sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O "takfirismo" do Estado Islâmico

Um dos mais graves efeitos colaterais do caráter midiático do "Estado Islâmico" (EI) é o modo como a violência é banalizada nas redes sociais. Publicar vídeos de assassinatos em massa e decapitações apenas ajuda no anestesiamento da sensibilidade moral. Contudo, o blog Islamidades, abrindo uma exceção, publica esta filmagem com uma finalidade prática. O que aqui podemos ver é um exemplo do "takfir" (i.e. acusação de blasfêmia ou descrença) do islamismo wahhabita posto em prática.

Shaker Wahib, um dos líderes do EI, intercepta três motoristas nas estradas da Síria. Como já é praxe eles são questionados a respeito da sua adesão ao islamismo. No território sírio o "Estado Islâmico" dedica grande parte do seu aparato militar no combate ao xiismo. Os três contestam e afirmam que são muçulmanos sunitas. Wahib novamente os questiona, agora indagados a respeito do número de "rak'ahs" (prostrações) que os muçulmanos fazem durante as suas orações. Os caminhoneiros respondem com imprecisão e em seguida são assinados enquanto os seus executores gritam "Allahu Akbar!".

Esse tipo de precedimento apresenta uma série de anomalias doutrinais e jurídicas. No islamismo tradicional a simples profissão de fé ("Não outra divindade além de Deus; Muhammad é o seu profeta") é testemunho de pertença à comunidade islâmica. O julgamento da sinceridade da fé pessoal não é aceito pela ortodoxia e os atos de adoração imperfeitos são no máximo considerados "idolatrias menores", longe de uma pena capital. 
O Profeta do Islã disse: "O tipo de pessoa que eu mais temo por vocês é o homem que lê o Corão, lançá-lo fora e o deixa para trás e que em seguida levanta a sua espada contra o seu próximo e o acusa de politeísmo".
E numa outra tradição se diz:
"Usamah Ibn Zayd  narrou que, após matar um homem que havia ditio 'não há deus além de Deus', o Profeta lhe perguntou: 'Ele disse: não deus além de Deus e você o matou?' Eu respondi: 'Ó Mensageiro de Deus, ele apenas disse isso por medo de nossas armas.' Muhammad contestou: 'Você enxergou o seu coração para saber se isso era verdade ou não?"
O renomado teólogo muçulmano Ibn Taymiyyah (1263 - 1328), um dos mais importantes pensadores da escola salafista no séc. XIV, disse: 
"Todos os imames muçulmanos concordam unanimemente que nem todo aquele que que diz algo errado, mesmo contradizendo a Sunnah, deve necessariamente ser julgado incrédulo. Assim, realizar takfir contra alguém que tem uma opinião errada é contra o consenso. Takfir é uma questão controversa, que é discutida em detalhe em diversos lugares. O que se quer dizer aqui é que nenhum seguidor de um certo Sheikh ou Imam têm direito de fazer takfir contra os outros. É narrado com autenticidade que o Profeta disse: 'Se um homem disser a seu irmão: 'Ó Descrente", deve definitivamente ser um deles'"
A ortodoxia islâmica sempre rejeitou a banalização do "takfir". As acusações de "idolatria" e "heresia" sempre dependeram do consenso dos ulemás, que debatiam antes que uma "fatwa" fosse emitida. Entretanto, com a ascensão do wahhabismo o "takfirismo" se tornou em práxis, elevado ao status de política expansionista e respaldando a limpeza religiosa na península arábica. Contudo, com exceção dos clérigos wahhabitas, a declaração de excomunhão nunca obteve o apoio teológico de nenhuma das escolas sunitas ou xiitas. Entretanto, com a sua exportação para outros países islâmicos e a perda de controle da Casa Saud sobre sua própria cria, o "takfir" se converteu em terrorismo ad intra: muçulmanos assassinando muçulmanos em nome da pureza da fé. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dilma não é do ISIL mas também é fundamentalista

A Presidente Dilma, em recente pronunciamento em Nova Iorque, afirmou ser contrária à coalizão encabeçada pelos EUA em resposta ao terrorismo do "Estado Islâmico". Ainda que seja criticável a política externa americana, principalmente se recordamos que Washington apoiou os grupos "rebeldes" sírios dentre eles o ISIL, a intervenção militar, com um atraso de meses, busca solucionar a carnificina que atingiu níveis epidêmicos. Por mais que confusas alianças dos EUA tenham prejudicado os cristãos e as minorias e fortalecido o terrorismo, é incontestável que sem a liderança americana uma eficiente resposta de força nunca sairia do papel. 

Contudo, Dilma parece viver num mundo político paralelo. A comparação do atual contexto do Oriente Médio com o Iraque de 2003 é completamente desprovida de sentido. Realidades distintas, inimigos com métodos diferenciados e uma brutalidade presente que faz a Al-Qaeda parecer um grupo "humanitário". Ademais, a Presidente do Brasil, partindo da cosmovisão petista, prefere partidarizar problemas que resolvê-los. Criticar a ação dos EUA, com apoio de dezenas de nações, inclusive árabes e muçulmanas, é colocar os pressupostos ideológicas como norteadores do bom senso.

Os EUA estão realizando ações conjuntas com o Irã em território iraquiano e já se esboça uma aliança com o Hezbollah para enfrentar o "Estado Islâmico" na fronteira com o Líbano. Entretanto, é mais fácil tecer uma parceira entre Washington e Teerã, superando décadas de rancor mútuo, que uma aliança entre Washington e Brasília. O Brasil do PT abraça com um fundamentalismo digno do ISIL as suas posições partidárias. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Salvar o Islã para salvar o Ocidente


Duas recentes notícias parecem endossar aquilo que pode ser visto como o momento da virada islâmica. Na Alemanha duzentas mesquitas se uniram contra o ISIL e na Síria o Conselho Islâmico emitiu uma “fatwa” com a mesma condenação.  As afirmações foram contundentes:  “eles são verdadeiros terroristas e assassinos”, “fontes de sectarismo, morte e destruição”.  Estes não são os primeiros líderes que se pronunciam. Recentemente o Ayatollah Sistani, no Iraque, e o Ayatollah Khamenei, Líder Supremo do Irã, criticaram abertamente o ISIL. Contudo, o que está em risco é a própria consciência dos muçulmanos na Europa e até mesmo a "salvação" do islã. O islamismo de imigração no Ocidente já está em sua terceira geração. O momento atual também é decisivo para a formação de uma identidade islâmica europeia, livre da influência fundamentalista. 

Multiplicam-se nas redes sociais acusações que generalizam o islamismo, tornando a postura do ISIL em paradigma de toda a fé muçulmana. Entretanto, se queremos fazer uma análise honesta é necessário destacar alguns pontos. O “Califado Islâmico”, como filho legítimo do wahhabismo, tem como ideologia e práxis o “takfirismo”, ou seja, a declaração de excomunhão. Esta prática, de complexo fundamento teológico, sempre foi vista com desconfiança dentro do islamismo e esteve restrita aos altos membros do clero. Com a ascensão do wahhabismo no séc XVIII e sua consolidação no séc. XIX e XX, o “takfir” se estruturou como prática banal: qualquer um poderia julgar a credulidade alheia. O rigorismo anacrônico deste discurso simplesmente considerava todos os muçulmanos incrédulos. Até mesmo viajar para nações fora da península era visto como um ato ímpio. Agravando um cenário já doutrinariamente caótico, os clérigos do wahhabismo desenvolveram uma exegese ainda mais radical ao dizer que tais “incrédulos” deveriam ser punidos com a morte.

