segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A influência cristã na península arábica pré-islâmica

Recentes descobertas arqueológicas atestam a presença cristã nos arredores de Mecca
O contato do islamismo nascente com as comunidades cristãs da região arábica é alvo de constantes controvérsias entre os estudiosos. Para alguns a crença islâmica seria nada mais que uma heresia judaico-cristã, tese defendida por São João Damasceno (676 – 749) e mais recentemente por John Wansbrough (1928 – 2002). Para outra leva de pesquisadores, em sua maioria muçulmana, o islamismo não sofreu nenhum tipo de influência do cristianismo ou do judaísmo. Contudo, é inegável a interação entre Muhammad (570 – 632) e os cristãos, inclusive documentada pela mais tradicional biografia do Profeta do Islã, escrita por Ibn Ishaq (704 – 770). 

Em “Sirat Rasul Allah” (A Vida do Profeta de Deus), Ibn Ishaq apresenta alguns encontros de Muhammad, ou da comunidade islâmica nascente, com o mundo cristão. A primeira interação, antes mesmo da vocação profética de Maomé, teria sido o seu contato com o monge Bahira. Acompanhando o seu tio Abu Taleb em direção aos mercados da Síria, Muhammad, numa parada de descanso perto de um mosteiro, foi reconhecido pelo asceta cristão, provavelmente adepto da heresia monofisista, como detentor do “selo da profecia”. O segundo contato com o cristianismo ocorreu através do primo de sua primeira esposa. Waraqa ibn Nawfal é descrito por Ibn Ishaq como um estudioso das Escrituras, conhecedor dos Evangelhos e da Torá. Confuso a respeito das primeiras revelações recebidas, Muhammad foi chamado de “profeta dos árabes” pelo parente de Khadija.

O terceiro contato não envolve o Profeta do Islã, mas um dos primeiros grupos de convertidos. Com a dura perseguição promovida pelos habitantes de Mecca, os muçulmanos fogem para a Abissínia, buscando proteção na corte do Reino de Axum, governado por um soberano cristão monofisista, numa dinastia que de acordo com a tradição teria sido fundada pelo filho do Rei Salomão com a Rainha de Sabá.  Os mequenses enviaram uma delegação pedindo a deportação dos muçulmanos. Entretanto, os fiéis islâmicos interviram na corte e apresentaram a sua crença diante dos nobres e bispos do séquito real. Nesse colóquio, como descrito por Ibn Ishaq, os muçulmanos destacam a unicidade da sua religião e leem trechos do Corão que se assemelhavam às passagens bíblicas, como a Anunciação de São Lucas. Impressionado com a aparente comunhão entre a doutrina cristã e muçulmana o rei reafirma a garantia da proteção aos fiéis islâmicos. Um dos emigrados, Ubayd-Allah ibn Jahsh, que era conhecido por ser um “hanif”, isto é, um crente que professava o monoteísmo abraâmico nos tempos pré-islâmicos, se converteu ao cristianismo. Ibn Ishaq assim relata:
“Ubaydullah went on searching until Islam came; then he migrated with the Muslims to Abyssinia taking with him his wife who was a Muslim, Umm Habiba bint Abu Sufyan. When he arrived there he adopted Christianity, parted from Islam, and died a Christian in Abyssinia. Muhammad bin Jafar al-Zubayr told me that when he had become a Christian 'Ubaydullah as he passed the prophet's companions who were there used to say: 'We see clearly, but your eyes are only half open', i.e. 'We see, but you are only trying to see and cannot see yet.”
O quarto contato com a comunidade cristã se desenvolveu em Yatrhib/Medina, depois do estabelecimento de Muhammad naquela que seria a sua cidade. O Profeta do Islã recebeu uma delegação de cristãos da cidade de Najran, um importante centro do cristianismo monofisista. O grupo era liderado por um Bispo, e buscava realizar algum tipo de pacto com os muçulmanos. Num gesto de proximidade, Maomé permitiu que os cristãos usassem a mesquita para as suas orações. Após uma discussão cristológica, a delegação voltou para casa, recusando-se à conversão ao islamismo. Ibn Ishaq também relata que o Profeta do Islã escreveu diversas cartas para os governantes dos estados vizinhos da Arábia clamando pela conversão. Muhammad inclusive chegou a ter como concubina uma jovem copta chamada Maria.

