segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A conversão dos cristãos durante o expansionismo islâmico

O expansionismo do Império Árabe-Islâmico está intimamente associado com o fim da hegemonia cristã no Oriente Médio e no Norte da África. Contudo, o processo de islamização de populações não-muçulmanas se desenvolveu de modo distinto em diferentes regiões. Dentre os vários fatores está a característica da igreja local: quanto mais autóctone mais complexo foi o seu enfraquecimento. Isso explica a razão pela qual o cristianismo africano rapidamente sucumbiu ao islamismo e o porquê da Igreja ter se mantido durante séculos no Egito e no Levante. Ademais, o modo como os cristãos foram tratados sob a lei islâmica também não foi homogêneo: da coexistência pacífica até à agressiva perseguição.

A “Constituição de Medina” é um documento atribuído ao Profeta do Islã, escrito depois da Hégira. Nessa carta Muhammad (570 – 632) regula os direitos dos pagãos, judeus e cristãos que viviam na cidade. Foi considerado um escrito de grande valor jurídico, principalmente pelo seu tom progressista, garantindo a liberdade e reconhecendo os não-muçulmanos como membros da sociedade política. Contudo, para muitos estudiosos esta liberalidade refletia a esperança nutrida por Maomé no reconhecimento do seu profetismo pelas outras comunidades religiosas. É neste período que as passagens corânicas mais simpáticas aos cristãos são reveladas:
“Constatarás que os piores inimigos dos fiéis, entre os humanos, são os judeus e os idólatras. Constatarás que aqueles que estão mais próximos do afeto dos fiéis são os que dizem: Somos cristãos!, porque possuem sacerdotes e não ensoberbecem de coisa alguma.” (5:82)
Com o rechaço da condição profética de Muhammad por parte dos cristãos, o que já havia passado com a comunidade judaica, é possível falar de uma radical mudança de perspectiva, através da qual os "nazarenos" passam a ser vistos de modo mais antagônico. O Corão reflete as relações entre as comunidades na Arábia e deve ser interpretado tendo em vista o correto contexto histórico. Contudo, é inegável que com a morte de Muhammad e com expansionismo islâmico para fora da península, onde o cristianismo era diminuto, o trato dado aos cristãos durante grande parte do Califado Omíada foi negativo, excluindo qualquer referência às positivas afirmações corânicas:
“Os fiéis, os judeus, os cristãos, e os sabeus, enfim todos os que crêem em Deus, no Dia do Juízo Final, e praticam o bem, receberão a sua recompensa do seu Senhor e não serão presas do temor, nem se atribuirão” (2:62)
No norte da África, analisando de modo concreto o expansionismo islâmico, as conversões começaram relativamente cedo e em poucos séculos já não existia vestígio da presença cristã. Aquela que no passado foi a Igreja de Tertuliano, Cipriano, Agostinho perdeu o seu completo espaço social frente ao islã. Alguns fatores explicam essa rápida islamização. A cultura islâmica da África foi fortemente marca pela escola Malik de jurisprudência, que era a mais tolerante das escolas sunitas e que fundamentava a relação com os cristãos na “Constituição de Medina”. Ademais, quando os árabes chegaram à região encontraram um cristianismo dividido em facções heréticas, sem coesão interna. A Igreja tinha poucas características locais, o que transformava o cristianismo na religião “dos romanos”. Com a invasão de Roma pelos vândalos em 429 todo o sistema imperial entra em colpaso. Consequentemente a Igreja no Norte da África também inicia a sua degeneração. Os muçulmanos, portanto, não encontram um cristianismo vigoroso, mas sim uma crença doutrinalmente destroçada e estruturalmente em declínio.

No Egito, contudo, o processo de conversão foi distinto. Existia, primeiramente, uma forte unidade doutrinal em torno da doutrina monofisista professada pela Igreja Copta. Além disso, o cristianismo era autóctone e substrato da cultura local. O próprio termo “copto” tem em sua raiz a palavra grega “aigýptios” (egípcio). Assim, os conquistadores não encontraram um cristianismo estrangeiro e fragmentado, mas sim uma Igreja organizada e unida. A conquista consolidada em 642 não significou a hegemonia islâmica, que durante um século representou uma minoria religiosa. Apenas cem anos depois, com o uso da pressão econômica, é iniciado o processo de dominação religiosa. O aumento da taxação de impostos sobre os cristãos foi o estopim para revoltas ao longo de todo o Egito. Todas duramente massacradas. Muitos coptas encontraram na conversão ao islamismo uma forma de aliviar o peso da opressão social. No séc. X a maioria da população já era majoritariamente muçulmana, com uma parcela significativa, aproximadamente 30%, continuando fiel ao cristianismo.