Por mais que o wahhabismo tenha sido condenado como heresia pelos ulemás da época e definido como neo-kharijismo (primeiro cisma do islamismo), definição retomada pela fatwa do Conselho Islâmico Sírio, a sua aliança com a Casa Saud possibilitou a tomada prática do poder. Com a máquina de takfir ligada e tendo o fundamento de clérigos que endossavam a pena capital para os “incrédulos” o terrorismo galgou o status de teologia. Portanto, o que  é praticado pelo ISIL é o subproduto de uma seita fundamentalista surgida no deserto arábico. 

Entretanto, o que hoje está em risco é a própria identidade islâmica. Durante séculos o islamismo conviveu com a ascensão do wahhabismo, que entrava nos mais variados países muçulmanos para construir mesquitas e centros culturais. Atualmente os grandes templos edificados em diversos países, da Burkina Faso ao Paquistão, da Nigéria até a Indonésia, continuam sendo custeados pela Casa Saud. Alguns filhos legítimos do wahhabismo atingiram fama global, como a Al-Qaeda e o Talibã. Contudo, agora que estes grupos se proliferam de modo mitótico o Oriente Médio e os muçulmanos na Europa se encontram desafiados a tomar uma posição contundente contra o sequestro do islamismo que perdura desde o séc. XIX. Até quando o wahhabismo poderá ser a mais eloquente voz dos muçulmanos? Por quanto tempo mais a “Ummah” vai permitir que os anacronismos dos ulemás wahhabitas ocupem o minbar das mesquitas? 

Os muçulmanos da Alemanha responderam com um contundente rechaço ao ISIL e ao discurso fundamentalista. Outros fiéis islâmicos da Europa também precisam se posicionar, e de modo definitivo, nessa luta contra o horror. Se o terrorismo, para o Ocidente, atinge proporções avassaladoras depois do 11 de Setembro, para os muçulmanos a sua gênese começa com a sistemática destruição do legado cultural e civilizacional perpetrada pelo wahhabismo séculos passados. No atual contexto, ocidentais e islâmicos unem forças para guerrear com palavras e ações contra esse segmento bárbaro que se estabeleceu pela força como discurso dominante.  

Para salvar o Oriente Médio e para consolidar a identidade dos muçulmanos europeus é mais do que necessária uma tomada de consciência. O islamismo foi sequestrado pela retórica wahhabita e hoje as nações muçulmanas choram com a desgraça dos seus filhos. Salvar o islã não é apenas proteger o Ocidente de uma ameaça iminente, mas também reestabelecer uma rica tradição civilizacional que sofre com uma “sífilis” que agora atinge proporções epidêmicas. 

domingo, 14 de setembro de 2014

Príncipe Charles e o Islã

O Príncipe Charles da Inglaterra é conhecido pela sua proximidade com o mundo islâmico. Além das suas constantes viagens aos países de maioria muçulmana, especialmente Turquia, encontra-se a sua intimidade com autores da filosofia perene, como Fritjof Schuon, Martin Lings e Seyyed Hussein Nasr, os dois primeiros convertidos ao islamismo. Também já declarou que estudou o árabe buscando ler o Corão em sua língua original, o que não é, de fato, comprovação de conversão ao islã. Contudo, o que soa mais estranho é o modo como compartilha dos axiomas do perenialismo, ou seja, que a restauração do Ocidente se encontra na adesão aos fundamentos místicos, espirituais e humanos da religião fundada por Muhammad. Ainda que não seja um convertido ao islã, e qualquer afirmação sobre isso entraria no campo da suposição, é incontestável que a sua cosmovisão está amplamente fundamentada nos pressupostos da gnose muçulmana.

O filho da Rainha Elisabeth, em diversas declarações públicas, coloca-se como o mais importante difusor das ideias da filosofia perene. O islamismo, dentro dos ensinamentos de Guénon e Schuon, seria a resposta mais eloquente aos males espirituais e culturais do Ocidente. Tanto como uma resposta ao secularismo, como também ao próprio cristianismo “caduco”, incapaz de conduzir a uma experiência de transcendência. Essa “restauração”, ponto fundamental do pensamento perenialista, encontra-se na reconstrução da elite espiritual, fundamentada nos pressupostos da gnose islâmica. Grande parte do ideário da filosofia perene está baseado na mística muçulmana, seja no seu aspecto estrutural-hierárquico como a respeito do "conhecimento" de Deus. O Príncipe Charles, ao que parece, endossa partes desses ensinamentos.
“Islam can teach us today a way of understanding and living in the world which Christianity itself is poorer for having lost. At the heart of Islam is its preservation of an integral view of the Universe. Islam-like Buddhism and Hinduism-refuses to separate man and nature, religion and science, mind and matter, and has preserved a metaphysical and unified view of ourselves and the world around us.”
Além desses aspectos filosóficos-gnósticos, o futuro Charles III demonstrou a sua proximidade com o mundo islâmico em realidades mais concretas. Em 1989, quando Ayatollah Khomeini emitiu uma fatwa contra Salman Rushdie, por conta do seu livro “Versos Satânicos”, o Príncipe inglês se recusou a interceder pelo escritor indiano, alegando que a sua obra atacava as profundas convicções dos muçulmanos. Contudo, em visita aos EUA depois do “11 de setembro”, foi ele o intercessor do mundo islâmico junto ao Presidente Bush, numa tentativa de fazê-lo compreender a riqueza cultura e humana dessa Civilização. 

Obviamente que um interesse intelectual não é atestado de conversão. Muitos são os estudiosos do mundo islâmico – islamólogos – que não professam a fé muçulmana. O cerne da questão não está em reconhecer a riqueza cultural e espiritual do islã. Apenas islamofóbicos enxergam dificuldades em afirmações como esta. Tampouco há grandes problemas em entender o esforço do Príncipe em propiciar uma maior integração entre os imigrantes muçulmanos e a sociedade britânica. Alguns encontram provas da conversão do Príncipe Charles na fundação do Centro de Estudos Islâmicos, na Universidade de Oxford, em 1985. Contudo, todas as grandes universidades têm centros dedicados a esta temática, dentre os quais se encontra o Centro de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, fundado em 1916 e por onde passaram muitos dos grandes islamólogos contemporâneos. No Brasil existem centros similares, como Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia. A Igreja Católica também mantém um instituto exclusivamente dedicado ao estudo do islamismo, o Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos

O interesse acadêmico pelo islamismo, portanto, não é prova de adesão de consciência à fé islâmica. Contudo, o Príncipe Charles, conhecedor da filosofia perene, parece ter encontrado na religião muçulmana um substrato teórico para grande parte dos axiomas modernos, como o ambientalismo e o multiculturalismo. A origem da crise moderna, seja no campo ambiental como social, é uma crise espiritual, de desintegração da unidade pisco-espiritual do homem contemporâneo. Assim, a solução estaria na recuperação do sentido transcendente, da integração do homem consigo mesmo e com a natureza. Ainda que a leitura seja feita de modo correto, a resposta encontrada pelo Príncipe Charles está na experiência esotérica islâmica. 
“The inconvenient truth is that we share this planet with the rest of creation for a very good reason - and that is, we cannot exist on our own without the intricately balanced web of life around us (...) Islam has always taught this and to ignore that lesson is to default on our contract with creation.”
Por mais que a proximidade do futuro Rei da Inglaterra com o islamismo seja notória, e mais do que um interesse intelectual, nunca saberemos se de fato o seu coração e os seus lábios professam a “shahada”. Ao ver na fé islâmica a chave de transformação da realidade corrente britânica, o filho da Rainha Elisabeth fortalece os teóricos da conspiração que afirmam que a sua conversão é um fato. Contudo, o que é facilmente detectável é que o Príncipe Charles, em grande medida, endossa e fortalece o coro de agentes culturais promotores do islamismo no Ocidente. Entretanto, nunca saberemos se a sua atuação é fruto de um esforço orquestrado ou apenas reflexo da típica inocência de um homem educado sob os paradigmas do relativismo europeu. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Louis Massignon, o "católico muçulmano"

Louis Massignon (1883 - 1962) certamente é um dos maiores nomes da islamologia moderna. Contudo, mais que um estudioso do islã, o renomado pensador francês encarnou em sua própria vida aquilo em que acreditava.  Sendo considerado o precursor do diálogo inter-religioso, Massignon plantou as bases de um estudo honesto da fé islâmica. Se uma árvore é julgada pelos seus frutos, podemos analisar a fecundidade da sua produção intelectual através dos seus alunos na vida acadêmica, dentre os quais se encontram os mais importantes islamólogos contemporâneos. Ademais, Massignon também ficou conhecido pela sua proximidade espiritual com o islamismo, a tal ponto que o Papa Pio XI, num elogio bem humorado, o chamou de “católico muçulmano”. 

