sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O "takfirismo" do Estado Islâmico

Um dos mais graves efeitos colaterais do caráter midiático do "Estado Islâmico" (EI) é o modo como a violência é banalizada nas redes sociais. Publicar vídeos de assassinatos em massa e decapitações apenas ajuda no anestesiamento da sensibilidade moral. Contudo, o blog Islamidades, abrindo uma exceção, publica esta filmagem com uma finalidade prática. O que aqui podemos ver é um exemplo do "takfir" (i.e. acusação de blasfêmia ou descrença) do islamismo wahhabita posto em prática.

Shaker Wahib, um dos líderes do EI, intercepta três motoristas nas estradas da Síria. Como já é praxe eles são questionados a respeito da sua adesão ao islamismo. No território sírio o "Estado Islâmico" dedica grande parte do seu aparato militar no combate ao xiismo. Os três contestam e afirmam que são muçulmanos sunitas. Wahib novamente os questiona, agora indagados a respeito do número de "rak'ahs" (prostrações) que os muçulmanos fazem durante as suas orações. Os caminhoneiros respondem com imprecisão e em seguida são assinados enquanto os seus executores gritam "Allahu Akbar!".

Esse tipo de precedimento apresenta uma série de anomalias doutrinais e jurídicas. No islamismo tradicional a simples profissão de fé ("Não outra divindade além de Deus; Muhammad é o seu profeta") é testemunho de pertença à comunidade islâmica. O julgamento da sinceridade da fé pessoal não é aceito pela ortodoxia e os atos de adoração imperfeitos são no máximo considerados "idolatrias menores", longe de uma pena capital. 
O Profeta do Islã disse: "O tipo de pessoa que eu mais temo por vocês é o homem que lê o Corão, lançá-lo fora e o deixa para trás e que em seguida levanta a sua espada contra o seu próximo e o acusa de politeísmo".
E numa outra tradição se diz:
"Usamah Ibn Zayd  narrou que, após matar um homem que havia ditio 'não há deus além de Deus', o Profeta lhe perguntou: 'Ele disse: não deus além de Deus e você o matou?' Eu respondi: 'Ó Mensageiro de Deus, ele apenas disse isso por medo de nossas armas.' Muhammad contestou: 'Você enxergou o seu coração para saber se isso era verdade ou não?"
O renomado teólogo muçulmano Ibn Taymiyyah (1263 - 1328), um dos mais importantes pensadores da escola salafista no séc. XIV, disse: 
"Todos os imames muçulmanos concordam unanimemente que nem todo aquele que que diz algo errado, mesmo contradizendo a Sunnah, deve necessariamente ser julgado incrédulo. Assim, realizar takfir contra alguém que tem uma opinião errada é contra o consenso. Takfir é uma questão controversa, que é discutida em detalhe em diversos lugares. O que se quer dizer aqui é que nenhum seguidor de um certo Sheikh ou Imam têm direito de fazer takfir contra os outros. É narrado com autenticidade que o Profeta disse: 'Se um homem disser a seu irmão: 'Ó Descrente", deve definitivamente ser um deles'"
A ortodoxia islâmica sempre rejeitou a banalização do "takfir". As acusações de "idolatria" e "heresia" sempre dependeram do consenso dos ulemás, que debatiam antes que uma "fatwa" fosse emitida. Entretanto, com a ascensão do wahhabismo o "takfirismo" se tornou em práxis, elevado ao status de política expansionista e respaldando a limpeza religiosa na península arábica. Contudo, com exceção dos clérigos wahhabitas, a declaração de excomunhão nunca obteve o apoio teológico de nenhuma das escolas sunitas ou xiitas. Entretanto, com a sua exportação para outros países islâmicos e a perda de controle da Casa Saud sobre sua própria cria, o "takfir" se converteu em terrorismo ad intra: muçulmanos assassinando muçulmanos em nome da pureza da fé. 

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