quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Quem são os Ayatollahs?

Grande Ayatollah Ali Khamenei (Irã), Grade Ayatollah Isa Qassim (Bahrein), Grande Ayatollah Ali al-Sistani (Iraque)
Quase sempre as notícias a respeito do mundo islâmico são acompanhadas de termos desconhecidos pelo grande público ocidental. Dentre as terminologias usadas, muitas fazem referência à hierarquia religiosa muçulmana. Os famosos “Ayatollahs” talvez sejam os mais emblemáticos. Desde a Revolução Islâmica no Irã os “Sinais de Deus” (Ayat - Allah) se tornaram mundialmente conhecidos e vistos como encarnação do anacronismo religioso. Contudo, a realidade é muito mais complexa. “Ayatollah” é um título honorífico usado dentro do islamismo xiita, concedido aos “mujtahids” de destacado conhecimento e grande popularidade. O seu uso é apenas consolidado no séc. XX, durante os períodos de reformas na dinastia Qajar, que então governava a Pérsia.

A hierarquia xiita está intimamente associada com o ocultamento do Al-Mahdi. Este é o 12 Imam do Xiismo e o último da linha sucessória iniciada com Ali ibn Abu Taleb. Para os xiitas o derradeiro imam, Muhammad ibn Hassan, nascido em 869, viveu dois períodos distintos: a pequena ocultação, com duração de 72 anos, durante a qual se comunicava com a comunidade muçulmana através de representantes (quatro ao todo) e a grande ocultação, que chega até os dias presentes. O seu ressurgimento ocorrerá durante os eventos escatológicos, quando instaurará um reino de justiça, seguido da vinda de Jesus (Isa). Com a ausência do Imam Al-Mahdi, e tendo em vista a centralidade da autoridade espiritual no islamismo xiita, os ulemás iniciaram a estruturação da sua hierarquia. 

Na jurisprudência xiita a noção de “taqlid” (imitação) é fundamental. Pode ser entendida como a referência que alguém que não possui o conhecimento das ciências islâmicas busca num jurista especializado em assuntos legais. Este jurisprudente qualificado (faqih) é considerado um “marja”, por causa de sua experiência em decisões judiciais decorrentes das fontes da lei islâmica, e quem o segue é “muqallidin”. Contudo, antes de atingir este nível de autoridade e seguimento, o clérigo é um “mujtahid”, isto é, alguém que galgou um nível completo de conhecimento da jurisprudência em algum grande seminário xiita, e obtém a licença para emitir um juízo independente sobre aspectos legais. O “marja”, portanto, é o “mujtahid” que não apenas detém o conhecimento para si como passa a guiar oficialmente a outros fiéis. O xiismo sempre valorizou a autoridade espiritual e legal, que se encarnava na figura dos Imames. Entretanto, desde o ocultamento do Al-Mahdi um vácuo de poder foi formado. Por isso que com a consolidação da hierarquia o “taqlid” se tornou em preceito obrigatório: todos os fiéis devem estar vinculados a um “marja”.

Contudo, “Ayatollah” pode ser definido como um título honorífico. Ao longo da história do xiismo e do Irã diversos epítetos foram criados para se referir aos ulemás, tanto na tentativa de dignificar os seus trabalhos como também para desenvolver uma hierarquia mais estruturada. Entretanto, apenas no séc. XX, mais precisamente com o advento da Revolução Constitucionalista Iraniana que o uso deste título se proliferou. Nesse período a cidade de Qom emergia como o centro da teologia xiita, superando até mesmo a importante Najaf, no Iraque. O aprimoramento dos estudos, com a formação constante de clérigos capazes nas ciências islâmicas, necessitou uma maior estratificação. Consequentemente, surge o “Ayatollah al-Ozam”, ou seja, o Grande Ayatollah, título concedido aos mais importantes dentre os mais capazes. 

Outros títulos também continuam sendo usados, como “Hojat al Islam”, isto é, "Autoridade sobre o Islã". Em seguida está o “Mubellegh Risala”, ou "Portador da Mensagem". Enquanto “mujtahid” muitas vezes refere-se aos clérigos em geral, também é uma classificação específica, o que denota a formação recebida em algum seminário xiita. Na parte inferior da pirâmide hierárquica estão os estudantes religiosos, “talib ilm”. Além dos fatores óbvios, como a graduação necessária para a promoção ao posto de “mujtahid”, o crescimento dentro da estrutura religiosa xiita é uma questão bastante subjetiva. Dois aspectos importantes são o tamanho e a qualidade dos estudantes que seguem o clérigo e a autoria de trabalhos acadêmicos sobre o Islã. Após receber a autorização (ijazah) para realizar “ijtihad” (reflexão independente), o estudante se torna oficialmente num clérigo, inclusive livre da obrigação do “taqlid”, podendo ser agraciado com o título de “Ayatollah”, ou não. Para se tornar um “marja” e “Grande Ayatollah” é necessário ter em seu currículo alguma passagem nos grandes seminários xiitas, Najaf ou Qom, crescendo em prestígio aos olhos dos fiéis e dos ulemás. Recebendo a autorização para ser “marja' at-taqlid” do conselho de um dos centros de formação, o religioso atinge a condição de “Grande Ayatollah”.

No Irã, de modo singular, alguns Ayatollahs exercem um poder político. Além do Supremo Líder, Ayatollah Khamenei, responsável pela nomeação dos mais importantes cargos da República e norteador da política iraniana, há os clérigos que compõem o Conselho dos Guardiões, uma espécie de Suprema Corte, responsável pela averiguação das leis aprovadas pelo Parlamento, tendo como parâmetros a Constituição e a Sharia. Este organismo é composto por seis clérigos e seis juristas laicos. Nos outros países, como Iraque, Bahrein, Índia, Paquistão, Líbano, os Ayatollahs não exercem um poder político de fato, mas são agentes importantes na liderança da comunidade islâmica. 

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