Louis Massignon nasceu em Nogent-sur-Marne, perto de Paris. Seu pai, Fernand Massignon, era um pintor e escultor e de clara formação agnóstica. Sua mãe, Marie Massignon, era uma católica praticante, mas que não conseguiu transmitir ao filho o fervor religioso. Contudo, o seu primeiro contato com a força da experiência de fé foi através da conversão de Joris-Karl Husymans, famoso escritor francês e amigo da família, que após uma incansável busca por sentido encontrou no catolicismo a plenitude que tanto ansiava. Depois do ensino escolar, Massignon partiu para o Marrocos para desenvolver a sua tese sobre Leão, o Africano, como parte dos seus estudos geográficos no Collège de France. Nessa época se encontra o seu primeiro contato com o Beato Charles de Foucauld, unicamente por razões intelectuais. Massignon tinha interesse em sua pesquisa condessada no livro “Reconnaissance au Maroc“, reconhecido pela Sociedade Geográfica de Paris com uma das melhores publicações sobre o Magreb, escrito antes da sua vocação ascética. 

A conversão de Massignon ao cristianismo está intimamente associada com o seu conhecimento do islã. Em 1907 ele foi para o Iraque para recolher material sobre o santo islâmico al-Hallaj, do séc. X. Sendo recebido por uma piedosa família muçulmana, Massignon teve a sua primeira experiência com a “hospitalidade” islâmica. Contudo, nesse mesmo período, durante a Revolução dos Jovens Turcos, foi considerado como um espião ocidental e encarcerado. No cárcere Massignon viveu o sofrimento e a solidão. Todavia, bebendo da fonte da espiritualidade islâmica – a única que conhecia – se viu atraído por uma força desconhecida. Diante da presença de Deus, como a “visita de um Estranho”, Massignon foi capaz de rememorar o seu passado, inclusive as suas tentativas de suicídio, libertando-se dessa prisão interior. Este encontro com Deus foi transformador e marcou de modo definitivo a vida do jovem islamólogo francês. 

Após a sua libertação – espiritual e física – Massignon foi para Beirute, acompanhado do carmelita iraquiano Anastase-Marie de Saint Elie, com quem se confessou, retornando ao catolicismo.  Ademais, ele creditava a sua conversão às orações dos seus amigos muçulmanos, de Charles de Foucauld, que também havia descoberto a Deus no mundo islâmico e com quem trocava correspondências desde o primeiro contato, e através da intercessão de  al-Hallaj. A sua vida católica desde então foi marcada pela espiritualidade foucauldiana, numa associação espiritual entre o asceta do Saara e o acadêmico francês. Inclusive será Massignon o herdeiro do legado espiritual do Irmão Charles, responsável por guardar a regra dos “Irmãozinhos de Jesus”, congregação idealizada por Foucauld. Mais tarde conseguirá junto à Igreja o “imprimatur” para a fundação.  Ainda tendo sido convidado pelo Irmão Charles, Massignon nunca se juntou a ele em Tamanrasset, preferindo a vocação matrimonial. 

Louis Massignon, já reconhecido como autoridade no estudo do islamismo, ocupou a cadeira de Sociologia e Sociografia Muçulmana do Collège de France, substituindo o seu fundador, Alfred le Chatelier. Sua grande notoriedade se deve ao estudo da mística islâmica, especialmente da vida e pensamento de Al-Hallaj. Ademais, o pensador francês também se engajou no aprimoramento da sua vida espiritual. Ingressou na Ordem Terceira Franciscana, adotando o nome de “Ibrahim” e mais tarde, juntamente com Mary Kahil, fundou a Associação Badaliya de Oração, na igreja franciscana de Damietta, onde São Francisco havia se encontrado com o Sultão Al-Malik Al-Kamil em 1219. Aqui entram as duas mais importantes marcas da espiritualidade de Louis Massignon : sagrada hospitalidade e a substituição (badaliya). 

A sagrada hospitalidade, característica da cultura muçulmana, foi cristianizada por Massignon e transformada em propósito espiritual. Em sua visão isso representava uma abertura radical ao outro, sem desejar por mudanças ou transformações, aceitando-o como é em seus defeitos e qualidades. Massignon encontrava em Cristo a fonte primeira dessa espiritualidade. Já a substituição pode ser entendida como uma radicalização da hospitalidade. Trata-se do oferecimento da própria vida pela santificação e salvação do próximo, numa constante intercessão. Massignon, portanto, oferecia sua existência pelos muçulmanos, funcionando como um canal de graça pelo qual Deus se serviria para chegar aos corações dos fiéis islâmicos. 

Anos depois, com a devida permissão de Pio XII, Louis Massignon se tornou num católico de rito oriental (melquita). Assim ficaria mais perto da cultura árabe e dos povos muçulmanos. Em seguida, com a autorização da Santa Sé e do Patriarca Maximos IV, Massignon foi ordenado sacerdote em 1950. Como presbítero intensificou ainda mais a sua concepção de “badaliya”. No campo intelectual manteve proximidade com os maiores nomes de sua época, como Jacques Maritain, Henri Massis, Gabriel Marcel, Paul Claudel, Mahatma Gandhi etc. Massignon morreu em 30 de outubro de 1962 e foi sepultado no dia 6 de novembro, em Pordic, Brittany. Louis Gardet, seu amigo e colega, ajudou na edição póstuma da obra "La passion de Hussayn Ibn Mansûr an-Hallâj", publicada em 1975.

Dentre os seus alunos e discípulos estão Henry Corbin, um dos maiores islamólogos da modernidade, Eva de Vitray-Meyerovitch, Abd al-Rahman Radawi, Abd al-Halim Mahmud, Sheikh da Universidade Al-Azhar no Cairo, George Makdisi, Herbet Mason, James Kritzeck, Ali Shariati, filósofo iraniano e um dos precursores da Revolução Islâmica, Jean Mohamed Ben Abdejlil, muçulmano convertido ao catolicismo e mais tarde sacerdote franciscano, Louis Gardet, co-funddador dos Irmãozinhos de Jesus juntamente com Massignon e importante voz no diálogo entre cristãos e muçulmanos, Georges Anawati, ortodoxo convertido ao catolicismo, em seguida sacerdote dominicano e um dos maiores nomes do estudo da teologia islâmica no séc. XX, Maurice Borrmans, Padre Branco, professor emérito do PISAI (Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos), diretor da revista “Islamochristiana” e consultor do Pontifício Conselho para o Diálogo com os Não-Cristãos, Youakim Moubarac, sacerdote maronita e islamólogo

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Abd el-Kader e o Massacre de Damasco

Por Rany Jazayerli

Tradução "Islamidades"

O ano era 1860, e o mundo estava, como de costume, em convulsão. Na China, a Segunda Guerra do Ópio estava chegando ao fim. A América estava se preparando para uma grande cirurgia, na forma da Guerra Civil, que finalmente curaria a jovem nação de seu defeito congênito da escravidão. E no coração do Oriente Médio, numa província do Império Turco Otomano, que mais tarde se tornaria na moderna Síria, uma profana mistura estava se formando. É isso mesmo: a política foi unida à religião.