O processo de islamização da Grande Síria (região que engloba os territórios da Síria, Líbano, Jordânia e Palestina/Israel) foi ainda mais complexo. A presença cristã era milenar e profundamente enraizada. Os cristãos formavam uma elite política e cultural, inclusive colocados em postos da administração nos primórdios do Califado Omíada. O islamismo, durante séculos, foi uma realidade minoritária, ainda sendo a religião oficial do Império. Em certa medida um dois fatores mais relevantes na manutenção do cristianismo foi a fragmentação política e doutrinal dos muçulmanos. No Líbano e na Síria a presença de um grande número de xiitas se mostrou essencial para a sobrevivência dos maronitas, que foram capazes de criar uma aliança pela proteção das suas respectivas comunidades. Contudo, a fragmentação do cristianismo no Oriente Médio em diversas denominações foi basilar para a expansão islâmica. Para muitas igrejas a solução encontrada foi o isolamento geográfico.

No Iraque e no Irã, onde a Igreja Nestoriana ou Caldeia era mais influente, o processo de conversão foi quase irrisório. Protegidos pelo Império Sassânida, os cristãos foram acolhidos pelos conquistadores árabes, principalmente por ser uma comunidade de pouca expressão. Com a chegada dos mongóis havia a esperança no estabelecimento do cristianismo nestoriano como religião oficial. Alguns dos “Khans” eram próximos ao nestorianismo e muitos membros da corte eram convertidos a esse ramo do cristianismo, como a nora de Gengis Khan (1162 – 1227), mãe de quatro “Grandes Khans”. A presença cristã entre os mongóis foi fundamental para a aliança franco-mongol contra os muçulmanos durante as Cruzadas. Entretanto, a conversão de Mahmud Ghazan (1271 – 1304) ao islamismo consolida o poder muçulmano e gera o medo nas comunidades minoritárias. Amin Maalouf, em “Las Cruzadas vistas por los árabes”, assim descreve a esperança cristã apostada nos mongóis:
“A impressão que prevalece, tanto no Oriente como no Ocidente, é que a campanha mongol é uma espécie de guerra santa contra o Islã do mesmo tipo que as experiências francas. Esta impressão a reforça o fato de que o principal Lugar-tenente de Hulagu [Imperador Mongol] na Síria, o general Kitbuka, é um cristão nestoriano. Com a tomada de Damasco, em 1 de março de 1260, os que entram como vencedores,, com grande escândalo dos árabes, são três príncipes cristãos, Boemundo [Príncipe de Antioquia], Hetum [Rei da Armênia] e Kitbuka”
Na Anatólia a islamização também foi gradual e garantiu que a presença cristã continuasse até o fim da I Guerra Mundial, quando a Grécia e a Turquia realizaram uma transferência populacional. Ainda sendo conhecidos como os conquistadores de Constantinopla em 1453, os turcos desenvolveram uma relação dialética com os bizantinos. O Imperador Manuel I (1118 - 1180) criticou duramente o Patriarca de Constantinopla por conta do procedimento adotado para o batismo de muçulmanos. O religioso defendia que os islâmicos deveriam anatemizar o Deus de Maomé, enquanto o Basileu dizia que essa posição partia da errônea concepção de que o Deus dos muçulmanos e dos cristãos não era o mesmo. O seu posicionamento seguia a tradição do Imperador Leão III (717–741), que em carta ao Califa Omar II (682 – 720) afirmou que cristãos e muçulmanos acreditavam no mesmo Deus. Foi na época deste Basileu que a primeira mesquita de Constantinopla foi construída, séculos antes da sua conquista. As relações foram ainda mais concretas. O Imperador Justiniano II (669 - 711) enviou artistas e materiais para ajudar na decoração da Grande Mesquita de Damasco e da Mesquita do Profeta, em Medina.

Pode-se dizer, portanto, que a islamização dos povos cristãos não transcorreu de modo homogêneo e instantâneo. Ademais, se a pressão social e política foi um fator importante no expansionismo religioso muçulmano, o enfraquecimento e as divisões internas do cristianismo criaram um cenário propício para a consolidação do poder dos conquistadores. As comunidades cristãs que resistem no Egito, no Líbano, na Síria, no Iraque e no Irã são remanescentes de uma rica presença da Igreja no Oriente Médio, mantendo vivas as memórias da história do cristianismo. 

1 comentários:

Anônimo disse...

Conheci este blog a partir de uma entrevista com Olavo de Carvalho e aprecio muito a forma equilibrada com que aborda as instituições islâmicas. O tema deste artigo - a conversão dos cristãos sob domínio islâmico - constitui um dos fatos históricos mais importantes para pesquisa especialmente diante dessa nova expansão islâmica radical. Outro artigo muito bom é sobre wahabismo. Parabéns.

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