petrolífera. A ingerência iraniana em todos esses casos é discreta, não necessariamente feita de modo militarizado, mas através da liderança espiritual.  O Irã é o coração do islamismo xiita e a cidade de Qom, juntamente com Najaf, no Iraque, é o grande centro de formação do clero shia em todo o mundo. 

A recente carta enviada por Obama ao Ayatollah Khamenei, Líder Supremo do Irã, revela uma mudança de postura. A aliança com a nação iraniana é mais eficiente tanto pela extensão da influência de Teerã, como através da sua força retórica. A Arábia Saudita, criadora e exportadora do wahhabismo, tem poucos motivos para combater os efeitos colaterais do fundamentalismo que se desenvolveu graças ao suporte da família Saud. Já o xiismo, alvo constante do radicalismo sunita, é capaz de responder com eloquência às atrocidades perpetradas pelo Estado Islâmico.  

O fortalecimento do papel do Irã vai refletir no crescimento das lutas xiitas no mundo árabe. A emancipação dos shias no Bahrein é inevitável, assim como a ascensão política dos insurgentes no Iêmen. No Iraque os xiitas já despontam como as vozes mais equilibradas na manutenção da ordem institucional. E na Arábia Saudita, caso a comunidade xiita se organize politicamente, um futuro de tensões se torna cada vez real. Uma mudança de parceiros no Oriente Médio iria além do combate ao Estado Islâmico. Já prepararia Washington para uma radical mudança geopolítica em toda a região: Teerã superando Ryad em primazia. 

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