Cristãos e muçulmanos viveram lado-a-lado na Terra Santa há mais de mil anos. Exércitos muçulmanos conquistaram a moderna Síria, Líbano, Israel e Egito, em meados do século VII, e enquanto os muçulmanos mantinham a autoridade política plena, os cristãos e judeus estavam autorizados a praticar livremente sua religião. A noção de que os não-muçulmanos foram forçados a se converter na ponta da espada é ridícula - no Egito, por exemplo, estima-se que os muçulmanos só se tornaram metade da população no ano de 1200, 500 anos depois da chegada do islamismo.

A área em torno do Líbano e da Síria, em particular, era um local como nenhum outro no séc. XIX quando o assunto se tratava da diversidade religiosa. Além de um número significativo de muçulmanos (sunitas e xiitas), de cristãos (católicos, católicos maronitas, ortodoxos gregos, caldeus, siríacos, e outros), e de judeus, havia também grupos religiosos como os alauítas e os drusos, que se separaram séculos antes do Islã tradicional e agora se enxergavam como religiões próprias.

Pelos padrões da época, esses grupos viviam em relativa harmonia. O que quer dizer, também pelos padrões da época, que o fato desses grupos coexistirem também ser um milagre. Caso fosse uma minoria religiosa em qualquer lugar do mundo sua vida estava em perigo. Apenas um ano antes, o primeiro pogrom ocorrera em Odessa, na Rússia, ceifando a vida de muitos judeus. Nem mesmo a América era imune a esse tipo de violência religiosa: em 1838, 18 homens mórmons foram mortos no massacre de Haun’s Mill, no Missouri.

Os maronitas e drusos estavam concentrados no Líbano. Os dois grupos nunca tinham gostado um do outro e sua relação foi ficando ainda pior. Incrementava a tensão o fato das potências externas encorajarem ambos os lados. Os franceses apoiavam os cristãos, os britânicos apoiaram os drusos, e com o Império Otomano se desintegrando a cada dia, os governantes turcos foram incapazes, ou não, de acabar com o conflito.

Em 1858, os camponeses cristãos no Líbano organizaram um levante contra os seus senhores feudais drusos. Os drusos retaliaram. O Patriarca dos maronitas ameaçou remover à força os drusos das montanhas libanesas. A situação foi ficando cada vez pior.

Em maio de 1860, um grupo de cristãos atirou num grupo de drusos fora de Beirute, com um óbito. Na onda de violência que se seguiu em ambos os lados, dezenas de aldeias foram queimadas e centenas de pessoas foram mortas. A violência se espalhou para fora do Líbano e caminhou até a Síria, em direção a Damasco, onde ambiciosos homens estavam conspirando para dar uma forma a esta violência, até então desorganizada, em algo muito mais bizarro.

O principal deles fora o governador turco de Damasco, Ahmed Pasha, que não queria nada além do que dar a sua população uma "correção" - hoje diríamos limpeza étnica. Em março, ele já tinha começado uma reunião secreta com dois chefes dos drusos e com o mufti de Damasco. Juntos, eles traçaram um plano para provocar uma guerra total no bairro cristão da cidade.

O plano parecia ter sido este: os drusos incitariam ataques contra os cristãos, "forçando" os turcos a intervir e, teoricamente buscando proteger a comunidade cristã, a escoltaria até uma cidadela fora da cidade. Lá, conspiradores drusos estariam esperando para matá-los. 

Com o aumento das tensões entre os dois lados a cada dia, seria necessária uma única fagulha para acender o fogo. Esta chama foi acesa em 08 de julho. Pasha havia providenciado alguns meninos muçulmanos para desenhar imagens de cruzes na beira do bairro cristão da cidade, depois as profanaria, cuspindo e jogando lixo sobre elas. As aturdidas crianças foram imediatamente presas, punidas por ter provocado a ira da grande comunidade cristã.

"Em 9 de julho, os culpados, meros suportes num cenário planejado por Ahmed Pasha, foram ordenados a ser publicamente açoitados, então forçados, pelas mãos e joelhos, a limparem as ruas que sujaram com o lixo. Os provocadores fizeram o resto. "
O massacre de Damasco tinha começado.
"Foi-me dito que Abd el-Kader fora o George Washington argelino, o pai da moderna Argélia (...)  Abd el-Kader foi o primeiro árabe a criar uma aparência de unidade tribal para combater a ocupação francesa. Mas com a derrota, notei uma semelhança com Robert E. Lee. Ele era gentil, generoso, respeitado por seus inimigos e profundamente religioso."
Abd el-Kader foi um desses homens que, nas palavras de Shakespeare, tinha grandeza. Ele certamente não nasceu para si. Era proveniente de uma região remota da província turca que hoje chamamos Argélia, em 1808, numa família tribal nas bordas do deserto do Saara. Você seria duramente pressionado a encontrar uma região tão menos improvável na terra para o surgimento de um dos homens mais influentes do século.

Abd el-Kader nasceu numa tribo de guerreiros, homens que durante séculos tinham colocado a valentia acima de tudo e valorizado um cavalo rápido e resistente. Seu pai, Muhi al-Din, era um marabu, um líder religioso de sua tribo, e um líder de uma tradição sufi conhecida como ordem Kadiriyya. Esperava-se, a partir do momento de seu nascimento, que Abd el-Kader seguisse os passos de seu pai. "Seu destino, caso o tivesse abraçado, teria sido a de um monge casado, vivendo uma vida de oração, meditação e ensino".

Como todos os homens de sua tribo, Abd el-Kader foi treinado em equitação e esgrima e nas outras artes de guerra, mas a sua formação principal era religiosa. Quando adolescente, ele foi enviado por seu pai para a cidade de Orã para continuar os seus estudos. Ele voltou para casa com quinzes anos. Com dezessete se casara, e, em seguida, partiu com seu pai para a peregrinação a Meca, uma viagem que levaria dois anos para ser concluída. Esta viagem incluiu paradas em Damasco e em Bagdá, onde "este jovem magrebiano de incrível conhecimento e agilidade intelectual espalhava a sua palavra e poderia muito educadamente mantê-la diante dos principais estudiosos da cidade." Abd el-Kader voltou para sua aldeia natal de Mascara em 1828, e provavelmente teria passado o resto de sua vida lá se não fossem a interferência dos eventos.

E eles interferiram. Em 1830, o rei Carlos da França viu uma campanha imperial como uma ótima maneira de combater a sua impopularidade em casa. Usou de um pequeno incidente diplomático como desculpa para invadir a Argélia. Argel se rendeu aos franceses rapidamente e sem derramamento de sangue, embora não tenha sido suficiente para salvar o rei, Carlos, que abdicou ao final daquele ano, e transferiu a coroa para seu primo, Louis-Phillipe. Se os franceses tivessem sido mais generosos na vitória, a guerra poderia ter sido mais rápida. Os turcos não eram bem quistos pela população local, por isso, se era apenas uma questão de pagar impostos a um líder diferente, a maioria dos cidadãos teria aderido com um 
mínimo protesto. 

Entretanto, como tantos conquistadores estrangeiros, os franceses logo colocaram a população local contra eles por serem desnecessariamente duros e completamente surdos à cultura local. Ademais, expulsaram os turcos, o único grupo de pessoas que poderia ter servido como intermediário. Como Alexis de Tocqueville escreveu em 1837, "Uma vez que o governo turco foi destruído e nenhum substituto fora colocado em seu lugar, o país caiu na terrível anarquia." O vácuo político gritava por liderança, que por padrão caiu sobre os líderes religiosos de várias tribos fora da cidade. A brutalidade da ocupação francesa forçou à unidão dos líderes tribais religiosos contra o opressor. Em 1832, as várias tribos se uniram para nomear o pai de Abd el-Kader, Muhi al-Din, seu sultão.

