sábado, 9 de agosto de 2014

Quem é quem no atual cenário do Oriente Médio


Califado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) – O Califado Islâmico do Iraque e do Levante, criado em 2004,  é um subproduto da seita wahhabita. Surge de um duplo contexto, o fortalecimento do poder xiita e curdo dentro do governo em Bagdá e a crescente insurgência jihadista ao redor do mundo. O ISIL congrega combatentes de diversos países unidos na busca pela restauração da unidade da Ummah, sob a liderança do Califa - Khalifah Rasulullah (Vice Regente do Mensageiro de Deus).  O “Califado Islâmico” reproduz com fidelidade os anacronismos da interpretação dado pelo wahhabismo ao Corão e aos Ahadith. Recentemente, após a tomada de Tikrit, o novo governador afirmou em entrevista que todos os muçulmanos eram infiéis e que deveriam ser executados a menos que prestassem aliança ao Califa. Ainda afirmou que o Imam Abu Hanifa, fundador da maior e mais antiga escola de jurisprudência sunita, Hanafi, era uma desgraça que introduziu pensamentos heréticos no islã. Destacou que o ISIL pretende estabelecer em Bagdá a capital do califado e destruir os sinais das religiões “pagãs”, como igrejas e mesquitas xiitas em todo o país. Aos cristãos resta a conversão, a morte ou uma vida como escória da sociedade.  A violência usada pelo Califado Islâmico contra as minorias religiosas e outros segmentos islâmicos é de uma brutalidade nunca antes vista. Quando questionado porque não lutavam contra Israel, um porta-voz do ISIL afirmou através do twitter: 

"A maior resposta a esta pergunta está no Alcorão, onde Allah nos diz a respeito dos inimigos que estão próximos - os muçulmanos que se tornaram infiéis – e de como eles são mais perigosos do que aqueles que já eram infiéis”

O wahhabismo, uma seita sunita, é intransigente em suas posições doutrinais. Qualquer variação dentro dos seus parâmetros de ortodoxia é vista como atestado de incredulidade. Se um fiel muçulmano é acusado de idolatria, e para tal poucos são os requisitos, torna-se em alvo legal da pena de morte. O centro da sua ideologia genocida está justamente nesta banalização do “takfir”, a afirmação da excomunhão, que endossa a matança desenfreada em nome da integridade da pureza islâmica. Os xiitas sempre foram os alvos clássicos da perseguição wahhabita, contudo, as outras escolas sunitas também eram consideradas como defensoras de heresias e propagadoras de infidelidades. 

Grau de intolerância: 10 com louvor


Escolas de Jurisprudência (Madhahib) - Estas são correntes sunitas de interpretação da jurisprudência  (fiqh). Todas surgiram no período de consolidação do pensamento islâmico, fundadas entre o séc. VIII e IX. As quatro grandes escolas são: Hanafi, fundada por Abu Hanifa, Maliki, fundada por Malik ibn Anas, Shafi’i, fundada por Abu Abdullah ash-Shafi’i, e Hambali, fundada por Ahmad ibn Hanbal. Não podem ser consideradas seitas e nem divisões internas. Todos os sunitas partilham da mesma doutrina, com diferenças apenas de caráter legislativo ou ritualístico.  Contudo, com o surgimento do wahhabismo no séc. XVIII grande parte desta unidade foi rompida com acusações de heresia. 

Grau de intolerância: 1 a 7


Xiitas – O islã xiita representa cerca de 20% da população muçulmana e 38% da população do Oriente Médio. É a crença majoritária do Irã, do Iraque, do Azerbaijão e do Bahrein, e parcela significativa, com aproximadamente 40%, do Líbano, do Iêmen e do Kuwait. Ainda há uma presença forte do xiismo no Paquistão, na Índia, no Afeganistão, na Síria e na Arábia Saudita, entre 15% e 20%. O islamismo xiita aceita o Corão e a Ahl al-Bayt (Família de Muhammad) como as duas fontes de autoridade. Erroneamente foi criada a idéia de que apenas os sunitas são seguidores da Suna, isto é, da Tradição. Na realidade os xiitas também aceitam a Suna, mas admitem que apenas os Imames Infalíveis, ou seja, os descendentes de Maomé através do casamento do seu primo Ali ibn Abu Taleb, 1º Imam, com a sua filha, Fátima az-Zahra, têm autoridade de compreendê-la. Ademais, os ensinamentos destes imames também fazem parte da Tradição. De certo modo a estrutura de autoridade xiita é similar à noção católica de Magistério. 

O xiismo é mais propenso à filosofia e à mística. Ainda hoje o rigor escolástico e o estudo da metafísica são partes do currículo para a formação dos seus ulemás. De modo geral são tolerantes ao cristianismo, até mesmo por fatores históricos. Os três países de destacada influência xiita, Líbano, Iraque e Irã, sempre tiveram uma forte comunidade cristã, o que possibilitou uma convivência pacífica. Na política libanesa, xiitas e cristãos são aliados. No Irã o cristianismo tradicional (católico, caldeu, armênio e assírio) é legal e tem participação política garantida pela constituição. O protestantismo e a fé bahai, que tem uma complexa origem em movimentos revolucionários, são ilegais.

