quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Louis Massignon, o "católico muçulmano"

Louis Massignon (1883 - 1962) certamente é um dos maiores nomes da islamologia moderna. Contudo, mais que um estudioso do islã, o renomado pensador francês encarnou em sua própria vida aquilo em que acreditava.  Sendo considerado o precursor do diálogo inter-religioso, Massignon plantou as bases de um estudo honesto da fé islâmica. Se uma árvore é julgada pelos seus frutos, podemos analisar a fecundidade da sua produção intelectual através dos seus alunos na vida acadêmica, dentre os quais se encontram os mais importantes islamólogos contemporâneos. Ademais, Massignon também ficou conhecido pela sua proximidade espiritual com o islamismo, a tal ponto que o Papa Pio XI, num elogio bem humorado, o chamou de “católico muçulmano”. 

Louis Massignon nasceu em Nogent-sur-Marne, perto de Paris. Seu pai, Fernand Massignon, era um pintor e escultor e de clara formação agnóstica. Sua mãe, Marie Massignon, era uma católica praticante, mas que não conseguiu transmitir ao filho o fervor religioso. Contudo, o seu primeiro contato com a força da experiência de fé foi através da conversão de Joris-Karl Husymans, famoso escritor francês e amigo da família, que após uma incansável busca por sentido encontrou no catolicismo a plenitude que tanto ansiava. Depois do ensino escolar, Massignon partiu para o Marrocos para desenvolver a sua tese sobre Leão, o Africano, como parte dos seus estudos geográficos no Collège de France. Nessa época se encontra o seu primeiro contato com o Beato Charles de Foucauld, unicamente por razões intelectuais. Massignon tinha interesse em sua pesquisa condessada no livro “Reconnaissance au Maroc“, reconhecido pela Sociedade Geográfica de Paris com uma das melhores publicações sobre o Magreb, escrito antes da sua vocação ascética. 

A conversão de Massignon ao cristianismo está intimamente associada com o seu conhecimento do islã. Em 1907 ele foi para o Iraque para recolher material sobre o santo islâmico al-Hallaj, do séc. X. Sendo recebido por uma piedosa família muçulmana, Massignon teve a sua primeira experiência com a “hospitalidade” islâmica. Contudo, nesse mesmo período, durante a Revolução dos Jovens Turcos, foi considerado como um espião ocidental e encarcerado. No cárcere Massignon viveu o sofrimento e a solidão. Todavia, bebendo da fonte da espiritualidade islâmica – a única que conhecia – se viu atraído por uma força desconhecida. Diante da presença de Deus, como a “visita de um Estranho”, Massignon foi capaz de rememorar o seu passado, inclusive as suas tentativas de suicídio, libertando-se dessa prisão interior. Este encontro com Deus foi transformador e marcou de modo definitivo a vida do jovem islamólogo francês. 

Após a sua libertação – espiritual e física – Massignon foi para Beirute, acompanhado do carmelita iraquiano Anastase-Marie de Saint Elie, com quem se confessou, retornando ao catolicismo.  Ademais, ele creditava a sua conversão às orações dos seus amigos muçulmanos, de Charles de Foucauld, que também havia descoberto a Deus no mundo islâmico e com quem trocava correspondências desde o primeiro contato, e através da intercessão de  al-Hallaj. A sua vida católica desde então foi marcada pela espiritualidade foucauldiana, numa associação espiritual entre o asceta do Saara e o acadêmico francês. Inclusive será Massignon o herdeiro do legado espiritual do Irmão Charles, responsável por guardar a regra dos “Irmãozinhos de Jesus”, congregação idealizada por Foucauld. Mais tarde conseguirá junto à Igreja o “imprimatur” para a fundação.  Ainda tendo sido convidado pelo Irmão Charles, Massignon nunca se juntou a ele em Tamanrasset, preferindo a vocação matrimonial. 

Louis Massignon, já reconhecido como autoridade no estudo do islamismo, ocupou a cadeira de Sociologia e Sociografia Muçulmana do Collège de France, substituindo o seu fundador, Alfred le Chatelier. Sua grande notoriedade se deve ao estudo da mística islâmica, especialmente da vida e pensamento de Al-Hallaj. Ademais, o pensador francês também se engajou no aprimoramento da sua vida espiritual. Ingressou na Ordem Terceira Franciscana, adotando o nome de “Ibrahim” e mais tarde, juntamente com Mary Kahil, fundou a Associação Badaliya de Oração, na igreja franciscana de Damietta, onde São Francisco havia se encontrado com o Sultão Al-Malik Al-Kamil em 1219. Aqui entram as duas mais importantes marcas da espiritualidade de Louis Massignon : sagrada hospitalidade e a substituição (badaliya). 

A sagrada hospitalidade, característica da cultura muçulmana, foi cristianizada por Massignon e transformada em propósito espiritual. Em sua visão isso representava uma abertura radical ao outro, sem desejar por mudanças ou transformações, aceitando-o como é em seus defeitos e qualidades. Massignon encontrava em Cristo a fonte primeira dessa espiritualidade. Já a substituição pode ser entendida como uma radicalização da hospitalidade. Trata-se do oferecimento da própria vida pela santificação e salvação do próximo, numa constante intercessão. Massignon, portanto, oferecia sua existência pelos muçulmanos, funcionando como um canal de graça pelo qual Deus se serviria para chegar aos corações dos fiéis islâmicos. 

Anos depois, com a devida permissão de Pio XII, Louis Massignon se tornou num católico de rito oriental (melquita). Assim ficaria mais perto da cultura árabe e dos povos muçulmanos. Em seguida, com a autorização da Santa Sé e do Patriarca Maximos IV, Massignon foi ordenado sacerdote em 1950. Como presbítero intensificou ainda mais a sua concepção de “badaliya”. No campo intelectual manteve proximidade com os maiores nomes de sua época, como Jacques Maritain, Henri Massis, Gabriel Marcel, Paul Claudel, Mahatma Gandhi etc. Massignon morreu em 30 de outubro de 1962 e foi sepultado no dia 6 de novembro, em Pordic, Brittany. Louis Gardet, seu amigo e colega, ajudou na edição póstuma da obra "La passion de Hussayn Ibn Mansûr an-Hallâj", publicada em 1975.

Dentre os seus alunos e discípulos estão Henry Corbin, um dos maiores islamólogos da modernidade, Eva de Vitray-Meyerovitch, Abd al-Rahman Radawi, Abd al-Halim Mahmud, Sheikh da Universidade Al-Azhar no Cairo, George Makdisi, Herbet Mason, James Kritzeck, Ali Shariati, filósofo iraniano e um dos precursores da Revolução Islâmica, Jean Mohamed Ben Abdejlil, muçulmano convertido ao catolicismo e mais tarde sacerdote franciscano, Louis Gardet, co-funddador dos Irmãozinhos de Jesus juntamente com Massignon e importante voz no diálogo entre cristãos e muçulmanos, Georges Anawati, ortodoxo convertido ao catolicismo, em seguida sacerdote dominicano e um dos maiores nomes do estudo da teologia islâmica no séc. XX, Maurice Borrmans, Padre Branco, professor emérito do PISAI (Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos), diretor da revista “Islamochristiana” e consultor do Pontifício Conselho para o Diálogo com os Não-Cristãos, Youakim Moubarac, sacerdote maronita e islamólogo

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