terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os Doze Imames do xiismo

Os 12 Imames do Islâ: 1. Imam Ali ibn Abi Talib 2. Imam Hasan ibn Ali 3. Imam Hussain ibn Ali 4. Imam Zain ul Abideen ibn Hussain 5. Imam Baqir ibn Zain ul Abideen 6.  Imam Jafar as Sadiq ibn Baqir 7. Imam Musa Kazem ibn Jafar 8.  Imam Ali Reza ibn Musa Kazem 9.  Imam At-Taqi ibn Ali Reza 10.  Imam An-Naqi ibn At-Taqi 11. Imam Hasan Askari ibn An-Naqi 12. Imam Mahdi ibn Hasan Askari 



O islamismo xiita tem duas fontes de autoridade: o Corão e a Ahl al-Bayt (Família de Muhammad). Da união entre Ali ibn Abu Taleb, primo de Maomé, e Fátima az-Zahra, filha do Profeta, nasce a cadeia sucessória dos dozes imames. Esses são os herdeiros de Muhammad no governo da comunidade islâmica e os autênticos interpretadores do Livro Sagrado e entendedores da Sunnah.  Aos imames também cabe a compreensão do sentido esotérico das passagens corânicas. Dentro dos ensinamentos xiitas, ainda são considerados infalíveis e livres de pecado. A crença no imamato é o ponto de maior divergência entre o xiismo e o sunismo. 

