quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O que é a Ashura?

Encenação da Ashura
A comemoração da Ashura - décimo dia do Muharram no calendário muçulmano – será celebrada em 2014 no dia 3 de novembro. É uma dos maiores festejos do islamismo xiita. O xiismo recorda o martírio do Imam Hussein, filho do Imam Ali e neto do Profeta Muhammad, quando foi cruelmente assassinado na Batalha de Karbala, no atual Iraque, pelas mãos de Yazid, filho de Muawiyah I, fundador da dinastia omíada. Ademais, a Ashura, no calendário islâmico, é também o dia da saída de Noé da arca e da fuga dos judeus do Egito.

É um tempo onde os xiitas fazem orações, jejuns e vivem um espírito de luto e pesar. Contudo, a Ashura se tornou conhecida pelas práticas de auto-flagelação, comuns no Iraque e no Paquistão. Contudo, esses rituais não são defendidos pelas maiores autoridades clericais. No Irã o Ayatollah Khomeini proibiu estas práticas e no Iraque, o mais importante Ayatollah do país, Ali al-Sistani, emitiu uma fatwa as desaconselhando duramente:
"O principal objetivo de luto durante Ashura é respeitar e reviver os símbolos da religião e lembrar o sofrimento do Imam Hussain, seus companheiros, e sua revolta em defesa do Islã e para impedir a destruição da religião pela dinastia Omíada. Estes ritos devem ser realizados de tal forma que, além de servirem a esse propósito, chamem a atenção para esses objetivos elevados.Também seu aspecto ritual deve ser preservado. Assim, as ações que não são compreensíveis aos inimigos do Islã e aos muçulmanos não-xiitas [auto-flagelação], sendo causa de mal-entendidos e desprezo pela religião, devem ser evitadas"
A Ashura pode ser entendida como o epicentro da espiritualidade xiita. O seu caráter político e sacrificial marcou todas as lutas do xiismo ao longo da sua história. Imam Hussein, como o Príncipe dos Mártires, encarna as mais elevadas virtudes islâmicas, sendo alvo de reverente veneração. Ademais, esta comemoração tem como carga teológica a crença no sofrimento do Justo, e como através de sua morte a religião encontra a sua plenitude, um conceito estranho ao islamismo sunita. Em geral os sunitas atribuem o sofrimento à providência divina. É inegável o paralelo entre o valor simbólico da morte de Hussein e do calvário de Jesus Cristo. Alguns muçulmanos fundamentalistas acusam o xiismo de sincretismo, ao adotar uma certa noção cristã a respeito do sacrifício. 

A Ashura também foi fator fundamental no incremento cultural dos povos xiitas, como no desenvolvimento da “ta’zieh”, uma encenação do martírio de Hussein, espécie de Via-Crucis, e das “hussainias”, centros de encontro especialmente construídos para as comemorações. Politicamente o seu valor libertador foi usado como força dialética para diversas lutas xiitas ao longo dos séculos. O embate entre Hussein, neto de Muhammad e verdadeiro herdeiro do califado, contra Muawiyah I, o tirano e ímpio usurpador, criou o cenário mais eloquente para as revoltadas de libertação. De modo muito claro encontramos esse caráter dialético nas palavras do Ayatollah Khomeini:
“The month of Muharram is the month of epic action, the month in which blood triumphed over the sword; the month in which the power of Truth forever condemned falsehood and stamped the faces of tyrants and wicked government with the brand of vanity and falsehood; the month that teaches all generations throughout history, the way to victory over bayonet point; the month that registered, the defeat of the arrogant powers vis-à-vis the Word of Truth; the month in which the Imam of the Muslims taught us how to fight history’s tyrants; the month in which the clenched fists of the rightful, the seekers of freedom and independence must overcome the tanks, the machine-guns and the forces of the devil and the Word of Truth expurgate falsehood”.
A Ashura, portanto, é uma comemoração que abarca uma multiplicidade de facetas: teológica, política, cultural. Cristãos em países de maioria xiita, ainda que não participem dos festejos, também se deixam tomar pelos sentimentos de luto. O massacre em Karbala, com o extermínio de mulheres e crianças, criou no imaginário popular uma força de penitência que extrapola os limites do xiismo.

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