A influência cristã na Arábia era difusa e pouco organizada. A maioria das comunidades era herética: monofisista e nestoriana, e se encontrava nas regiões limítrofes da península. Politicamente o cristianismo se fazia influente através da tribo dos Banu Ghassan, no noroeste da região, que se converteu e gozou de certo amparo dos bizantinos. Nessa época o avanço das fronteiras do cristianismo estava intimamente associado com o aumento da influência de Constantinopla. Outra tribo que também  abraçou a fé cristã foi a dos Banu Lakhm, no nordeste da península, fazendo da sua capital, Al-Hira, no centro-sul do atual Iraque, um polo do nestorianismo, estendendo sua influência ao longo da costa arábica. Outra zona com certa presença cristã era o sudoeste da Arábia, no moderno Iêmen, que refletia a presença de reinos vassalos ao reino de Axum. 

No centro da península é conhecida a adesão de algumas tribos ao cristianismo, como os Banu Taghlib. Na região do Hijaz, onde se encontrava Mecca, a presença da fé cristã não era autóctone e se fazia através de emigrantes vindos do sudoeste. Contudo, é notório que a doutrina cristã que mais se difundia era de claro conteúdo herético. Monofisistas e nestorianos encontraram proteção em dois grandes reinos que se chocavam com a Arábia: o reino de Axum e o império Sassânida. Em espaços fora da influência de Constantinopla buscavam liberdade para professar as suas crenças. Assim, é possível afirmar com clara segurança que o cristianismo conhecido por Muhammad, seja através de textos ou de contatos pessoais, foi de caráter heterodoxo.  J. Spencer Trimingham (1904 – 1987), em “Christianity Among The Arabs In Pre Islamic Times” desenvolve um rigoroso estudo histórico a respeito dessa presença cristã na península arábica. Ademais, Theodor Nöldeke (1836 – 1930), orientalista alemão e maior estudioso do Corão no Ocidente, em seu livro “The History of the Qu’ran” afirma:
“There can thus be no doubt that Muhammad’s prime source of information was not the Bible but uncanonical liturgical and dogmatic literature. For this reason the Old Testament stories in the Koran are much closer to Haggadic embellishments than their original; the New Testament stories are totally legendary and display some common features with the reports of the apocryphal Gospels”
Recentes descobertas arqueológicas apontam para essa teoria a respeito da presença cristã na região. Em Zafar, cerca de 930 km ao sul de Mecca, o arqueólogo alemão Paul Yule descobriu uma pedra com a imagem de um santo rei copta, o que apontaria para a existência de uma forte área sob o poder cristão que chegava até os limites da Cidade Sagrada. Zafar seria o centro de uma confederação tribal com muita influência. Como um reino vassalo dos soberanos abissínios, o Iêmen se tornou numa potência regional. No ano do nascimento de Muhammad Meca foi atacada pelos exércitos dos cristãos iemenitas que queriam destruir o culto pagão na Caaba. 

Essa descoberta, somada aos estudos de destacados islamólogos e historiadores, abre uma nova etapa na pesquisa a respeito da presença cristã na Arábia islâmica e pré-islâmica. Contudo, desde já é de conhecimento notório que o cristianismo não era um fator coadjuvante no contexto do desenvolvimento da religião muçulmana, por mais que a sua organização institucional fosse precária. Até que ponto a doutrina cristã herética influenciou diretamente a doutrina islâmica apenas os recentes estudos poderão responder.

1 comentários:

Giga disse...

Parabéns pelo seu blog, Pedro. Um verdadeiro serviço para quem procura opiniões mais equilibradas sobre as coisas. Um dos poucos blogs que conheço (e continuo procurando) que é bem escrito, sereno, argumentativo e que oferece luzes menos apaixonadas para a compressão do complexo Islã.

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