domingo, 31 de agosto de 2014

Pontos da “Evangelii Gaudium” que precisam de esclarecimento

Por Samir Khalil Samir S.J. 

Tradução "Islamidades"

1.    Os muçulmanos “connosco adoram o Deus único e misericordioso” (n. 252)

Tomarei com cautela esta frase. É verdade que os muçulmanos adoram um Deus único e misericordioso. Entretanto, esta frase sugere que as duas concepções de Deus são iguais. Pelo contrário, no cristianismo Deus é Trindade em Sua essência, pluralidade unida no amor. É um pouco mais que só clemência e misericórdia. Temos duas concepções bastante diferentes da unicidade divina. A islâmica caracteriza Deus como inacessível. A visão cristã da unicidade trinitária destaca que Deus é Amor que se comunica: Pai-Filho-Espírito Santo, ou bem Amante-Amado-Amor, como sugeria Santo Agostinho.
 
Ademais, o que significa a misericórdia do Deus islâmico? Que Ele pratica misericórdia com quem quer e não a pratica com aqueles que o desagradam.  “Deus faz entrar em Sua misericórdia a quem Ele quer” (Corão 48:25). Estas expressões se encontram em forma quase literal no Antigo Testamento (Ex 33, 19). Mas não se chega jamais a dizer que “Deus é Amor” (1Jo 4, 16), tal como se expressa São João.
 
No caso do Islã, a misericórdia é a do rico que se inclina até o pobre e o concede algo. Contudo, o Deus cristão é Aquele que desce até o pobre para elevá-lo ao Seu nível, não mostra Sua riqueza para ser respeitado (ou temido) pelo pobre: se doa a si mesmo para fazer viver.

2.    “Os escritos sagrados do Islão conservam parte dos ensinamentos cristãos” (n. 252)

É verdade num certo sentido, mas isso também pode ser também ambíguo. É verdade que os muçulmanos retomam palavras ou feitos dos Evangelhos canônicos, por exemplo, o relato da Anunciação se encontra quase literalmente nos capítulos 3 (“A família de Imran”) e 19 (“Mariam”).

Entretanto, mais freqüentemente o Corão se inspira nos relatos piedosos dos Evangelhos apócrifos, e não extraem o sentido teológico que se encontra neles e não dão a estes feitos ou palavras o sentido que têm na realidade, não por malícia, senão porque não têm a visão global da mensagem cristã.

3.    A figura de Cristo no Corão e no Evangelho (n. 252)

O Corão se refere a “Jesus e Maria [que] são objetos de profunda veneração”. Para dizer a verdade, Jesus não é objeto de veneração na tradição muçulmana. Pelo contrário, no caso de Maria se pode falar de uma veneração, em particular por parte das mulheres muçulmanas, que vão voluntariamente aos lugares de peregrinação mariana.

A ausência de veneração para Jesus Cristo se explica provavelmente pelo fato de que, no Corão, Jesus é um grande profeta, famoso pelos seus milagres a favor da humanidade pobre e enferma, mas não igual a Maomé. Só por parte dos místicos se pode notar uma certa devoção, eles também o chamam de “Espírito de Deus”.

Na realidade, tudo o que se diz de Jesus no Corão é o oposto aos ensinamentos cristãos. Ele não é Filho de Deus, é um profeta e basta. Não é nem sequer o último dos profetas, porque o “selo dos profetas” é Maomé (Corão 33:40). A revelação cristã é vista como uma etapa até a revelação última, trazida por Maomé, isto é, o Islã.

4.    O Corão se opõe a todos os dogmas cristãos fundamentais

A figura de Cristo como segunda pessoa da Trindade é condenada. No Corão se diz de forma explícita ao cristãos: “Oh, gente da Escritura, não se excedam em sua religião e digam de Deus mais que a verdade. O Messias Jesus, filho de Maria, não é mais que um mensageiro de Deus, uma de suas palavras que Ele põe em Maria, um Espírito [que provem] dEle. Creiam então em Deus e em seus mensageiros. Não digam ‘Três’. Parem! Será melhor para vocês. Em verdade Deus é um deus único. Teria um filho? Glória a Ele” (Corão 4:171). Os versículos contra a Trindade são muito claros e não têm necessidade de tantas interpretações.

O Corão nega a divindade de Cristo: “Oh, filho de Maria, foste tu que disseste às pessoas: ‘Tomam-me a mim e a minha mãe como duas divindade além de Deus?” (Corão 5:116). Jesus o nega!

Por último, o Corão nega a redenção. Diretamente se afirma que Jesus Cristo não morreu na cruz, mas sim que foi crucificado um outro: “Não o mataram, não o crucificaram, mas os pareceu que sim” (Corão 4:157). Deste modo Deus salvou Jesus da malícia dos judeus. Então Cristo não salvou o mundo!

