segunda-feira, 1 de setembro de 2014

“Graças a Deus pelos sauditas” ou como os EUA e a Arábia Saudita assolaram o Oriente Médio

A Arábia Saudita e o Catar são os dois mais fortes aliados dos EUA no mundo árabe. Contudo, como adeptos do wahhabismo são os articuladores dos movimentos jihadistas em todo o mundo islâmico. Ademais, através de Ryad e Doha os americanos captam o apoio do Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes. A aliança de Washington com a Casa Saud selou o destino do Oriente Médio, inaugurando um ciclo de violência militar e terrorista: Afeganistão, Iraque, Síria. Ainda que o “saudismo” seja o combustível ideológico de diversos movimentos fundamentalistas  - Talibã, Al-Qaeda, Lashkar-e-Taiba, ISIL - os EUA, através das palavras do Sen. McCain, louvam o seu papel no contexto regional: “Graças a Deus pelos sauditas e pelos nossos amigos no Catar” 

O ISIL, nascido como um grupo rebelde na Síria, cresceu com o apoio financeiro da elite da Arábia Saudita e do Catar. Ambos são os únicos países islâmicos oficialmente wahhabitas, ou seja, adeptos de uma versão reformada do Islã conhecida pelo seu anacronismo. McCain, falando em nome do governo dos EUA, exalta o papel de Ryad no financiamento dos movimentos de oposição ao regime Assad. O Príncipe Bandar bin Sultan, líder da Agência Saudita de Inteligência e ex-embaixador da Arábia Saudita em Washington, foi o grande articulador da aliança entre os rebeldes sírios e o governo dos EUA. Entre as facções apoiadas estavam o Exército Livre da Síria, considerado “moderado” em comparação com os outros segmentos, o Jabhat al-Nusra e o ISIL.

Ainda que a ação do governo saudita fosse fundamental para construção de uma rede de comunicação entre os fundamentalistas (“rebeldes”), grande parte do apoio ao ISIL partia de indivíduos ricos nos estados árabes do golfo. Às vezes este suporte gozava do assentimento tácito e da aprovação de tais regimes. O intervencionismo wahhabita foi duramente criticado pelo Primeiro-Ministro do Iraque, al-Maliki, que acusou publicamente a Arábia Saudita e o Catar de financiarem o ISIL e incitarem o jihadismo em todo o mundo islâmico.  

Outro fator contextual que incrementa ainda mais o ciclo de violência é o pressuposto anti-xiita do discurso wahhabita. Já em suas origens essa seita tomou para si a luta pela “purificação” islâmica, combatendo as “idolatrias” e as “perversões” internas da religião. A guerra contra o xiismo se tornou em ponto característico do wahhabismo. Paquistão, Afeganistão, Bahrein, Yêmen etc são países que sofrem com grupos terroristas que sistematicamente realizam atentados contra as comunidades "shias". A Arábia Saudita difundiu essa “cruzada” em todo o mundo muçulmano e o ISIL levou à plenitude este ensinamento. Em recente pronunciamento um dos líderes do “Califado Islâmico” afirmou que os seus maiores inimigos não são os “infiéis” (judeus, cristãos), mas os “muçulmanos degenerados” (xiitas, alauítas). Não estranhamente a Síria é governada por uma família alauíta (seita com origem em heresias do xiismo) e no Iraque pós-Saddam os “shias” se tornaram no maior grupo político.  

Em Mosul, santuários e mesquitas xiitas foram destruídos e nas proximidades da cidade de Tal Afar 4.000 casas foram tomados pelos combatentes do ISIL como "espólio de guerra".  Isso não é uma novidade dentro dos paradigmas wahhabitas. A Casa Saud destruiu todas as mesquitas xiitas que se encontravam no seu reino e em 2007 a Al-Qaeda explodiu a Mesquita al-Askari, em Bagdá, um dos lugares mais sagrados do xiismo, onde estavam sepultados o 10º e o 11º Imames, objetos de alta veneração.  Recentemente a Arábia Saudita enviou tropas para suprimir os protestos xiitas no Bahrein, país aliado na região que é governado por uma monarquia sunita, a Casa Al-Khalifa. Por mais que 50%-60% da população seja seguidora do xiismo, o regime estruturou uma política de sistemática discriminação. 

O ISIL, portanto, é apenas um filho legítimo saudita, tanto em sua perseguição aos xiitas como aos cristãos. Nascido da ingerência de Ryad e Washington na Síria, o “Califado Islâmico” foi muito além da derrubada do regime Assad: passou a defender a instauração de uma nova realidade geopolítica. O desespero americano em apoiar grupos de oposição aos seus desafetos o levou a armar os seus futuros inimigos, como o Talibã (usado contra os soviéticos) e agora o ISIL. Em ambos os casos existe o aporte ideológico da Arábia Saudita. Tanto o fundamentalismo afegão quanto a sua versão iraquiana comungam dos axiomas do wahhabismo. 

Ainda que atualmente a Arábia Saudita tenha cortado os seus vínculos oficiais com o ISIL, o fato incontentável é que o país é um celeiro de adeptos e financiadores do fundamentalismo. A ideologia wahhabita ensinada nas escolas e pregada do alto dos minbares é o maior combustível para o jihadismo em todo o mundo islâmico. Ademais, Ryad sempre tergiversa em sua condenação ao terrorismo, como em seu repúdio a Al-Qaeda, mais motivado pelos ataques perpetrados dentro do país do que em relação às atrocidades realizadas no Ocidente. Recentemente o Rei Abdullah afirmou que a Europa e os EUA seriam os próximos alvos do ISIL, numa mudança de postura recebida por muitos críticos de maneira positiva. Contudo, analisando dentro de um contexto mais amplo, entende-se essa condenação ao “Califado Islâmico” como uma tentativa desesperada de minar o crescente apoio interno ao ISIL. Num passado recente os sauditas sofreram uma grande derrota quando da adesão de diversos líderes políticos do Reino à ideologia da Irmandade Muçulmana, que adota o mesmo discurso radical mesclado com uma metodologia política mais moderna. A coesão e a manutenção do regime estão associadas com o vigor da união entre a Casa Saud e a Casa Al ash-Sheikh (descendentes de Muhammad ibn al-Wahhab, fundador da seita wahhabita). Por mais que os EUA tenham rompido o seu apoio aos “rebeldes” e Ryad agora reforce o coro contrário ao ISIL, é notório que os dois países são os grandes responsáveis, tanto no aspecto logístico como ideológico, pela explosão do terrorismo que hoje assola o Oriente Médio.

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