segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Salvar o Islã para salvar o Ocidente


Duas recentes notícias parecem endossar aquilo que pode ser visto como o momento da virada islâmica. Na Alemanha duzentas mesquitas se uniram contra o ISIL e na Síria o Conselho Islâmico emitiu uma “fatwa” com a mesma condenação.  As afirmações foram contundentes:  “eles são verdadeiros terroristas e assassinos”, “fontes de sectarismo, morte e destruição”.  Estes não são os primeiros líderes que se pronunciam. Recentemente o Ayatollah Sistani, no Iraque, e o Ayatollah Khamenei, Líder Supremo do Irã, criticaram abertamente o ISIL. Contudo, o que está em risco é a própria consciência dos muçulmanos na Europa e até mesmo a "salvação" do islã. O islamismo de imigração no Ocidente já está em sua terceira geração. O momento atual também é decisivo para a formação de uma identidade islâmica europeia, livre da influência fundamentalista. 

Multiplicam-se nas redes sociais acusações que generalizam o islamismo, tornando a postura do ISIL em paradigma de toda a fé muçulmana. Entretanto, se queremos fazer uma análise honesta é necessário destacar alguns pontos. O “Califado Islâmico”, como filho legítimo do wahhabismo, tem como ideologia e práxis o “takfirismo”, ou seja, a declaração de excomunhão. Esta prática, de complexo fundamento teológico, sempre foi vista com desconfiança dentro do islamismo e esteve restrita aos altos membros do clero. Com a ascensão do wahhabismo no séc XVIII e sua consolidação no séc. XIX e XX, o “takfir” se estruturou como prática banal: qualquer um poderia julgar a credulidade alheia. O rigorismo anacrônico deste discurso simplesmente considerava todos os muçulmanos incrédulos. Até mesmo viajar para nações fora da península era visto como um ato ímpio. Agravando um cenário já doutrinariamente caótico, os clérigos do wahhabismo desenvolveram uma exegese ainda mais radical ao dizer que tais “incrédulos” deveriam ser punidos com a morte.

Por mais que o wahhabismo tenha sido condenado como heresia pelos ulemás da época e definido como neo-kharijismo (primeiro cisma do islamismo), definição retomada pela fatwa do Conselho Islâmico Sírio, a sua aliança com a Casa Saud possibilitou a tomada prática do poder. Com a máquina de takfir ligada e tendo o fundamento de clérigos que endossavam a pena capital para os “incrédulos” o terrorismo galgou o status de teologia. Portanto, o que  é praticado pelo ISIL é o subproduto de uma seita fundamentalista surgida no deserto arábico. 

Entretanto, o que hoje está em risco é a própria identidade islâmica. Durante séculos o islamismo conviveu com a ascensão do wahhabismo, que entrava nos mais variados países muçulmanos para construir mesquitas e centros culturais. Atualmente os grandes templos edificados em diversos países, da Burkina Faso ao Paquistão, da Nigéria até a Indonésia, continuam sendo custeados pela Casa Saud. Alguns filhos legítimos do wahhabismo atingiram fama global, como a Al-Qaeda e o Talibã. Contudo, agora que estes grupos se proliferam de modo mitótico o Oriente Médio e os muçulmanos na Europa se encontram desafiados a tomar uma posição contundente contra o sequestro do islamismo que perdura desde o séc. XIX. Até quando o wahhabismo poderá ser a mais eloquente voz dos muçulmanos? Por quanto tempo mais a “Ummah” vai permitir que os anacronismos dos ulemás wahhabitas ocupem o minbar das mesquitas? 

Os muçulmanos da Alemanha responderam com um contundente rechaço ao ISIL e ao discurso fundamentalista. Outros fiéis islâmicos da Europa também precisam se posicionar, e de modo definitivo, nessa luta contra o horror. Se o terrorismo, para o Ocidente, atinge proporções avassaladoras depois do 11 de Setembro, para os muçulmanos a sua gênese começa com a sistemática destruição do legado cultural e civilizacional perpetrada pelo wahhabismo séculos passados. No atual contexto, ocidentais e islâmicos unem forças para guerrear com palavras e ações contra esse segmento bárbaro que se estabeleceu pela força como discurso dominante.  

Para salvar o Oriente Médio e para consolidar a identidade dos muçulmanos europeus é mais do que necessária uma tomada de consciência. O islamismo foi sequestrado pela retórica wahhabita e hoje as nações muçulmanas choram com a desgraça dos seus filhos. Salvar o islã não é apenas proteger o Ocidente de uma ameaça iminente, mas também reestabelecer uma rica tradição civilizacional que sofre com uma “sífilis” que agora atinge proporções epidêmicas. 

0 comentários:

Postar um comentário