Em síntese, o Corão e os muçulmanos negam os dogmas essenciais do cristianismo; a Trindade, a Encarnação e a Redenção. Se deve agregar que este é seu direito mais absoluto. Portanto não se pode dizer que “os escritos sagrados do Islão conservam parte dos ensinamentos cristãos”. Deve-se falar simplesmente do “Jesus corânico” que não tem nada a ver com o Jesus dos Evangelhos.


O Corão cita Jesus porque pretende completar a revelação de Cristo para exaltar Maomé. No resto, vendo como Jesus e Maria atuam no Corão, nos damos conta de que eles não fazem mais que aplicar as orações e o jejum segundo o Corão. Maria é certamente a figura mais bela entre todas as apresentadas no Corão: é a Virgem Mãe, que nenhum homem jamais tocou. Contudo, não pode ser a Theotokos, mas sim uma boa muçulmana.

Os pontos mais delicados

1.    Ética no Islã e no cristianismo (252)

A última frase deste parágrafo da “Evangelii Gaudium” diz, ao falar dos muçulmanos:  “Reconhecem também a necessidade de Lhe responder com um compromisso ético e com a misericórdia para com os mais pobres”. Isto é verdade e a piedade para com os pobres é uma exigência do Islã. Entretanto, parece-me que há uma dupla diferença entre a ética cristã e a muçulmana.

A primeira é que a ética muçulmana não é sempre universal. Trata-se freqüentemente de ajuda dentro da comunidade islâmica, enquanto a obrigação de ajuda, na tradição cristã, é por si universal. Nota-se, por exemplo, quando há uma catástrofe natural em alguma região do mundo, que os países de tradição cristã ajudam sem considerar a religião de quem é ajudado, já os riquíssimos países muçulmanos (os da Península Arábica, por exemplo) não fazem caso.

A segunda diferença é que o Islã vincula ética e legalidade. Quem não jejua durante o mês do Ramadã comete um delito e é passível de pena (em muitos países). Cumpre-se o  jejum previsto, desde a madrugada até o por do sol, perfeitamente, ainda que na sequência do por do sol se coma até a madrugada do dia seguinte, mais e melhor do que se come habitualmente: “se comem as melhores coisas e em abundância”, como me contavam alguns amigos muçulmanos egípcios. Parece que não há outro significado no jejum senão o de obedecer a lei mesma do jejum. O Ramadã se converte no período no qual os muçulmanos comem mais, e comem coisas mais deliciosas. No dia seguinte ninguém trabalha, dado que por passar a noite comendo ninguém dormiu. Contudo, do ponto de vista formal todos jejuaram durante algumas horas. Há, pois, uma ética legalista: se você faz isto, você está sendo justificado. É uma ética superficial.

Já o jejum cristão, pelo contrário, é algo que tem como fim aproximar-se intimamente do sacrifício de Jesus, assim como a solidariedade com os pobres. Não é o momento onde se recupera aquilo que não se comeu.

Se alguém aplica a lei islâmica, tudo está em ordem. O fiel não pretende ir além da lei. A justiça é requerida pela lei, mas não é superada. Por isso, não está no Corão a obrigação do perdão. Pelo contrário, no Evangelho Jesus pede para que perdoem de modo infinito (setenta vezes sete, cf. Mt 18, 21-22). No Corão a misericórdia não chega jamais ao amor.

O mesmo vale para a poligamia: pode-se ter até quatro esposas. Se quero ter uma quinta, basta repudiar a uma delas, quiçá a mais velha, e tomar uma esposa mais jovem. Ao ter sempre quatro esposas estou na legalidade perfeita.

A mesma coisa vale, por exemplo, para o homossexualismo. Em todas as religiões é um pecado, mas para os muçulmanos é também um delito que deveria ser castigado com a morte. No cristianismo é um pecado, mas não um crime. O motivo é óbvio: o Islã é religião, cultura, sistema social e político, é uma realidade integral, e assim está concebida no Corão. O Evangelho, por sua vez, distingue claramente a dimensão espiritual e ética da dimensão sociocultural e política.

O mesmo vale para a pureza, como explica de forma clara Cristo aos fariseus: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. (Mateus 15, 11)

2.    “Os fundamentalismos de ambos os lados” (n. 250 e 253)

Ademais,, há dois aspectos que queria criticar. O primeiro é aquele onde o Papa coloca juntos todos os fundamentalismos. No N.250 ele diz: “Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados.”

O outro aspecto é a conclusão da seção sobre a relação com o Islã que termina com esta frase: “Frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.” (n. 253)

Pessoalmente eu não colocaria os dois fundamentalismos no mesmo plano: os fundamentalistas cristãos não portam armas, o fundamentalismo islâmico é criticado primeiramente e precisamente pelos próprios muçulmanos porque este fundamentalismo armado busca reproduzir o modelo maometano. Em sua vida, Maomé liderou mais de 60 guerras. Agora bem, se Maomé é o modelo excelente (como diz o Corão em 33:21), não surpreende que alguns muçulmanos usem sua violência à imitação do fundador do Islã.