A instituição do imamato, segundo o ponto de vista xiita, é uma graça (lutf) de Deus que destina as criaturas para a obediência e as distancia da desobediência, mediante o estabelecimento de uma autoridade visível. Quando os homens têm um chefe (ra'is) e guia (murshid) a quem seguir, que vinga os oprimidos do seu opressor e pune os infratores, então se aproximam da justiça e se afastam da corrupção. O imam é naturalmente dotado de uma superioridade (afdaliyyah), que faz dele um exemplo perfeito de virtude para a comunidade islâmica. Ademais, possui o completo conhecimento da Lei Divina. O outro aspecto fundamental do imamato é a noção de “ma’sum” (infalibilidade). Sendo o imam o centro espiritual e vital da Ummah, a sua condição reflete o espírito do islamismo, portanto, falar de um imam que comete erros e incide em pecados seria reconhecer a incredibilidade da revelação divina. Por isso que para os xiitas o imamato é um desígnio celeste e não uma escolha democrática dos homens. A eleição de Abu Bakr como o primeiro Califa, sucedendo a Muhammad, seria a antípoda da lógica divina e afrontaria a vontade de Deus na recusa do mandato de Ali e dos seus sucessores.
 “The spiritual status of the imam is the universal divine vicegerency that is sometimes mentioned by the imams (peace be upon them). It is a vicegerency pertaining to the whole of creation, by virtue of which all the atoms in the universe humble themselves before the holder of authority. It is one of the essential beliefs of our Shi’i school that no one can attain the spiritual status of the Imams, not even the cherubim or the prophets." Ayatollah Khomeini
A função esotérica do imamato é um dos seus aspectos mais fundamentais. A dimensão espiritual do Alcorão, que mais tarde o xiismo designará por “haqiqa”, que por sua vez traduziria um dos sentidos do termo grego “essência”, é aquela que revela a verdade das coisas, esta especial sabedoria que não é de comum conhecimento. Se o texto sagrado não tivesse um sentido verdadeiro e fundante todos os preceitos da religião positiva, “al-Sharia”, não teriam consistência autêntica e se tornariam puro legalismo. Destarte, a religião positiva islâmica é o sentido exotérico (zahir) da essência (haqiqa) que é o sentido esotérico (batin) do Corão. Há, pois, uma dialética entre o símbolo (mital) e o simbolizado (mamtul). Os xiitas, graças a esta perspectiva e mediante a primazia dado aos Imames na correta leitura dos dados da Revelação, admitem o desenvolvimento orgânico do aspecto legal da religião ao longo da história, ainda que o seu sentido verdadeiro seja permanente.
“Todo versículo corânico tem quatro sentidos: exotérico (zahir), esotérico (batin), o limite (hadd) e o projeto divino (muttala). O exotérico para o sentido oral; o esotérico para a meditação interior; o limite são os princípios que estabelecem a licitude; o projeto divino é o que Deus propôs fazer em cada homem através de cada versículo” Imam Ali ibn Abi Talib 
Finalizada a profecia (al-nabuwwa) se inicia o imamato (al-walaya), que é o desenvolvimento esotérico da profecia. O Imam, portanto, torna-se no coração da religião que vive na história. O imamato está intimamente associado com o sentido esotérico (batin) das palavras corânicas, o sentido que lança a luz sobre o Livro. Esse “segredo” é justamente a “walaya” que se torna o constitutivo essencial do imamato. Portanto, os doze Imames formam uma só luz e têm uma só essência verdadeira, compõem um só corpo de autoridade e sabedoria. Ademais, como epifanias da sabedoria divina, eles se identificam com os Nomes divinos. O Imamato é o que possibilita, assim, a continuidade profética sem a qual a humanidade perderia seu sentido religioso.
“In the same way that the Imam is the guide and leader of men in their external actions so does he possess the function of inward and esoteric leadership and guidance. He is the guide of the caravan of humanity which is moving inwardly and esoterically toward God.” Allamah Tabatabai
A luz divina, a investidura espiritual recebida por Ali ibn Abu Taleb, de modo solene em Ghadir Khumm, é transmitida aos seus descendentes. O Imam é a força vital que torna capaz a vivacidade da comunidade islâmica através das gerações. O seu papel é muito maior que o do Califa, o sucessor do Profeta no comando da Ummah. O Imam é o "wali" (mestre), como o Vigário de Deus na terra e encarnação da Divina Luz, possuindo um status espiritual que supera os limites da natureza.  De acordo com o Ayatollah Murtaza Mutahhari, a  “walaya”, isto é, a autoridade investida por Deus através de Muhammad aos Imames, tem quatro dimensões: o direito de amor e devoção (wila'-e muhabbat), a autoridade na direção espiritual (wila'-e Imamat), a autoridade na direção sócio-política (wila'-e zi'amat) e a autoridade da natureza universal (wila'-e tasarruf). Isso representa a centralidade da Ahl al-Bayt em todo o corpo doutrinário do islamismo xiita.
“Just as the Divine Compassion necessitates the existence of persons who come to know the duties of mankind through revelation, so also it males it necessary that these human duties and actions of celestial origin remain forever preserved in the world and as the need arises be presented and explained to mankind. In other words, there must always be individuals who preserve God's religion and expound it when necessary. The person who bears the duty of guardin and preserving the Divine message after it is revealed and is chosen for this function is called the Imam, in the same way that the person who bears the prophetic spirit and has the function of receiving Divine injunctions and laws from God is called the Prophet.” Allamah Tabatabai
Contudo, se o imam é fundamental para a manutenção da ordem espiritual, como entender essa cadeia sucessória com apenas doze luminares? O último dentre eles, Al-Mahdi, está associado com a crença na grande ocultação. Ele é o imam escondido que mediante a graça de Deus sobrevive ao longo dos séculos e que só reaparecerá nos fins dos tempos, juntamente com Jesus, para instaurar um reino de justiça. Ainda oculto, o imam continua sendo o pulmão religioso do mundo. Sunitas e xiita creem igualmente na vinda do Mahdi. Contudo, enquanto no sunismo ainda esperam o seu advento, no xiismo ele já é conhecido, mas vive sob o véu até o início dos eventos escatológicos. 

A permanência de uma autoridade ajudou no desenvolvimento filosófico e místico do xiismo, muito mais propenso à reflexão do que o sunismo. Diferentemente dos ulemás sunitas, os clérigos xiitas têm maior liberdade na elaboração de juízos independentes sobre novos aspectos da realidade. Contudo, a sua estrutura gnóstica pode dar a entender que o xiismo postula algum tipo de abolição do sentido literal do Corão e defenda a negação da religião visível e positiva, da Sharia. Entretanto, o islamismo xiita não admite a imanentização dos dogmas e das leis, como uma realidade normativa desprovida de essências verdadeiras e de sentido interior. Ainda que para a maioria dos homens as luzes do verdadeiro conhecimento estejam fechadas, faz parte da missão dos Imames manter viva a dialética entre zahir e batin.

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