quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O que é a Irmandade Muçulmana?

A Irmandade ou Fraternidade Muçulmana (Sociedade dos Irmãos Muçulmanos) é uma das mais emblemáticas facções políticas do islamismo moderno. Nascida num contexto de forte ingerência ideológica ocidental no Egito, esforçou-se por unir o discurso de libertação com os pressupostos religiosos salafistas. Enquanto o wahhabismo saudita surge na isolada região do Nejad, a Irmandade Muçulmana se inseria num cenário cosmopolita. O seu fundador, Hassan Al-Bana, educado dentro dos paradigmas europeus e de tendência socialista e nacionalista, declarava que o Corão deveria ser a base do sistema legal egípcio. Somente através do Islã as injustiças seriam superadas e a pureza moral reinstaurada. 

Após a destruição do primeiro e segundo estados sauditas alguns ulemás formados dentro da cosmovisão wahhabita emigraram para o Egito. Contudo, ainda que Al-Bana não possa ser considerado estritamente adepto do wahhabismo, ainda mais por ser membro da ordem sufi al-Hassafiyya, é inegável que o discurso “salafista”, como concebido pelos sauditas, marcava o espírito reformista da época. Al-Bana era um forte crítico da presença ocidental na sociedade egípcia e culpava os valores estrangeiros pela degeneração moral e social do Egito. Apenas o Islã poderia retomar a identidade popular e realizar o projeto de justiça. Assim, através de uma interpretação menos rígida que o wahhabismo, pensava a religião como meio para alcançar os objetivos sociais. 

O outro grande líder da Irmandade Muçulmana, responsável pela sua estruturação ideológica, foi Sayyid Qutb. Em seu livro “Milestones”, afirma que fé depende da liberdade de convicção. Contudo, esta necessita da superação dos obstáculos que dificultam a submissão do homem a Deus. Portanto, só haverá verdadeiros muçulmanos e verdadeira sociedade islâmica quando todos os entraves forem destruídos, ou seja, quando a “alienação” causada pela degeneração ocidental fosse derrotada. Qutb defendia explicitamente o uso da força como forma de superação dessas barreiras e das influências materiais que não permitiam o avanço do Islã e afirma de modo claro que a paz não é uma garantia de ordem interna dentro da comunidade islâmica e nem mesmo um princípio, mas um fim a ser alcançando ou conquistado. O seu livro condensa uma teologia da práxis baseada no direito à libertação. 

Contudo, a Irmandade Muçulmana difere radicalmente do wahhabismo em sua estratégia para enfrentar o desafio da modernidade. Marcada por líderes conhecedores da cultura ocidental, como Hassan Al-Bana e Sayyid Qutb, adotou um cartilha de reforma que envolve o mundo moderno. A sua abordagem está na penetração e transformação das instituições ocidentais com o objetivo último de provocar o mesmo fim querido pelos “salafistas”. De modo geral a Fraternidade é mais pragmática em seus métodos, seja através da adaptação da linguagem, como pelo uso da própria realidade moderna como instrumento para modificá-la. Ademais, os “Irmãos Muçulmanos” adotam um discurso e uma aparência menos religiosa que os similares wahhabitas. Ainda que ambos os segmentos compartilhem de um mesmo paradigma, como o império da Lei Islâmica sobre a Lei Secular, a Irmandade é mais tolerante com alguns valores modernos, tais como a igualdade de educação para as mulheres e aceitação de religiões não muçulmanas.  

A ideologia da IM interage de modo mais eloquente com a cultura ocidental, inclusive usufruindo dos seus benefícios para o melhor aprimoramento das suas fileiras. Tem um olhar positivo sobre a ciência moderna, e desenvolveu posições ideológicas em relação aos desafios colocados pelas novas realidades políticas e econômicas. O seu apelo intelectual desperta o interesse entre muitos membros da elite muçulmana, que encontram em seu discurso o teor religioso wahhabita, mas sem o anacronismo típico dos sauditas. Ademais, assimilou diversos aspectos das ideologias ocidentais, como o nacionalismo e o socialismo, e do vocabulário típico. A IM fala de “democracia”, mas a reinterpreta para se referir ao seu objetivo final de implementação da sharia. 

A ideologia da Irmandade Muçulmana estava baseada nas etapas da  “da'wa” ou proclamação do Islã. Inspirada na vida de Muhammad, os “Irmãos” vão defender que a princípio o Islamismo, como é pouco visível, cresce num âmbito individual. Em seguida, uma comunidade é formada com a criação de instituições. Finalmente chega o momento da tomada do poder pelo Islã, seja através de processos políticos graduais ou, se necessário, pela jihad. De acordo com este modelo, a IM entende  que a jihad militar é um método para os estágios mais avançados da implementação do Islã, assim como foi na própria vida profética de Muhammad. Consequentemente, até que o movimento islâmico atinja o patamar oportuno, a jihad deve ser minimizada ao máximo.  Enquanto a Fraternidade parte da islamização da sociedade, até mesmo pela infiltração em estruturas já existentes, os wahhabitas adotam um método mais agressivo, através do aumento de adeptos e difusão da jihad. 

As relações entre a Irmandade Muçulmana e a Arábia Saudita são complexas. Por muito tempo a Fraternidade foi apoiada pela Casa Saud, que via em sua ascensão política no Egito o aumento da influência do wahhabismo. Com a perseguição iniciada por Gamal Abdun-Nasser muitos Irmãos Muçulmanos encontraram asilo no reino de Faiçal Al-Saud. Contudo, wahhabitas e a Irmandade Muçulmana partilhavam de uma mesma pretensão: a liderança política no cenário islâmico e árabe, competindo entre si por poder. A crescente influência da ideologia da Fraternidade na Arábia Saudita, inclusive com o completo domínio do sistema educacional, acelerou o rompimento entre as duas facções. A Irmandade Muçulmana foi banida do reino e considerada desde 2014 uma “organização terrorista”.

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