Muhi al-Din concordou, mas com uma condição: que imediatamente depois de aceitar o cargo, abdicaria em favor de seu filho. Esta cláusula foi recebida com aprovação imediata; o conhecimento religioso de  el-Kader, sua força e coragem, já eram famosas em toda a região. Na idade de vinte e quatro anos, Abd el-Kader tornou-se o líder de seu povo numa guerra contra a ocupação estrangeira. Ele logo ganharia o título de "Emir al-Mumineen", o Comandante dos Crentes.

Em retrospecto, a tarefa de Abd el-Kader era desesperançosa desde o início. Nenhuma quantidade de brio militar poderia fazer diferença diante do poder e tecnologia do exército francês confrontado com um grupo desorganizado de beduínos argelinos. Mas o homem fez a sua tentativa. Durante quinze anos Abd el-Kader conduziu seu povo na resistência contra os franceses. Ele levou os seus soldados, por exemplo, a ficarem dia e noite sobre a sela, parando apenas para rezar, às vezes cobrindo até 150 milhas num dia, para enfrentar o inimigo na batalha. Os franceses ficaram surpresos, e depois impressionados, com o poderio militar de seu jovem inimigo.

Abd el-Kader não travou simplesmente uma guerra contra os franceses, mas também estava lutando para estabelecer uma nação entre o seu próprio povo. Ele formou um exército independente e recolhia impostos necessários para mantê-lo abastecido. Ademais, criou um gabinete de conselheiros, incluindo um comerciante judeu que serviu como seu embaixador junto aos franceses.

Em 1834, as forças de Abd el-Kader já tinham conseguido tanto êxito que o general francês encarregado de subjugá-los pediu por um cessar-fogo, o que foi concedido. Alguns extremistas em sua própria comunidade rotulou-o como um herege por conta da negociação com os franceses, forçando Abd el-Kader a travar outra batalha para derrotá-los. Um ano depois, porém, outro general do exército francês usou um frágil pretexto para romper o acordo e marchar sobre as forças de Abd el-Kader. As forças francesas foram emboscadas e sofreram uma derrota humilhante, que incrementou a reputação de Abd el-Kader, tanto junto aos seus, como ao redor do mundo. 

Tudo isso ajudou a deixar os franceses ainda mais furiosos. Em 1836 eles aportaram com mais forças e mais determinação para exterminar seu adversário. Abd el-Kader aprendeu rapidamente que ele não poderia derrotar o exército francês numa batalha de campo e recorreu a ataques relâmpago, com sua cavalaria emergindo do deserto como surpresa e destruindo a unidade francesa, e depois desaparecendo na areia tão rapidamente. Enquanto isso, as façanhas deste destemido líder guerrilheiro, subfinanciado, levantando-se contra a poderosa França, começaram a atrair o interesse dos britânicos e dos americanos - os britânicos por causa de sua rivalidade de longa data com os franceses e os americanos por conta de sua própria experiência lutando contra imperialismo britânico apenas algumas décadas antes.

As glórias de Abd el-Kader foram contadas na América em publicações populares, como a Little’s Living Age, e um leitor foi tão fortemente "tomado" por el-Kader a ponto de nomear uma cidade em sua homenagem. Timothy Davis, um advogado que tinha se estabelecido em Dubuque, em 1836 (Iowa ainda não era um Estado, era parte do território da Louisiana), adquiriu uma propriedade nas proximidades do Rio Turquia, que parecia ideal para um moinho de farinha, e projetou uma nova cidade a ser construída ao redor da usina. "Então, Timothy Davis, um espírito pioneiro, advogado respeitado e admirador distante deste resistente azarão, nomeou em seguida o novo assentamento de Abd el-Kader, sabiamente encurtado para línguas americanas como Elkader". Elkader, Iowa, foi fundada em 1846. Permanece até hoje como a sede do condado de Clayton, com uma população de cerca de 1500. É a única cidade da América com um nome em árabe.

Em 1837, o general Thomas Bugeaud foi encarregado das operações francesas na Argélia. Sua missão inicial era garantir outro tratado de paz com Abd el-Kader, o que conseguiu. Este tratado reconhecia a soberania da França sobre as cidades costeiras de Argel e Orã, embora concedendo as regiões desérticas do interior a Abd el-Kader. Mais uma vez, o governo francês não estava satisfeito com os termos do acordo depois que os detalhes se tornaram conhecidos. Além disso, o texto em árabe tinha diferenças em relação ao texto em francês. Em 1839, os franceses aproveitaram da ambiguidade para colocar em marcha o seu exército numa região do país que estava proibida a eles na versão árabe do tratado. A guerra tem um novo começo.

Por volta de 1841 os franceses já estavam cansados com a resistência de Abd el-Kader e seu pequeno exército. Ficou claro que as suas táticas de guerra convencionais não estavam funcionando. Geral Bugeaud deu a sua recomendação ao Parlamento. "Precisamos de um líder que precisa ser implacável e de uma guerra ilimitada." Ele estava se referindo a si mesmo. Nos próximos seis anos a França travaria uma guerra intensa. Mais de 100 mil soldados - um terço de todo o exército francês - estavam estacionados na Argélia, e eles não se sentiram constrangidos pelas regras comuns da guerra. Casas foram queimadas, o gado foi baleado, lavouras foram destruídas. Se Abd el-Kader foi Robert E. Lee, então Bugeaud foi William T. Sherman.

Nas palavras de um dos oficiais de maior confiança Bugeaud, "Eu não deixarei em pé sequer uma árvore em seus pomares, nenhuma cabeça sobre os ombros destes árabes miseráveis (...) Vou queimar tudo, matar todo mundo." O mesmo oficial foi responsável pelo asfixiamento de centenas de homens, mulheres e crianças, que tinham se refugiados dentro de uma série de cavernas. Na imprensa inglesa, Bugeaud ficou conhecido como "O Açougueiro dos beduínos".

Por outro lado, Abd el-Kader conduziu a guerra  da forma mais civilizada possível. Ele planejou uma série de regras para o tratamento de prisioneiros que foram, em alguns aspectos, precursoras das regras oficiais codificadas na Convenção de Genebra em 1949. Num exemplo, ele libertou um grupo de soldados franceses capturados porque não tinha comida suficiente para alimentá-los. Alguns prisioneiros ficaram tão impressionados com o tratamento dado por Abd el-Kader que chegaram a ponto de formalmente desertarem para o outro lado, servindo como consultores estrangeiros para o emir.

Através de intermediários, Abd el-Kader desenvolveu correspondência com o Bispo de Argel, concordando em libertar os prisioneiros franceses em troca da promessa do bispo de pressionar os militares na libertação dos prisioneiros árabes - o que ele fez, com sucesso limitado. Se os soldados franceses sabiam que não seriam abatidos pelo inimigo caso fossem feitos prisioneiros, eles não lutariam tão apaixonadamente. Como o coronel francês escreveu: "Nós somos obrigados a fazer o máximo possível para esconder essas coisas [o tratamento dado aos prisioneiros franceses pelo emir] de nossos soldados. Porque se eles suspeitassem de tais questões, não se lançariam com tanta fúria contra Abd el-Kader. "

Os presos levados até Abd el-Kader eram questionados para se certificar de que tinham sido bem tratados em sua viagem. Caso não o fossem, o soldado argelino responsável por seus cuidados era açoitado. As mulheres cativas foram entregues aos cuidados da única pessoa no mundo que Abd el-Kader mais confiava: sua própria mãe.