Grau de intolerância: 2 a 6


Curdos – Os curdos são um grupo étnico que habita o – inexistente – Curdistão, uma região que abarca partes do Irã, Iraque, Síria, Turquia, Armênia e Geórgia. Etnicamente são um ramo dos povos iranianos. Do ponto de vista religioso os curdos, em sua maioria, são muçulmanos sunitas, mas há também curdos judeus, todos já imigrados em Israel, e curdos cristãos. Contudo, a religião tradicional curda é o iazdânismo, de caráter monoteísta e universalista, sendo parte das chamadas “religiões iranianas”, dentre as quais se encontram o zoroastrismo e o maniqueísmo. O iazdânismo tem variações internas, formando três segmentos distintos. Os yazidis do Iraque fazem parte de um desses grupos. Esta crença é uma mescla de tradições pagãs persas, com doutrinas islâmicas e cristãs, como os preceitos de cinco orações diárias e a realização de batismos. Creem, ademais, que Ali e Jesus são deidades. Geograficamente, com a implosão do Império Otomano após a I Guerra Mundial, os Aliados remodelaram as fronteiras do Oriente Médio. A criação do Curdistão estava aprovada. Contudo, a ascensão política de Kemal Ataturk seguida da reconquista de áreas tomadas pelos europeus obrigou a reformulação do Tratado de Sèvres. A Turquia incorporou partes do Curdistão e da grande Armênia. A França e a Inglaterra, com a Síria e o Iraque, também tomaram os territórios curdos. Acabava-se a mais concreta possibilidade do surgimento da nação curda. Hoje, com a crise interna no Iraque, o Curdistão iraquiano consolida ainda mais a sua independência. O apoio recebido do Ocidente e do próprio governo de Bagdá no combate ao ISIL já acena como um sinal da sua aceitação internacional.

Atualmente os católicos caldeus estão emigrando em massa para o Curdistão iraquiano, onde encontram proteção e liberdade religiosa.

Grau de intolerância: 1


Drusos – Os drusos formam uma comunidade étnico-religiosa presente no Líbano, na Síria, na Jordânia, na Turquia e em Israel. A origem de sua doutrina está na degeneração do xiismo ismaelita, no período do Califado Fatímida no Egito. Surge através de perspectivas heréticas xiitas mescladas com a gnose e alguns parâmetros cristãos. Ainda tendo origem árabe, os drusos se tornaram num grupo socialmente separado, principalmente pelo pouco intercâmbio com aqueles que professavam outra fé, seja através de casamentos com não-drusos, o que não é permitido, como por meio de conversão e proselitismo, que também são proibidos. Do ponto de vista religioso os drusos entendem a sua crença como a perfeição do monoteísmo, depois do advento do judaísmo, cristianismo e islamismo. Com forte sentido esotérico, criticam os preceitos ritualísticos das religiões, eliminando qualquer tipo de cerimonialismo do seu corpo doutrinal. A religião drusa tem o seu ponto de partida na crença que Al-Hakim bi-Amr Allah, Califa Fatímida, era a encarnação de Deus e que ressurgirá nos fins dos tempos para instaurar um era de glória para os verdadeiros crentes. Os drusos são herdeiros da gnose ismaelita, principalmente no modo como entendem o profetismo na revelação. Também há uma certa semelhança com crenças orientais no que se refere à transmigração da alma, numa sequência de encarnações que tende à Mente Cósmica. 

No Líbano moderno, onde a população drusa é significativa, as tensões entre os diversos grupos são constantes. Os drusos historicamente têm atritos com os maronitas e com os xiitas e mantinham amistosa relação com a URSS e com Israel. O governo de Telavive reconhece os drusos israelenses como uma etnia própria. Ademais, são politicamente atuantes e militarmente engajados, inclusive com serviço obrigatório nas Forças de Defesa de Israel.

Grau de intolerância: 2 a 4


Alauítas – Os alauítas, assim como os drusos, são um grupo étnico-religioso de origem árabe que ao longo dos séculos foi se diferenciando culturalmente. Durante o mandato francês na região, após o fim do Império Otomano, formaram o Estado alauíta, na costa síria, até a incorporação na República Síria em 1936. Ainda que se considerem muçulmanos xiitas, para a grande maioria da comunidade islâmica, especialmente sunita, o alauísmo é uma outra religião formada pela mescla de doutrinas xiitas com a gnose e o neo-platonismo. O papel de Ali ibn Abu Taleb, 1º Imam do xiismo, na crença alauíta é fundamental, disto derivando o próprio nome “Alawīyyah”, seguidores de Ali. Ainda que a estrutura dos seus ensinamentos religiosos seja pouco conhecida, sabe-se que em sua crença Ali é considerado como uma manifestação da essência de Deus, alçando um status próximo da deidade. Também creem que eram luzes divinas que por desobediência foram expulsas do céu. No aspecto externo seguem todos os preceitos islâmicos, como as orações e os jejuns. Desde o golpe de estado sírio em 1970 realizado Bashar al-Assad I, os alauítas tornaram-se numa elite política, ainda que represente apenas 15% da população.

Sendo duramente perseguidos pelos wahhabitas na Síria, os alauítas são próximos aos cristãos. A sua própria doutrina tem certa influência do cristianismo, principalmente no festejo de festas como o Natal e o Domingo de Ramos. 

Grau de intolerância: 2

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