quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A libanização (ou balcanização) da Europa

A "libanização" (ou "balcanização") da Europa parece ser uma realidade não muito futura. É inegável que o alto número de imigrantes muçulmanos cria um contexto multicultural, contudo por si só não explica o atual cenário. Os outros dois fatores fundamentais para entender esse processo são a descristianização do Velho Mundo, criando um vácuo espiritual, e a desconstrução das identidades nacionais depois da II Guerra Mundial. A consequência mais imediata é a omissão dos Estados, em nome da “diversidade”, em relação à criação de sistemas paralelos de governo dentro das suas próprias cidades. 

O secularismo europeu transformou o cristianismo numa peça de museu. Em seguida, com a criação da União Europeia as características nacionais foram esvaziadas e transformadas em caricaturas fascistas. O islamismo de imigração ao chegar na Europa encontra um abismo espiritual e cultural e, ao mesmo tempo, não se vê cobrado pela própria realidade social à adaptação. O esvaziamento da religiosidade e o relativismo moral despontam, aos olhos dos muçulmanos, como sintomas da enfermidade e da decadência do Velho Mundo. A integração cultural passa a ser evitada como meio de sobrevivência da espécie.  
“Uma razão pela qual os imigrantes muçulmanos não querem se tornar britânicos é que tornar-se britânico significa perder a sua fé, seu senso de propósito e identidade (...) É possível tornar-se britânico sem abandonar o Islã em suas formas mais conservadoras - em outras palavras, abraçando um Islã diluído que não é mais convincente que o diluído cristianismo da Grã-Bretanha. Talvez seja por isso que muitos imigrantes entendem a assimilação como algo literalmente pior do que a morte” Claire Berlinski em “Menace in Europe: Why the Continent's Crisis Is America's, Too”
Outro fator que se sobressai no isolamento das comunidades islâmicas é o paternalismo do Estado de bem-estar social. Além de toda a estrutura assistencialista, que garante uma renda fixa sem a necessidade de grande esforço, o oferecimento de serviços nas línguas maternas diminui enormemente o interesse na aprendizagem do idioma do país para onde emigraram. Os muçulmanos constituem metade da população desempregada da França e não ocupam nenhuma cadeira da Assembleia Nacional. Na Inglaterra a situação é similar, onde também estão pouco inseridos no corpo de governo e detêm oito cadeiras da Câmara dos Comuns, pela proporção demográfica deveriam estar representados com pelo menos vinte assentos. Para o fortalecimento do isolamento cultural muitos ainda enviam os seus filhos para as suas nações de origem, evitando a educação local, meio mais eficiente para a integração.

O repúdio à assimilação estimula a criação de ilhas de pureza religiosa, incitando a segregação e o preconceito. Na prática, a Sharia já foi parcialmente imposta por fundamentalistas islâmicos nos subúrbios de Londres, Paris e Estocolmo. Nesses “guetos” os não-muçulmanos são alvos de insultos e até mesmo as mulheres que não professam a fé islâmica buscam usar o véu como forma de proteção. Em Bruxelas a população islâmica representa aproximadamente 30% da população, fazendo da cidade belga a capital mais islamizada da Europa. 

Com uma grande massa muçulmana em sua maioria pobre e com pouca escolaridade e residindo em guetos suburbanos com altos índices de violência cria-se um cenário com uma enorme tensão dialética pronta para se converter em conflito. A revolta de jovens dos subúrbios da França em 2005 e os motins na Inglaterra em 2001 são expressões claras do poder de uma parcela significativa da população que vive à margem do sistema legal e que não se reconhece como parte plena da sociedade. Para as novas gerações já nascidas na Europa o islamismo radical surge como único sentido de esperança diante de uma realidade social-econômica com pouca perspectiva de mudança. O terrorismo cresce no Velho Continente juntamente com o espírito de frustração e desencantamento entre os jovens islâmicos.

Ainda que grupos fascistas culpem a imigração pela "degeneração" da Europa, a sua decadência antecede os fluxos migratórios. Exemplos bem sucedidos de adaptação, como dos hindus na Inglaterra ou dos armênios na França, são sinais de que é possível uma assimilação sem perda de identidade. Entretanto, assim como os muçulmanos necessitam encontrar um justo equilíbrio entre o ser fiel islâmico e o ser europeu, a Europa necessita redescobrir as bases da sua própria identidade, hoje tão ofuscada em meio ao relativismo agressivo e à ideologia secularista.

1 comentários:

Anônimo disse...

Maravilhoso artigo. Parabéns

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