Contudo, os franceses eram muito mais fortes e os argelinos de Abd el-Kader  muito desunidos. Em 1847 ele não estava mais lutando uma guerra mas estava fugindo da captura. Seus tenentes começavam a render-se aos franceses. Abd el-Kader levou sua família para o Marrocos, em busca de refúgio, mas foram expulsos pelo sultão, que não queria instigar a ira da França. Muitos de seus 
leais seguidores queriam lançar um último ataque, para sair num momento de glória. Abd el-Kader recusou tal intento.
"Se eu achasse que ainda havia a possibilidade de derrotar a França, eu continuaria. Mais resistência só irá criar sofrimento vão. Devemos aceitar o julgamento de Deus, que não nos deu a vitória e que, em Sua infinita sabedoria, quer agora que esta terra pertença aos cristãos. Será que vamos nos opor à Sua vontade? "
Em dezembro de 1847, Abd el-Kader mandou comunicar ao general Lamoriciére, agora líder da batalha, que estava preparado para discutir os termos de sua rendição. Um acordo foi alcançado e assinado pelo próprio filho do rei, onde se falava da rendição de Abd el-Kader e de seus homens, terminando a guerra que durou quinze anos, em troca de passagem segura para Alexandria ou Acre, no Egito, onde Abd el-Kader planejava o viver o resto de seus dias.

E, mais uma vez, Abd el-Kader foi traído quando nada foi cumprido. Os franceses tinham outras coisas em mente sobre o que fazer com ele - a monarquia do rei Louis-Philippe estava em colapso e em fevereiro de 1848 abdicou antes que pudesse ser derrubado. O novo governo se recusou a ratificar o acordo. Abd el-Kader e sua família foram levados para a França, onde se tornaram prisioneiros - num ambiente bastante luxuoso - por mais de quatro anos.

A traição francesa a Abd el-Kader só fez dele uma figura ainda mais heroica aos olhos do mundo. Em 1850, um cavalo chamado Abd el-Kader (apelidado de "Pequeno Ab ") participou do Grand National Steeple Chase, na Inglaterra. O cavalo, como uma possibilidade remota de 33-1, venceu. E venceu a corrida também no ano seguinte. O autor britânico William Thackeray escreveu uma elegia a Abd el-Kader, intitulada "The Caged Hawk." De Tocqueville o chamou de "um Cromwell muçulmano".

Na França, Abd el-Kader se tornou numa espécie de celebridade. "Um culto começou a se formar em torno da pessoa do emir. Franceses vinham de todos os cantos para visitá-lo”. Foi, imagino eu, uma espécie de versão do século XIX daquilo que ocorreu no encontro do Papa no Yankee Stadium. Num determinado ponto foi atribuído um novo guarda para Abd el-Kader que pediu para ser transferido porque "ele queria a honra de guardar o emir para pagar a consideração pela qual foi tratado quando foi ex-prisioneiro." Como uma freira que cuidou da família de Abd el-Kader escreveu a seu superior; "excetuando algumas questões de natureza teológica, não há nenhuma virtude cristã que Abd el-Kader não pratique no mais alto grau."

Em 1849, os cidadãos de Bordeaux colocaram o nome de Abd el-Kader na cédula de votação como candidato nas eleições presidenciais. Em 1852, a opinião pública francesa se transformou em favor do seu inimigo derrotado e o presidente eleito, Luís Napoleão (em breve Imperador Napoleão III), anunciou que Abd el-Kader estava prestes a ser libertado. Depois de um desfile triunfal pelas ruas de Paris, Abd el-Kader e sua família foram enviados para Bursa, cidade turca não muito longe de Istambul. Bursa não se alegrou com a chegada do emir, porém, em 1855 - depois de obter a aprovação de Napoleão - Abd el-Kader mudou-se para Damasco.

No caminho de Damasco, Abd el-Kader conheceu e fez amizade com o adido militar britânico no Líbano, o coronel Charles Henry Churchill - primo distante de Winston. Churchill acabaria por escrever a biografia definitiva de Abd el-Kader e de seu tempo. "Ninguém recebeu uma tão recepção triunfal 
desde os dias de Saladino", disse Churchill quando da chegada de el-Kader em Damasco. 
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E foi assim que, em 1860, Abd el-Kader, o herói trágico do mundo árabe, encontrou-se no epicentro do turbilhão. Abd el-Kader já havia se retirado da vida política, mas ainda exercia uma quantidade substancial de poder simbólico, caso precisasse. E ele exerceria tal influência.

Ligado como ele era junto às elites de Damasco, Abd el-Kader ouviu rumores de que certos elementos da sociedade damascena estavam planejando tirar vantagem da violência no Líbano para lançar um ataque contra os cristãos locais. Ele estava suficientemente preocupado a ponto de informar ao cônsul francês e, juntos, foram ver o governador, Ahmed Pasha. Este, por sua vez, não acreditava que esta conspiração fosse se concretizar. Pasha assegurou que não havia nenhum motivo para os rumores.

No entanto, os rumores eram tão persistentes que o cônsul foi convencido a fazer algo extraordinário: sob o mais rigoroso sigilo, autorizou o gasto de dinheiro francês para armar Abd el-Kader e mil de seus homens argelinos.

Em 08 de julho, Abd el-Kader tinha descoberto os detalhes da trama entre os drusos e os turcos e se organizou fora da cidade para enfrentar a cavalaria drusa  antes que atacassem. Ele - e seu pequeno exército – conseguiu convencê-los a desistir do seu ataque. Entretanto, estava alheio ao fato de que havia uma multidão já varrendo Damasco. Voltou para a cidade em 10 de julho e encontrou o caos estruturado. "Abd el-Kader logo descobriu que as tropas turcas, designadas para proteger a população, tinham sido enviadas para a cidadela ou ficaram observando com interesse enquanto manifestantes estavam furiosamente queimando casas e matando os cristãos."

Naquele momento, Abd el-Kader, o homem que conduziu seu povo muçulmano numa guerra contra os invasores cristãos por quinze anos, sabia o que tinha que fazer. E sabia que tinha que fazê-lo rapidamente. Primeiro, ele e os seus homens correram para o consulado francês para criar um porto seguro. Os franceses foram imediatamente acompanhados pelos diplomatas russos, americanos, holandeses e gregos que procuravam fugir do local. Em seguida:

"Durante toda a tarde de 10 de julho, Abd el-Kader entrou no caos do bairro cristão, com seus dois filhos,  gritando: "Cristãos, venham comigo! Sou Abd el-Kader, filho de Muhi al-Din, o argelino ... Confiem em mim. Eu vou protegê-los". Durante várias horas os argelinos levaram hesitantes cristãos para a sua casa fortaleza em Nekib Allée, cujos dois andares interiores e os grandes pátios iriam se tornar num refúgio para as desesperadas vítimas.

"Quando a noite estava avançada, hordas de saqueadores - curdos, árabes, drusos - entraram no bairro e inflaram a multidão furiosa, que, já saturada de despojos, começou a clamar por sangue. Homens e meninos de todas as idades foram obrigados a apostatar e, em seguida, foram circuncidados no local ... As mulheres foram estupradas ou levadas para partes distantes do país, onde foram colocadas em haréns ou casadas instantaneamente com muçulmanos ", escreveu Churchill sobre estes eventos. "Dizer que os turcos não tomaram nenhuma iniciativa para controlar este massacre e destruição seria supérfluo. Eles foram coniventes com tudo isso, instigaram e fizeram parte. Abd el-Kader sozinho ficou entre os vivos e os mortos ".
Abd el-Kader voltou com os seus homens e todos os cristãos podiam agora se sentir em segurança na sua propriedade.
A notícia se espalhou entre os manifestantes que o emir estava protegendo os cristãos. No dia seguinte, uma multidão enfurecida se reuniu em sua porta para protestar. Eles estavam dispostos a tolerar o abrigo dado aos diplomatas, mas exigiram que abrisse mão dos cristãos locais sob sua proteção. Como a multidão ficava ainda mais revoltada, o emir chegou à porta.