3.    A violência no Corão e na vida de Maomé (n. 253)

Por último, o Papa menciona a violência no Islã. No parágrafo 253 lê-se: “o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.”

Esta frase é belíssima, e expressa uma atitude muito benévola do Papa ao Islã. Entretanto, parece-me que ela expressa mais um desejo do que uma realidade. Que a maioria dos muçulmanos possa ser contrária à violência também é real. Contudo, dizer que o verdadeiro Islã é contrário a toda violência não me parece certo: a violência está no Corão. Para dizer, ademais, que “uma interpretação adequada do Corão” se opõe a esta mesma violência são necessárias muitas explicações. Basta recordar os capítulos 2 e 9 do Corão.

Sem embargo, é verdade quando o Pontífice afirma sobre a necessidade de uma “interpretação adequada” dentro do Islã. Este caminho tem sido percorrido por alguns eruditos, mas não é suficientemente forte para contrastar ao que é recorrente na maioria. Esta minoria busca reinterpretar os textos corânicos que falam da violência, mostrando que eles estão ligados ao contexto da Arábia da época e estavam ligados à cosmovisão político-religiosa de Maomé.

Se o Islã quer permanecer hoje nesta leitura ligada ao tempo de Maomé, então sempre haverá violência. Contudo, se o Islã – e há um bom número de místicos que o hão feito – quer encontrar uma espiritualidade profunda, então a violência não é aceitável.

O Islã se encontra frente a uma encruzilhada: ou a religião é um caminho para a política e para uma sociedade politicamente organizada, ou a religião é uma inspiração para viver com mais plenitude e amor.

Aquele que critica o Islã a respeito da violência não faz uma generalização injusta e odiosa: mostra as questões presentes, vivas e sangrentas no mundo muçulmano.

No Oriente se compreende muito bem que o terrorismo islâmico está motivado religiosamente, com citações, orações e fatwas por parte dos imames que fomentam a violência. O fato é que no Islã não há uma autoridade central que corrija as manipulações. Isto faz com que cada imam se torne um mufti, uma autoridade nacional que pode emitir juízos inspirados pelo Corão, até chegar a ordenar que se mate.

Conclusão: uma “interpretação adequada do Corão”

Para concluir, o ponto verdadeiramente importante é o da “interpretação adequada”. No mundo muçulmano o debate mais forte – que é também o mais proibido – é precisamente o da interpretação do livro sagrado. Os muçulmanos crêem que o Corão saiu de Maomé, completo, na forma que conhecemos. Não existe o conceito de inspiração do texto sagrado, o qual dá espaço para uma interpretação do elemento humano presente na palavra de Deus.

Tomemos um exemplo. No tempo de Maomé, com tribos que viviam no deserto, o castigo para um ladrão era cortar a mão. Para que isso servia? Qual era a finalidade deste castigo? Não permitir que o ladrão continuasse roubando. Agora devemos perguntar-nos: Como podemos salvaguardar hoje esta finalidade, isto é, que o ladrão não roube? Podemos utilizar outros métodos em lugar do corte da mão?

Quando encontro amigos muçulmanos, trago à luz que hoje em dia é necessário interrogar-se sobre a “finalidade” (maqased) que tinham as indicações do Corão. Os teólogos e os juristas muçulmanos dizem que devem buscar as “finalidades da Lei divina” (maqisid al-sharia). Esta expressão corresponde ao que Evangelho chama “o espírito” do texto, em oposição à letra. É necessário buscar a intenção do texto sagrado do Islã.

Vários eruditos muçulmanos falam da importância de descobrir “a finalidade” dos textos corânicos para adequar o texto do Corão ao mundo moderno. Parece-me que isto está muito próximo daquilo que o Santo Padre intenta sugerir ao falar de uma “interpretação adequada do Corão”.   
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Pe. Samir Khalil Samir S.J nasceu no Cairo, Egito. Ingressou na Sociedade de Jesus em 1955, estudando na França. Especializou-se em Filosofia, Teologia e Estudos Islâmicos. Foi professor do Pontifício Instituto Oriental, em Roma, e em seguida passou a lecionar na Universidade Saint Joseph, no Líbano. Em Beirute ele fundou o CEDRAC "Centre de documentation et de recherches arabes chrétiennes" que busca estudar as interações filosóficas, teológicas e históricas entre o cristianismo, o islamismo e o mundo árabe. Ele ministrou um curso privado para o Papa Bento XVI sobre teologia islâmica, em Castel Gandolfo. Pe. Samir tem muitos livros publicados sobre teologia e filosofia islâmicas.

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