"Dá-nos os cristãos", gritava a multidão depois que ele acalmou-a unicamente com a sua presença silenciosa.

"Meus irmãos, o seu comportamento viola a lei de Deus. O que faz vocês pensarem que têm o direito de saírem por aí matando pessoas inocentes? Vocês se afundaram tão baixo que até estão matando mulheres e crianças? Deus não diz em nosso Livro Sagrado que quem mata um homem que nunca cometeu um assassinato ou que tenha criado desordem na terra será considerado como um assassino de toda a humanidade?!"

"Dá-nos os cristãos! Queremos os cristãos! "

"Não disse Deus que não deveria haver nenhuma coação na religião?" O emir em vão respondeu.

"Oh santo guerreiro", gritou um dos líderes do grupo. "Nós não queremos o seu conselho. Por que você mete o nariz no nosso negócio? "

"Você matou cristãos", gritou outro. "Como você pode opor-nos por responder aos seus insultos. Você é mesmo como os infiéis – abre mão daqueles que está protegendo em sua casa ou será punido do mesmo modo como estes que está escondendo "

"Vocês são loucos! Os cristãos que morreram eram invasores e ocupantes que assolaram nosso país. Se agir contra a lei de Deus não os assusta, então pensem sobre o castigo que vão receber dos homens ... Vai ser terrível, eu prometo. Se vocês não vai me ouvirem, então Deus não irá ampará-los com razão - vocês são como os animais que são despertados somente pela visão do capim e água "

"Você pode manter os diplomatas. Dê-nos os cristãos ", gritou a multidão, parecendo mais e mais como os romanos no Coliseu.

"Enquanto um dos meus soldados ainda estiver de pé, vocês não vão tocá-los. Eles são meus convidados. Assassinos de mulheres e crianças, vocês filhos do pecado, tentem tirar um desses cristãos e vão aprender o quão bem lutam os meus soldados. " O emir virou-se para Kara Mohammade. “Pegue minhas armas, meu cavalo. Vamos lutar por uma causa justa, assim como aquela que lutamos antes." "Deus é grande", seus homens gritaram, brandindo suas armas e espadas. Diante dos experientes soldados veteranos do emir, a multidão se dissipou atirando insultos. 
Bem mais de mil refugiados cristãos foram alojados dentro de casa de Abd el-Kader, ficando tão cheia que as pessoas não podiam sentar-se ou deitar-se, e muito menos utilizar as instalações. Abd el-Kader organizou pequenos batalhões com seus homens argelinos para que acompanhassem os cristãos, em grupos de 100, para a cidadela fora da cidade - a mesma cidadela que os drusos tinha originalmente planejado usar para matá-los.
A residência foi finalmente esvaziada e limpa. Abd el-Kader, em seguida, mandou espalhar a notícia que uma recompensa de 50 piastras seria paga por cada cristão que fosse levado para sua casa. Durante cinco dias o emir raramente dormiu, e quando conseguia era numa esteira de palha no hall de entrada de sua residência, onde ele distribuía o dinheiro da recompensa tirado de um saco que ele mantinha ao seu lado. Foi assim que 100 refugiados foram recolhidos, seus argelinos os acompanharam até a cidadela. 
O pior da rebelião terminou em 13 de julho de 1860 - 150 anos atrás. Pelo menos 3.000 cristãos foram mortos antes que tudo tivesse acabado. A Abd el-Kader foi creditado a salvação de mais de 10 mil cristãos, incluindo todo o corpo diplomático europeu. A notícia chegou na França uma semana depois - tanto a respeito do horrível massacre, como do incrível e central papel de Abd el-Kader no combate. Os franceses ficaram em êxtase e pasmados. Editoriais elogiando suas ações foram impressos em jornais de todo o país. Le Gazette de France escreveu: "O emir Abd el-Kader imortalizou-se pela proteção corajosa que deu os cristãos sírios. Uma das mais belas páginas da história do século XIX será dedicada a ele". Outro jornal escreveu: "...Quando a carnificina estava no seu ápice, o emir apareceu nas ruas, como que enviado por Deus "

Abd el-Kader não foi o único muçulmano que se esforçou para defender os cristãos de Damasco da multidão furiosa. Em particular, na área conhecida como Maydan que era a habitação dos muçulmanos mais devotos na cidade, os islâmicos esconderam e protegeram seus vizinhos cristãos da violência. Contudo, Abd el-Kader se tornou o rosto maometano que se levantou em defesa da comunidade cristã e, como tal, as honras e elogios caíram sobre ele.

Os franceses imediatamente concederam a Abd el-Kader, que apenas uma década antes tinha sido o seu maior inimigo, a Legião de Honra francesa. (Isto seria como a América que, em 1987, concedeu a Medalha de Honra do Congresso para Ho Chi Minh). Rússia, Espanha, Prússia, Grã-Bretanha, e até Papa o premiaram com várias distinções. Dos Estados Unidos vieram de presente um par de pistolas colt finamente forjadas - uma fonte afirma que foram feitas de ouro - entregues numa caixa que trazia a inscrição: "Do presidente dos Estados Unidos, a Sua Excelência, o Senhor Abdelkader, 1860. "

(Duas das minhas fontes afirmam que quem enviou o presente foi o Presidente Lincoln e não o Presidente Buchanan. O que tornaria a história ainda melhor - uma dos nossos melhores presidentes, ao invés de um de nossos piores. Lincoln não assumiu o cargo até março de 1861.)

Abd el-Kader era caracteristicamente modesto sobre o seu papel nessa história. Numa carta ao bispo de Argel, escreveu:

"... O que nós fizemos para os cristãos, fizemos para sermos fiéis à lei islâmica e respeitosos com os direitos humanos. Todas as criaturas são parte da família de Deus e os mais amados por Deus são aqueles que fazem o melhor para sua família. Todas as religiões do livro se fundamentam em dois princípios - louvar a Deus e ter compaixão pelas suas criaturas ... A lei de Maomé dá maior importância à compaixão e à misericórdia, e tudo aquilo que preserva a coesão social e nos protege da divisão. Mas aqueles que pertencem à religião de Maomé corromperam isso e é por tal razão que eles estão agora como ovelhas perdidas. Obrigado por suas orações e bons votos... " 
O impacto do massacre foi significativo. Assim que a notícia chegou na França um exército foi enviado para o Líbano. O sultão turco, buscando acabar com qualquer argumento dos franceses para a invasão, despachou o seu próprio exército até Damasco para identificar e processar os perpetradores. No final, mais de 300 homens foram considerados culpados, metade dos quais foram exilados do império. Os outros foram condenados à morte, incluindo o governador, Ahmed Pasha, que foi fuzilado. Mas a questão de quem foi o verdadeiro mandante do massacre - se foram os turcos, que queriam vingança, ou se foram até mesmo os britânicos ou franceses que estavam procurando uma desculpa para ocupar Síria - permanece sem solução até hoje.

Enquanto isso, tantos franceses como ingleses tinham projetos na área e, como na espreita até o dia em que pudessem colonizar a região, foi lançada a idéia da instalação de Abd el-Kader como o governante de Damasco. O único problema era que Abd el-Kader não tinha interesse. Como ele disse a um jornalista francês, "Minha carreira política acabou. Eu não tenho nenhuma ambição de glória mundana. A partir de agora, quero apenas os doces prazeres da família, oração e paz."

Ele foi fiel à sua palavra. Abd el-Kader viveu o resto de seus dias em Damasco e sua residência estava na lista de visita obrigatória de qualquer europeu que chegava na cidade. Em 1869, Abd el-Kader foi influente no convencimento dos árabes na importância do projeto para a construção de canal ligando o Mediterrâneo ao Mar Vermelho, o que ajudou a tornar o Canal de Suez uma realidade.

Abd el-Kader, ademais, viveu uma vida de espiritualidade simples, gastando muito de seu tempo escrevendo um comentário sobre as obras de Ibn Arabi, o famoso muçulmano erudito do séc. XIII. Ele morreu de insuficiência renal em 25 de maio de 1883 e foi sepultado junto ao túmulo de Ibn Arabi, em Damasco. O New York Times publicou um obituário poucos meses antes de sua morte, que dizia:

"Um dos mais hábeis governantes e um dos capitães mais brilhantes do século, se as estimativas feitas por seus inimigos estão corretas, está agora, com toda a probabilidade, se aproximando ao final de sua carreira tempestuosa ... A nobreza de seu caráter, não menos do que o brilho de suas façanhas no campo, há muito ganhou a admiração do mundo ... Os grandes homens não são tão abundantes a ponto de darmos o luxo de perdê-los sem uma palavra. Se ser um patriota, um soldado cujo gênio é inquestionável, cuja honra é inoxidável, um estadista que poderia fazer das tribos selvagens da África num formidável inimigo, um herói que poderia aceitar a derrota e o desastre sem um murmúrio - se tudo isso constitui um grande homem, Abd-el-Kader merece ser classificado entre os primeiros dos poucos grandes homens do século. " 
Citações retiradas do livro de John W. Kiser, "Commander of the Faithful: The Life and Times of Emir Abd el-Kader"

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

“Graças a Deus pelos sauditas” ou como os EUA e a Arábia Saudita assolaram o Oriente Médio

A Arábia Saudita e o Catar são os dois mais fortes aliados dos EUA no mundo árabe. Contudo, como adeptos do wahhabismo são os articuladores dos movimentos jihadistas em todo o mundo islâmico. Ademais, através de Ryad e Doha os americanos captam o apoio do Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes. A aliança de Washington com a Casa Saud selou o destino do Oriente Médio, inaugurando um ciclo de violência militar e terrorista: Afeganistão, Iraque, Síria. Ainda que o “saudismo” seja o combustível ideológico de diversos movimentos fundamentalistas  - Talibã, Al-Qaeda, Lashkar-e-Taiba, ISIL - os EUA, através das palavras do Sen. McCain, louvam o seu papel no contexto regional: “Graças a Deus pelos sauditas e pelos nossos amigos no Catar” 

O ISIL, nascido como um grupo rebelde na Síria, cresceu com o apoio financeiro da elite da Arábia Saudita e do Catar. Ambos são os únicos países islâmicos oficialmente wahhabitas, ou seja, adeptos de uma versão reformada do Islã conhecida pelo seu anacronismo. McCain, falando em nome do governo dos EUA, exalta o papel de Ryad no financiamento dos movimentos de oposição ao regime Assad. O Príncipe Bandar bin Sultan, líder da Agência Saudita de Inteligência e ex-embaixador da Arábia Saudita em Washington, foi o grande articulador da aliança entre os rebeldes sírios e o governo dos EUA. Entre as facções apoiadas estavam o Exército Livre da Síria, considerado “moderado” em comparação com os outros segmentos, o Jabhat al-Nusra e o ISIL.

Ainda que a ação do governo saudita fosse fundamental para construção de uma rede de comunicação entre os fundamentalistas (“rebeldes”), grande parte do apoio ao ISIL partia de indivíduos ricos nos estados árabes do golfo. Às vezes este suporte gozava do assentimento tácito e da aprovação de tais regimes. O intervencionismo wahhabita foi duramente criticado pelo Primeiro-Ministro do Iraque, al-Maliki, que acusou publicamente a Arábia Saudita e o Catar de financiarem o ISIL e incitarem o jihadismo em todo o mundo islâmico.  

Outro fator contextual que incrementa ainda mais o ciclo de violência é o pressuposto anti-xiita do discurso wahhabita. Já em suas origens essa seita tomou para si a luta pela “purificação” islâmica, combatendo as “idolatrias” e as “perversões” internas da religião. A guerra contra o xiismo se tornou em ponto característico do wahhabismo. Paquistão, Afeganistão, Bahrein, Yêmen etc são países que sofrem com grupos terroristas que sistematicamente realizam atentados contra as comunidades "shias". A Arábia Saudita difundiu essa “cruzada” em todo o mundo muçulmano e o ISIL levou à plenitude este ensinamento. Em recente pronunciamento um dos líderes do “Califado Islâmico” afirmou que os seus maiores inimigos não são os “infiéis” (judeus, cristãos), mas os “muçulmanos degenerados” (xiitas, alauítas). Não estranhamente a Síria é governada por uma família alauíta (seita com origem em heresias do xiismo) e no Iraque pós-Saddam os “shias” se tornaram no maior grupo político.  

Em Mosul, santuários e mesquitas xiitas foram destruídos e nas proximidades da cidade de Tal Afar 4.000 casas foram tomados pelos combatentes do ISIL como "espólio de guerra".  Isso não é uma novidade dentro dos paradigmas wahhabitas. A Casa Saud destruiu todas as mesquitas xiitas que se encontravam no seu reino e em 2007 a Al-Qaeda explodiu a Mesquita al-Askari, em Bagdá, um dos lugares mais sagrados do xiismo, onde estavam sepultados o 10º e o 11º Imames, objetos de alta veneração.  Recentemente a Arábia Saudita enviou tropas para suprimir os protestos xiitas no Bahrein, país aliado na região que é governado por uma monarquia sunita, a Casa Al-Khalifa. Por mais que 50%-60% da população seja seguidora do xiismo, o regime estruturou uma política de sistemática discriminação. 

O ISIL, portanto, é apenas um filho legítimo saudita, tanto em sua perseguição aos xiitas como aos cristãos. Nascido da ingerência de Ryad e Washington na Síria, o “Califado Islâmico” foi muito além da derrubada do regime Assad: passou a defender a instauração de uma nova realidade geopolítica. O desespero americano em apoiar grupos de oposição aos seus desafetos o levou a armar os seus futuros inimigos, como o Talibã (usado contra os soviéticos) e agora o ISIL. Em ambos os casos existe o aporte ideológico da Arábia Saudita. Tanto o fundamentalismo afegão quanto a sua versão iraquiana comungam dos axiomas do wahhabismo. 

Ainda que atualmente a Arábia Saudita tenha cortado os seus vínculos oficiais com o ISIL, o fato incontentável é que o país é um celeiro de adeptos e financiadores do fundamentalismo. A ideologia wahhabita ensinada nas escolas e pregada do alto dos minbares é o maior combustível para o jihadismo em todo o mundo islâmico. Ademais, Ryad sempre tergiversa em sua condenação ao terrorismo, como em seu repúdio a Al-Qaeda, mais motivado pelos ataques perpetrados dentro do país do que em relação às atrocidades realizadas no Ocidente. Recentemente o Rei Abdullah afirmou que a Europa e os EUA seriam os próximos alvos do ISIL, numa mudança de postura recebida por muitos críticos de maneira positiva. Contudo, analisando dentro de um contexto mais amplo, entende-se essa condenação ao “Califado Islâmico” como uma tentativa desesperada de minar o crescente apoio interno ao ISIL. Num passado recente os sauditas sofreram uma grande derrota quando da adesão de diversos líderes políticos do Reino à ideologia da Irmandade Muçulmana, que adota o mesmo discurso radical mesclado com uma metodologia política mais moderna. A coesão e a manutenção do regime estão associadas com o vigor da união entre a Casa Saud e a Casa Al ash-Sheikh (descendentes de Muhammad ibn al-Wahhab, fundador da seita wahhabita). Por mais que os EUA tenham rompido o seu apoio aos “rebeldes” e Ryad agora reforce o coro contrário ao ISIL, é notório que os dois países são os grandes responsáveis, tanto no aspecto logístico como ideológico, pela explosão do terrorismo que hoje assola o Oriente Médio.